Você vem?

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Primeira vez é osso. E ele tinha pressa. Então, nem esperou muito e foi logo marcando um hotelzinho no centro, mesmo. No dia combinado, compareceram os dois.

Se bem que ela, ressabiada, saiu botando reparo em tudo. Da idade das colchas ao encardido do assoalho. E avisou, Por sorte, vim preparada. Melhor que isso: preparadíssima!, sacando dum par de luvas amarelas de látex, ideal pra limpeza pesada. Mais escovas sanitárias e desentupidor. E, sentada ao chão, pôs-se a esfregar.

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Cuti-Cuti

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Bom dia, moreco-pimpão! Quem é o cajuzinho-Xtudo, mozão-mais-cuti-cuti da minha vida, hein?, mandou ela por whatsapp. Interrompendo a reunião dele. Não satisfeita, tratou logo de acrescentar dúzia e meia de carinhas sorridentes. Mais vinte coraçõezinhos. Vinte, não. Trinta. E um golfinho ao final. Pronto. Agora, sim. E aguardou. Até que ele leu. Mas responder que é bom, nada. Sendo assim, voltou à carga.

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Misericórdia

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_Jantar de amigos? De novo! – emburrou ele.

_Qual é o drama? –  emendou ela, lacônica _Há coisas piores…

_ Fale por você – resmungou o bicho do mato. Desses que não abrem a boca por nada. Capaz de passar uma noite inteira convertido em estátua, num silêncio obtuso_ Esse negócio de frequentar não é comigo. Gente nova me dá arrepios. Principalmente se vêm em bando…

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Segundas Intenções

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Voltou para casa mais cedo. Eufórica. Perturbando a vizinhança inteira.

_Cês viram? Estreia nesta quinta: Marcas de um amor. Parte seis. A lenda continua. E aí? Quem topa?

Nenhuma resposta. Pelo contrário. A mãe alegou cansaço e uma crise reincidente de labirintite. A irmã, trabalho. E assim, todos. Um por um. Tia. Tio. Concunhado. Conhecida de porta. Mocinha que vende Avon. Até que colou numa amiga mais chegada. Com quem insistiu, à plena carga.
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Ops…

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_Sua mesa está pronta, senhor. Queira acompanhar-me , por favor – pavoneou o garçom, sambando em frente da família. Pai, mãe e uma tripinha de filhos.

_Sejam bem-vindos – continuou o funcionário, enquanto lhes indicava as cadeiras_ Já sabem o que pedir? Não? O especial da casa, hoje, é espaguete com almondegas. O melhor do mundo. Não vão se arrepender.

Súbito, quando menos esperavam, retornou ele. Pratos fumegando e abarrotados de macarrão.

_Garçom?  – era o pai, reclamando_ Temos um probleminha aqui. Quedê as almondegas? Não vieram.

_Em absoluto, senhor –  devolveu o outro, destampando uma enorme travessa – Nossas almondegas são personalizadas. É que nosso cozinheiro é estupendo. Um gênio na arte das caçarolas _ e prosseguiu, servindo prato a prato _ Aparício, para o senhor, Zulmira, para a senhora e Huguinho, Zezinho e Luizinho, para as crianças.

O pai, arredio como era a novidades e suas pajelanças, fez cara feia e tratou de impor resistência, protestando.

_Desculpe. Mas deve haver algum engano. Essa almondega, definitivamente, não é minha. Já que sou Aparício Rodrigo.

_Certamente – admitiu o empregado_ Perdoe-me o erro, senhor. Estava aqui o tempo todo – trocando a pelota de carne por outra _ Aparício Rodrigo Bastes Coelho da Fonseca Torres Junior. Confere?

A mulher foi ao delírio. E pediu uma quentinha cheia. Quinze quilos, não mais. O suficiente para presentear a vizinhança toda lá no Morro dos Cabritos. Enquanto Aparício, visivelmente contrariado, buscava um novo jeito de interpor recurso. Tanto que desdenhou.

_ Nem essa. Já que sou engenheiro.

_Pois não – disse o rapaz, permutando a almondega mais uma vez _ Formado pela Federal Fluminense. Trinta e cinco anos de carreira. Que tal essa, senhor?

Mas o homem não desistia.

_Ainda não. Que sou espírita

Outra porpeta. Mais roliça e macia que as anteriores.

_ Centro Irmãos da Luz, toda terça e quarta. Das 19:00 às 21:30hs…

_Centroavante – gabou-se Aparício Rodrigo, Agora, eu quero ver. Vire-se com essa, meu filho…

Nova bolinha de carne.

_Camisa nove. Time dos casados. Não marca um gol há sete rodadas do campeonato…

Sei que a coisa ficou pessoal.

_Aí não diz que eu sou casado. Viu, só? Não é minha.

E as almondegas sucediam-se.

_Basílica do Imaculado Coração de Maria. Três pajens e uma festa meia-boca. Cinco de janeiro de mil novecentos e oitenta e um…

A verdade é que Aparício Rodrigo espumava, Onde já se viu? Almondega nenhuma sabe mais da minha vida do que eu!, e tiririca da Silva, vociferou.

_Colega: na cara que essa almondega não é minha. Compreendeu? NÃO-É-MINHA!

_E não é que o senhor tem razão?  – espantou-se o garçom, realizando nova troca_ Agora, sim: enrabichado da Zenaide. Há um ano, três meses e dois dias…

_Oi? – esbranquiçou o homem _ Não tenho a mínima ideia do que essa almondega está falando.

_Como não? Tá aqui ó: estagiária, curvilínea, atrevida e que mal completou dezenove…

Foi a vez da mulher entrar na dança. Com um golpe incisivo do seu salto agulha, acertando em plena fúria o dorso do pé do marido. Que gemeu. Enquanto os ossinhos estalavam.

