Suplente de Esposa

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Sabe aqueles dias que você não está nem um pouco a fim? Então. Era ela. Um filho em semana de prova e outro de cama, vomitando a casa inteira.

Pra piorar, ele. Sinuoso e sibilando. Pleiteando o que lhe era de direito. E não sossegava. Queria porque queria. Ai dela se não valorizasse a preferência.

_Busco na rua onde tenho aos montes – ameaçava _ Depois não diga que não avisei – pra fechar com chave de ouro_ É bem como dizem por aí. Quem tem uma, não tem nenhuma. Quer saber do que mais? Vou atrás de uma reserva. Uma suplente. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus…

_Aposto uma perna que não acha nada melhor – manifestou-se ela, a titular na ocasião.

_ Cê que pensa – retrucou o topetudo _ Sabe a Anne?

_Que Anne?

_Aquela. Bonitona. Mãe de um moleque da rua. Cê abra o olho com ela – não satisfeito, prosseguiu enumerando _Tem a Mikio, também. A mestiça fabulosa do clube de campo. É estalar um dedo e pronto. Vem correndo aqui pro papai…

Anne? Mikio?,  pensou, pensou e nada. Mas lembrou da Verinha. E ficou fácil. Foi passando a mão no telefone e discando.

O outro ria, Vera? Que Vera? Tá doida?  Dessa nem eu estou sabendo…

_A noiva do teu primo. Quem mais?

_Hein?

_Acompanhe comigo: nem bonita, nem feia. Além do que é discretíssima. E fica tudo em família. Muito mais negócio, oras bolas…

Só sei que ele murchou, assim que alguém do outro lado da linha atendeu.

_Vera? Sou eu, querida…

Desligue isso, sua desregulada, pediu ele, em cólicas, ciscando aflito entorno dela.

Desregulada, não. Cansada. Assoberbada. Atolada. Descabelada. Tudo. Menos, desregulada. E continuou. No maior papo. Até chegar onde queria.

_Então, colega. Acontece que estou precisando de uma mãozinha com o Ocimar. Será que rola?

E seguiu, colando isso naquilo, numa matraquisse sem tamanho. Insistindo na proposta descabeçada, como se tratasse de uma grande ajuda humanitária.

_Afinal, que culpa tem o coitado se as crianças consomem todo o meu tempo? Não fosse isso, nem fazia tal pedido.  É quase uma caridade que presta aos parentes. E estamos falando aqui de uma assistência pontual. É mais do que o pobrezinho precisa…

Enquanto isso, o homem desmoronava. Membros bambeando e camisa empapada, a ponto de desmaiar.

Foi explícita ao limite_ Jantar? Tá de brincadeira, né? Que isso eu mesma faço e é todo santo dia – pra encerrar num grand jeté _ O negô tá num sufoco bíblico, compreende? Se trocar de turno comigo, fico devendo uma. Uma não, dez! Das grandes. E pra sempre!

Sei que desligaram.  E virou uma sarna. Azucrinando o que restara do infeliz.

_Tá fazendo o que parado aí? Ande, meu filho! Antes que a moça desista – cheia de pressa e recomendações _E não apronte, nem dê trabalho, pelo amor de Deus! Viu a dureza que foi pra arrumar essa? Outra eu juro que num guento…

E correu casa afora. Tentando lembrar da Anne e da Mikio. Doida por uma reserva. Ou suplente. Afinal, quem tem uma, não tem nenhuma. Ao menos é o que dizem por aí. E sabem como é, né? A voz do povo é a voz de Deus…Suplente de Esposa

Será que ele é?

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_ Juninho, quié isso? – era a mãe quem perguntava. Toda esbaforida. Trazendo aquilo numa das mãos. Que se não era cueca, muito menos calcinha. Mas algo que derivava entre as duas. Só que colante. E cavada.  Cravejada de mimosas caveirinhas rosa-purpura-cintilante, de corar de inveja o performista mais estroboscópico.

