Um dia com o Papai

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Aconteceu da mãe passar um dia inteiro fora. Trabalhando. E o pai ficou com as crianças.

Preciso nem dizer que o caminho de volta foi um inferno, com ela pensando o tempo todo em tudo de ruim e de pior que podia ter acontecido a prole.

Passou a mão no trinco e abriu, varando casa adentro, que nem doida. Pra deparar com eles, pai e neném aninhados, dormindo feito anjos.  E pouco mais adiante, o mais velho, quietinho em frente à televisão.

_Quer saber? Começo a desconfiar que se comportam melhor com seu pai que comigo – reclamou ao menino, um tanto quanto enciumada

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Criança tem cada uma

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Foi girar a alavanca e a porta abrir.  O patrulheiro estelar sabia que sozinho jamais conseguiria enfrentar a guarda do cruel imperador Gorky. Com o reino vulnerável e a princesa Indra nas mãos de cruéis mercenários, qualquer descuido seria o fim da resistência nos condados.

Nos calabouços da cidade perdida, nosso herói lidera um grupo de rebeldes no combate a um exército inteiro de monstros-mutantes-zumbis. Após retomar o controle intergaláctico e devolver a doce princesa ao seu reino, é chegada a hora de unir-se aos demais guardiões numa arriscada missão de retomada do espaço-tempo. Conseguirão nossos defensores alcançar a nave mãe antes que meteoros gigantes teleguiados por Gorky interceptem para sempre seus destinos? Ou será que rochas de lava flamejante impedirão os nossos…

_Que bagunça é essa, moleque?  – quis saber a santa, ou melhor, a mãe. Mãos espalmadas, narinas alargando e olhos maiores que eu, num estupor típico de quem acabou de limpar uma casa inteira.

_Justo hoje, filho! Só comigo, meu Deus. Só comigo…

O moleque, empapado em molho grosso até os cotovelos, aproveitou para esmagar um meteorito remanescente, ou polpetone com fusilli à bolonhesa da vó Anne, como preferirem. Antes que a desmancha-prazeres lhe catasse o prato. E as orelhas.

Foi Ai! UI! pra todo lado. E por mais que ela esfregasse, dessa vez nosso guerreiro espacial caprichara no figurino. Nem quarando em soda estelar. Nem assim.

_Olhe o estado que ficou esse uniforme! – ralhou a matriarca, enquanto ele franzia a testinha, como quem diz, Danou-se!

_Vai chegar tarde outra vez! Aí vem recado na agenda e seu pai vai brigar com quem? Adivinhe? Você não sabe da missa um terço  – e tratou de arremedar _ Precisa controlar melhor esse menino! Fica em casa, não faz nada e ainda por cima perde a hora. Já vi tudo – chilicou a dona azeda, montada num beiço que esticava até a esquina _ E hoje não benta. O primeiro que me aborrecer, leva!  – deferência que geralmente sobrava ao pai, já que criança sabe bem a hora de ficar quietinha.

Agoniada como estava, tratou de ventar com o pequeno porta afora. Mas mãe é oitenta por cento mole e vinte por cento zelo. Sendo assim, inventou de perguntar _ Ficou com fome, né? Nem sei como é que vive. De vento. Só pode…

E deu meia volta na história _ Quer uma bolachinha? Quer? Um danoninho? Tem pudim de chocolate na geladeira. Peraí, que vou buscar…

Voltou num vapt vupt. Com uma travessa pra lá de abarrotada. E uma bitoca estalada na bochecha cheia e quase limpa.

_Tem que comer pra virar craque e marcar um golaço pra mamãe, viu?

O pequeno sorriu. Banguela e comportado. Quem não conhecesse a praga, levava. Facinho, facinho.