_E com fratura na falange, tem? – perguntou ela. Toda interessada.

_Bom. Não sei – desconversou o funcionário da casa.

Novos solavancos e sopapos e saraivadas de tapas e beliscos.

_Faz o seguinte, procure aí : esfolado vivo, contundido, despejado… Que desquitado eu sei que tem. Certeza absoluta, viu? Olhe direitinho, que eu juro que você acha…

OPS

Quer Apostar?

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Sempre chorava em casamentos. E disso não fazia o menor mistério. Nas bodas de ouro de seus pais, então, soluçara e suspirara a festa inteira. Até que se assoando num lencinho, achegou-se a sua mãe, confidenciando:

_ Bom demais isso tudo de casar e ter família, né?

_Nem brinca, filhinha – comemorou a doce senhora _ E quer saber? Foi amor à primeira vista. Culpa dum diacho de pastel de pizza. Pode isso?

_Verdade?

_Por Deus –  e pôs-se a explicar_ Tava eu lá: esquina da Manoel Guedes com a Pedrosa Alvarenga. Esperando a chuva passar. Quando dei de cara com seu pai. Vindo em minha direção. Todo garboso. Abanando e assoprando um pastelão de todo o tamanho.

_E daí?

_Daí que me ofereceu. E eu não só aceitei, como comi tudinho – ainda fez graça_  O melhor pastel da minha vida. Uhhhhhh….

_E depois?

_Depois? Nada. Que a gente nunca mais se viu. Até que no ano seguinte, mesmo dia e mesma hora, trombei com ele de novo. Plantadinho na esquina a esperar por mim.

_Tá brincando…

_Seríssimo. Incrível, né? O resultado você conhece– suspiraram e despediram-se.

A moça, durante uns dez ou quinze minutos, deixou-se ficar ali. Entregue a magnitude daquele amor incontestável e grandioso. Segura de que não existia no mundo casal igual, nem parecido. Únicos em adoração, fascínio e cumplicidade.

Mas a verdade é que, no fundo, experimentava uma surda irritação, Bolas! E agora? Como é que eu fico? Onde vou achar alguém que chegue aos pés do meu pai, hein? Raios! Casar, eu? Im-pos-sí-vel. Quer apostar?…

Saiu triste e cabisbaixa. Ao passar pelo buffet, topou com o pai petiscando numa grande mesa. E resolver ajudar

_No duro: tudo divino, viu? De comer ajoelhada _ e piscou, cheia de intimidade_  Só  não tem pastel. Mas o enroladinho é de pizza. Sendo assim, bom proveito…

_ Eca, menina! Tomate me dá colite, esqueceu? Misturado com queijo, então, no mínimo, três dias de desarranjo garantido, se não for pior. Fora aquele orégano todo encalacrando nos dentes. Ui! Gosto nem de pensar….

_ Não parecia tão preocupado no dia em que se conheceram… – cutucou ela

_Eu pedi carne. Mas o pasteleiro se enganou e ainda cobrou dobrado. Ah, se fosse hoje…

_O recheio pouco importa. O que conta é que dentre todas as meninas da cidade, foi a mamãe quem você escolheu pra partilhar… –  emendou ela, tremendamente emocionada .

_Acha que é fácil repassar um pastel encharcado debaixo de chuva? Eu bem que ofereci, mas até o velhinho do realejo pulou fora. Só a sua mãe aceitou. Aquela esfomeada…

_Morta de fome, ou não, fato é que você se apaixonou por ela.  Perdidamente. E viveu um ano na mais platônica e cruel veneração – foi quando teve pena_ Deve ter sofrido horrores nesse período de solidão…

_Bom. Sofri e não sofri – desconversou o outro_ Acontece que naqueles tempos eu andava de enrosco com uma tal de Nice. Mas a mulher era uma encrenca, tanto que encerrei com ela e engatei num chamego com uma conhecida do escritório, a Dete. Sem falar na finada dona Dulce. E numa secretária que tive, a Sra. Olga. Se bem que a essa quase nem conta, já que era casada e tinha três filhos…

_Cruzes, pai! – ralhou a moça, decidida a remediar_ O importante é que você voltou. Um ano mais tarde estava lá. Aguardando por ela outra vez.

_Pra que remexer o passado, não é verdade? – resistiu ele, em sua ilimitada boa-fé.

Mas não deu jeito. Acabou tendo que confessar.

_Valcimar… Voltei por conta do Valcimar…

_Oi?

_O goleiro do Arapiraca do Norte, time onde eu era centroavante – relembrando o caso todo_ Era final de campeonato e marcamos de encontrar, bem ali, na viradinha da esquina. Mas aí a sua mãe apareceu, colando em mim, que nem molusco arribado em pedra…

_Putz…

_Nem me fale: faltei ao jogo, meu Arapiraquinha perdeu e foi mofar lá na sétima divisão. Até hoje o pessoal do clube me culpa por isso

_Veja pelo lado bom: pelo menos o senhor nunca se esqueceu da data do aniversário de vocês…

_Como se o Valcimar deixasse…- baixando de vez o tom de voz_ Entra ano e sai ano e esse homem ainda me azucrina. Se não liga, manda e-mail, whatsapp, o diabo a quatro. Também, pudera, né? Tadinho do meu Arapiraca, gente. Ai que dó…

Era tudo que ela precisava ouvir. Sendo assim, deu-lhe um beijo demorado, agradeceu de novo e, em seguida, foi pra pista. Prospectar. Aliviada e comemorando, Valeu, paizão! Assim, ficou fácil. Se ele pôde, eu posso, também. Uhuuuuuuu! Casar, eu? Mo-le-zi-nha. Quer apostar?…

Quer apostar