O outro nem se apertou _ Ué, mãe. É uma saqueira. De halloween…

_E desde quando a Julinha gosta tanto assim de halloween?

_Não gosta.

Silencio gordo. Ninguém nem pisca.

_Não é dela, né? – arriscou a senhora.

_Não.

Bastou pra ela cruzar os braços e a cara, irredutível.

_Explique isso, menino. Agora. E bem direitinho…

_Tá – há tempos vinha evitando, mas enxergou a deixa. E resolveu assumir _ Sou bi.

Bivolt? Biologicamente desfavorecido? Biograficamente prejudicado? Bienvenido al club de los  cabrones catadores de muchachas, solamente muchachas, para siempre muchachas y oléééé!

É. Nada é fácil nessa vida. Nem simples. E tomada de um mau humor repentino, ralhou com o filho como se fosse criança.

_Que conversinha boba é essa, posso saber? Coisa de homem direito, tá na cara que não é.

_Nossa, se é – divertiu-se o moço – Sou homem, não vê? Só não o tempo todo.

_Quer dizer que…

_Quer dizer que gosto de pessoas.

Ufa. Não corria o risco de ter uma suçuarana como nora. Nem um orangotango. Ou Corrupião-de-papo-amarelo. Já pensou?

Ele continuou. Numa didática discutível _ É que de vez em quando tiro férias. E libero a bandeirada… – e foi saindo de fininho. Antes que alguém se desse conta.

_Onde pensa que vai? – insistiu ela, abanando-se.

_Viajar – e sorriu. Na maior caradurisse do mundo _ Emendar o feriado…

_Feriado? Que feriado?

Sumiu.

Foi ele sair por um lado, pra Julinha entrar pelo outro. Na ladainha de sempre, “Que o Julinho anda disperso. Que não procura. Nem responde. Não com a metade da vontade que deveria…”

_Liga, não, boba. É que ele está… de férias… viajando – completou a velhinha, sem muita convicção.

_E ele volta?

_Volta – cruzando os dedos em figa

_E faço o que enquanto espero?

_Reze, meu bem. Reze muito – lembrando de acrescentar _ Gostar de halloween também ajuda, viu, filha? – e se benzeu _ Barbaridade…

Será que ele é?

Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto

Uma senhora de bem

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Outro dia, remexendo um tanto, descobriu um azulzinho em meio as tralhas do marido.
Caiu no choro, Paulo Roberto tem outra!
Fez cena. Minguou. Até surgir um fato novo. Não havia outra. O brinquedinho era pra ela.
Piorou.
Agora, ficou foi brava. Uma pimenta, Onde já se viu? Sou sua esposa, desconjurado! Isso lá é coisa que se proponha a uma mãe de muitos filhos?
_Mas, Ibraina…
_Não tem mais, nem menos! E tome tento, seu velho safado…
_Imagine só, benzinho! Horas e horas de prazer ininterrupto…
_Acha que já não imaginei? – e o arrepio veio, cruzando corpo e alma _ Ande logo. Jogue esse troço fora. Agora, mesmo! Vai, vai, vai, vai…
_Quando contei que o fulano usava, foi a primeira a achar graça!
_Ele usa com a namorada, criatura de Deus! Pergunte se incomoda a esposa com zonzeiras? Pergunte?
_E você? Que tal ser minha namorada de novo, hein? Hein?
Cruz credo, pé de pato, mangalô três vezes! E saiu. Numa benzeção danada casa afora. Com ele atrás, mascando, Pense nas vantagens, mulher! É negócio da China, escute o que estou dizendo…
Ela ligou o rádio bem alto. Na oração da manhã. E cantava junto, lavando louça e maldizendo.
Ele? Não arredou pé, moscava e insistia.
_Tenho um amigo que tomou dois de uma vez! Disse que os efeitos duraram dias…
A cena passou diante dela, que mareou. Feio. Mas, curiosa que só vendo, não resistiu e quis saber, Quantos dias?
_Três!
_Três???
_Firme que nem varal…
Não disse sim, mas, também, não disse não. E ele retomou.
_Tentar não mata. Vai que gosta…
_E o trabalho? E a janta? A casa, quem varre, posso saber?
_Quando se vê, já acabou e achou pouco. Vai por mim, que é coisa boa – e catando a pobre pelas ancas, emendou _É pá, pum e tchanananan!
Encrespou-se toda, até onde não via mais _ Cê que vá tchanananar lá pras bandas das suas negas! E quer mais? Aqui, nem morta! E deixe o padre saber disso…
_Padre? Que padre? Tá doida, Ibraina?
_Isso é safadeza, Paulo Roberto! E das grossas…
Desceu o bico, encerrando a conversa. Na mesma tarde botou fora o tal remedinho milagroso. Pra tristeza do outro, que nada pode. E ainda teve que aguentar, Na rua, a gente até entende. Mas, dentro de casa e com a própria esposa? Onde já se viu, Paulo Roberto! Sou uma senhora de bem, está me ouvindo? Uma senhora de bem…

Uma senhora de bem

Problema na Parafuseta

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Alguns conceitos já eram. Aquele papo de onde comem dois, comem quatro, por exemplo, morreu. Culpa de quem? Da tecnologia.  Quer ver só: dê um tablet a uma criança e você tem sossego. Por horas. Dias. Até Meses. Agora, experimente acrescentar mais duas crianças a essa cena e tem-se um princípio de intifada. Que vai do popular, Mas, mãe, é meu… Ao não menos famoso, Tia, ele não quer emprestar

Com a vó Celinha foi mais ou menos assim. Visto que a história também tinha crianças. No caso, os netos. E um computador, que ela precisava usar. Mas deixem que explique direitinho…

Vó Celinha, como o próprio nome indica, é uma velhinha gente boa. Dessas fáceis de gostar. Que andava amuada havia meses. Por conta da saúde, coitadinha, começando a incomodar.

Se não eram as costas, eram as pernas. Ou as ancas. Pior, mesmo, só a menopausa. Quando o corpo todo requentava. Com a vó Celinha fervendo por dentro e por fora. De um lado, ela, entrincheirada. Do outro, eles, os hormônios, enlouquecidos e em baixa. Incendiando ônibus e depredando patrimônio público em plena Avenida Paulista. Vixe

A neta veio em seu socorro _comigo, vózinha, que o Pezão te conserta num tapa

_Que Pezão, o quê, menina-doida? 

Ela riu e explicou _ Estudamos juntos, vó. Vai por mim. O Doc é fera…

E vó Celinha cedeu. Do jeito que sofria, pouco importava se era o Super Maneta ou o Profe Sovaco. Destampando a chaleira, estaria de bom tamanho.

Então, foi. Arrastada pela neta. Que chegando ao consultório, cutucou _Aproveite e calibre, vó. Dê uma aditivada na “coisa”, pro vovô ficar contente…

_Que é isso, menina?  Demorô tanto pro velho sossegá, e vem você querê ligá ele de novo? Credo!

Emburrou. Até que foi chamada. E do jeito que entrou, saiu: contrafeita e resmungando. Só que lotada de feromônios, suplementos, cremes e recomendações. Além, é claro, da promessa de um breve retorno. Munida de melhoras e resultados.

Sossego foi o que faltou. Principalmente ao seu Leopoldo,  Aí, vô. É fraco, não, né? Depois da geralzona da vovó, melhor deixar as barbas de molho. Só por garantia. Pra não decepcionar…

Tanto fizeram que ele especulou:

_É verdade isso aí que as crianças andam falando?

_Ô, Leopoldo! Tenha a santa paciência, meu filho… – tamanho rebuliço deixou vó Celinha ressabiada. Onde há fumaça…

 Resolveu fuçar. Começando pelos laudos. Era só abrir uns envelopes e…

_Que envelope, nada, vó. Hoje em dia é tudo online.

_E faço como?

Era o caçula quem ajudava _Clique aqui, ó. Isso. Digite sua senha e código. Pronto. É só ler. tudo aí, tim-tim por…

_Só um instantinho. Preciso do micro, agora! – era o Toco, neto mais velho, estudante de mecânica e dono do computador_ Tenho um laudo de motor avariado pra redigir e enviar.

Foi a vez da senhora responder _Pode usar, querido. A vovó espera…

_Valeu, vó – até que não demorou muito. Laudo enviado, salvo e minimizado na tela plana do computador.

E assim foi. Trocentas vezes. Um neto após o outro. Desembestados. Com um trem qualquer de última hora e máxima urgência que não podia esperar. E o computador encheu-se de arquivos. Todos devidamente salvos e minimizados, esperando pelo próximo usuário.

Quando a casa sossegou, vó Celinha perguntou mais uma vez ao caçula:

_E agora? Como vejo meus exames?

Ele, sem tirar os olhos de um brinquedo qualquer que empunhava, apenas disse _ Abra e leia, ué…

. Mas, o quê? E como? São tantos ícones e caixinhas. Tudo tão igual. Enfim. Se todos os caminhos levam a Roma, qualquer um deve valer. E clicou onde bem entendeu. No primeiro arquivo que viu, que por acaso era do Toco. Aquele. O neto mecânico. E curiosa como estava, nem notou a diferença. Pigarreou. E começou a ler.  Em voz alta. Até parar, estarrecida, Virgem mãe e santa…

Perdeu a cor e a graça à medida que corria o texto. Mas, seguiu. Abestalhada.

Além do desgaste rotineiro, foram detectadas áreas de corrosão excessiva nos dutos de lubrificação. A falta de óleo afetou irremediavelmente a resistência das paredes internas. Sem falar no elevado nível de atrito nas rotativas e na baixa aderência no comando de válvulas…”

Engoliu em seco. E continuou.

Nota-se aqui um caso extremo, onde a solução mais indicada é o uso de aditivos. A aplicação regular de Bardahl B12 tende a facilitar a entrada, além de suavizar o sobe e desce dos pistões, independente do perímetro, tamanho e da força aplicada…”

Na sequência, o baque seco. E o caçulinha que gritava.

_ Gente, acode aqui! A vó Celinha desabou!

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É Hoje…

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Mais ouriçados que eles, ninguém. Também, pudera. Havia décadas que não faziam. Como, o quê? Sexo, é claro.

Vontade até que tinham. Faltava tempo, sossego e oportunidade. Mas, eis que o improvável aconteceu. Com as crianças dormindo cedo e pesado. Deixando os dois ali. Faceiros. Num resfolego da moléstia.

Foi um tal de, Vai! Vai! Vai!, e, Vem! Vem! Vem!, com, Mais pra lá! Passou! Distorça tudo e volte, que quem ouvia jurava que estacionavam uma cegonheira, numa vaga para monociclos.

E olhe que começaram pelo básico. Em um dois pra lá, três pra cá, impossível de errar. Bem por isso, ela reclamou. Queria mais. Rojões, morteiros coloridos e sininhos tilintando.

Recorreram aos áureos tempos de namoro. Onde nada escapa, tudo pode e quanto maior o cheiro de encrenca, melhor. Se bem que não dispunham mais daquela elasticidade toda. Nem da forma. Ou destreza. Enfim. O que daria errado em uma noite auspiciosa como aquela?

_Que cara é essa? – estranhou ela.

_Qual era, mesmo, o nome daquela posição que você adorava? – respondeu ele, mal-intencionado até o caroço.

Ela riu _ Qual? A Viga Inclinada ou a Ponte Suspensa. Será que a gente ainda lembra?

_Moleza! É só pôr o seu pé direito no chão, sua perna esquerda pra cima, meus dois braços espalmados por baixo e as cabeças pendendo inclinadas…

_Não! Essa é o Caranguejo Reverso Rastejante! Falava daquela onde a sua perna vai por baixo, minha barriga por cima, seu tronco virado pra trás, enquanto prendo seu pescoço com meus pés, assim, ó…

Ao que ele deu o alarme _ Nãaaaaaaaaaaaaaaao!

_Credo! Que foi?

__Meu deltoide! Tá pinçando o meu deltoide!

__Se tentarmos outra? Você bem que gostava da Mula Manca Sentada, hein? E tinha aquela, também: a Misteriosa Flor de Lotus Dourada na Tromba Torta do Elefante Africano

E antes que ele assentisse, ela já distribuía funções _Vamos lá! Eu ajoelho, aqui. Você fica de lado, ali, apoiando seu cotovelo esquerdo bem no meio do meu plexo solar, assim! Enquanto centro a base da minha coluna no hemisfério posterior da sua…

_Aiiiiiiiiii…

_Mas será o Benedito?

_Meu bíceps! Travei meu bíceps! Ou será que foi o tríceps?

Relevou pra não perder o marido, nem a noite de regalos e fantasias. Outra assim, só em mil anos. Ou se o Flamengo for campeão. Vai saber, né?

Ele, preocupado, resolveu acelerar _Não tem algo mais simplinho que dê pra gente fazer, não?  Tipo arroz com feijão de panela de barro. Bem temperadinho…

_Algum problema com o meu arroz com feijão?

Lascou-se.

_Se tiver, fale. Não me venha com indiretinhas gastronômicas…

Alerta vermelho! Alerta vermelho! Ele que não era bobo, nem nada, preferiu não arriscar.

_É o melhor feijão do mundo. Refeição pra mais de dez talheres. E venha cá que eu…

_Venha cá, uma ova! Ontem, mesmo, peguei você separando. Comeu arroz puro. E eu vi!

Vixi…

_Exagerou no louro. Pronto. Falei – pontuou o tinhoso.

_Arrá! Se fosse na sua mãe, aposto que lambia a panela.

_Lá vem você implicando com a minha mãe…

_Meu feijão tem louro demais? Onde já se viu! Pois fique sabendo, que o feijão da sua mãe tem mais folhas que minha salada completa. E você reclama? Nãaaaaao!

O esfrega teria seguido noite adentro, não fosse a movimentação extra vinda do quarto dos meninos. O barulho fez com que voltassem a vida e a ordem: Escute aqui, que tal abandonarmos essa história de Elefante Com Trombose e ir logo ao que interessa?

Papai e mamãe? Fechado! Além do mais, combate os radicais livres. Melhora o tônus muscular, o humor e não engorda.  Perfeito. Não fossem pelos passinhos arrastados e a vozinha inconfundível, Ô, manhê!

Congelaram. Depois foi um tal de cobre, ajeita e esconde que, por pouco, não caíram da cama.

_Cadê o lençol?

_Que lençol?

_Aquele que você arremessou jardas além no meio da sua bendita Ponte Levadiça…

_Era Ponte Suspensa! E se alguém perdeu o lençol, foi você com seu Boitatá de Cócoras…

_Mula Manca Sentada! Mula Manca Sentada!

Como a ordem dos fatores não altera o produto, continuaram sem um mísero paninho para encobrir. Nem um lencinho umedecido pra chamar de seu.

A mãe apelou pro berro a distância_ Já pro seu quarto! E ligue a TV. Bem alto!

Acho que sossegou. E aí, vamos? Opa! É agora ou nunca…

E bem na hora do quase, ao invés do OOOOOOOOHHHHHH, veio um UUUUUUUUIIIIIIIIII.

 _ Meu supino! Estirei meu supino!

_O que eu faço? Paro?

_Nunca! Jamais! Só chegue um pouquinho mais pra lá… – e ela obedeceu, prontamente. Sem saber que era a vez do menor acordar, Manhêeeeeeeee…

Ignore-o, ordenou ele.

_Mamãezinha!

Continue ignorando, implorou, em completo desalento.

_Fiz xixi na cama. Todinha. Cocô, também…

E abriu o maior berreiro. Altíssimo. Em si bemol sustenido e estourado. Que só parou depois do banho. Quando deitaram os quatro juntos. Com os moleques no meio. E o casal se olhando. Cada qual numa pontinha. Imaginando quão longo um milênio poderia ser. E o Flamengo? A quantas andaria no campeonato, hein? Alguém sabe? O que vier primeiro, atende. Alguém? Qualquer um…Imagem

E aí, vamos?

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Quarta-feira era puxado. Com ele operando em São Paulo, enquanto ela dava aulas na Baixada. A criançada ninguém nem via. O dia inteiro na escola. No integral. Os três. Duas de cinco e um de oito. Que a avó entregava bem tarde. Banho tomado. Barriga cheia e capotando. Só deitar e dormir.

Por isso ela estranhou a ligação. Bem no meio da tarde. E atendeu ao primeiro toque.

_Algum problema? – tratou logo de perguntar.

_Tá ocupada? – foi a resposta que obteve.

_Não. Minhas aulas foram transferidas. Devo dobrar amanhã. Por quê?

_Estou sem agenda – ele emendou _ Quanto tempo leva para descer?

Aquilo sim era novidade. De onde estaria ligando?

_E as cirurgias? – ela insistiu.

_Hoje? Nenhuma – e acrescentou, num tom pra lá de diferente _ E aí, vamos?

Será? E por que não?

_Mas as crianças… – tentou ponderar.

_ Esqueça as crianças. À noite a gente pega…

É. Na dúvida, melhor não desperdiçar

_Que bicho te mordeu? – quis saber, enquanto socava tudo na bolsa e preparava-se para sair.  

_No caminho te conto. Ande logo. Venha…

Se encontraram no carro. Em frente a saída principal.

_Estou daquele jeito – disse ele, baixando a voz.

_Quer saber? Eu também…

_Jura?

_Uhum…

A correria das festas. O vuco-vuco do final de ano. As crianças. A vida. A Síria derretendo. Ibovespa em alta e nenhum tempo no mundo para eles. Nunca.

Ela já sabia onde iam. E achou graça. Ele acelerou. E partiu. Primeiro passaram em casa. Pra pegar umas coisinhas e seguir viagem. Antes, ela deu um google. E veio a lista. Completa. Os melhores motéis da cidade. Com fotos. Hashtags e promoções.

Escolheram um. Confortável. Meio na sorte e bem no meio do caminho. Às dezessete e trinta e quatro de um tarde muito quente.

A suíte, bacanuda, até que combinava com dia. Totalmente fora do lugar comum. Com Piscina no quarto. Hidro. Cromoterapia. Pistinha. Teto solar e um milhão de canais eróticos, com sacanagem para todos os gostos e até dizer chega. É hoje, meu Deus. É hoje…

Ele afofou os travesseiros e ficou. Esperando. Por ela. Que veio na sequência. De gatinho. Até parar. Em frente ao maridão. Que sussurrou, mansinho _ Venha. Deite aqui…

_Assim?

_Não. Assim, não. Tire.

_E isso? Fica?

_Tire, também.

_Tem certeza? Quanto tempo temos?

_Preciso de quatro horas. No mínimo…

_Você tá que tá, hein? Melhor ligar para os meus pais…

_Faça isso.

Ela foi e voltou. Cara de quem vai fazer bobagem. E não vê a hora pra começar. Ele já tinha tudo ajeitado. Aí ficou fácil.

Foram encostando e desmontando. Quem dormiu primeiro, ninguém viu. Mas roncavam. E Alto. Acordaram na marra. Com o barulhinho chato do alarme do relógio dele.

_Quero mais – ele pediu, guloso.

_Jura? Cê dá conta?

_Opa! Como nos velhos tempos, lembra?

_ Ô…

_E aí? Aguenta? Então venha cá, minha gostosa…

 E enroscaram. De novo. Agora, com mais força. Bocas abertas e babando. Imersos num prazer inenarrável. Escandaloso. Por mais quatro horas ininterruptas. Pra sair desabalados porta afora. Cabelos molhados e cara de missão cumprida. Depois de duas. Seguidinhas. E sem sair de cima. Eita, delícia…