_Vou ali e já venho – acontece que demorou. As turras com um pé de chuteira que não tinha Cristo que ajudasse a encontrar. Pra depois casar as meias e socar tudo na mochila. Aquela. De janeiro. Que em abril não tinha as alças, nem fecho. Quando lembrou de trocar a escova e reforçar a lancheira (que a bisnaguinha na cantina, colega, pela hora da morte). Mas cadê o estojo desse garoto? Victor Luiz, quedê seu estojo de lição? Eita, menino danado…

Ele, se ouviu, não deu nem confiança. Ocupado que estava em responder o ataque do famigerado imperador do mal e proteger os limites das Terras Altas. Esperem! Oh, não! O foguete do guerreiro lendário caiu! Espatifou-se contra uma torre de bolachas recheadas. Tentou fugir e caiu de novo. Assolado num pântano ácido de pudim radioativo e a mercê de tortas-autômatas canibais. Contra as quais se valeu de rajadas mortais de danoninho plutoniano, retomando o controle da situação. A essa altura, do prato original, restava pouco. Menos que meia fatia de pavê da destruição.  E por pouco tempo. Já que a única forma de vencer o exército Orc era explodindo seu covil secreto, de uma vez por todas!

O menino bem que tentou. Mas com a galáxia em erupção e a guerra declarada aos insurgentes, havia pouco que pudesse fazer pra garantir a integridade física do planeta Sala. Mesas, tapetes, cadeiras, tudo infectado. Uooooó! Ioioioioioió… Tomem isso, forças malignas…  E mais isso…E isso…

Não fosse a intromissão da famigerada mater-estresser-mutante, e ele teria varrido definitivamente o império de Gorky para outras dimensões. Ligeiro que era, bateu em retirada. Deixando pegadas marrom nescau intenso no carpete marfim-zero-bala da entrada principal.

_VICTOR LUIZ JORGE FILGUEIRAS JÚNIOR!

Aquele urro foi dela. Num clamor autêntico aos deuses. Santos. E entidades afim. Se bem que nessas horas, vizinhos e psiquiatras também resolvem. São todos bem-vindos. Qualquer alma boa e menos atarefada. Preferencialmente as munidas de balde mega, tira manchas super e esfregão blaster. Mais uma caixa jumbo de dardos tranquilizantes. Cinquenta polegadas cada. Pra abater elefantes. Míticos. Mutantes. E interestelares.

Criança tem cada uma

Pra você que ainda não nasceu

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Que eu saiba foi assim. Desde quando, nem me lembro.

Meio torto. Quase caindo. Passado das bordas e sem limites. É que gente que é gente gosta mesmo de um enguiço. De bulir com o que não pode. Brincar com o que não presta.

Sou do time que acredita que um dia essa coceira toda passa. E a poeira grossa assenta. Mas não esquente. Que sossego a gente garante. De um jeito. Ou de outro.

Então, largue mão de tanta fita. Vem que a roda não espera, nem guarda lugar. Eu que já vivi meu próprio riscado, deixo aqui algumas dicas muito úteis de viagem.

Cuidado com os estranhos. Álcool e direção não se misturam. E nunca, está me ouvindo, nunca abra e-mails de procedência duvidosa. O que é e-mail? Internet? Facebook? Não esquente. Na barriga você descobre tudo.

Meus desejos? Vamos a eles: que sua vida seja leve e colorida. Que nem flor de encosta. Sem ordem. Nem desordem. Coladinha rente. Cara lavada. E feliz.

Que seus pais sejam pacientes. Amorosos. E aceitem do jeitinho que for. Mesmo antes. E daí para sempre. Do sempre do sempre. E no que vier depois.

Que seu pediatra seja assertivo. Tenha mãos de fadas. E cara boa de tio. Que sua disponibilidade extrapole seu tamanho. Principalmente aos finais de semana. Madrugadas e feriados.

Sobretudo, que seus professores sejam bons. De tino, faro e coração. Como maestros que são. Mãos firmes. Justas. Recheadas de oportunidades. Desses que distinguem fácil o sopro das cordas. Extraindo o melhor de cada um. A seu tempo. No seu próprio ritmo. Fazendo como se deve, ao invés de como se pode. Compondo e harmonizando. Sem deixar ninguém de fora.

Que seus pais reconheçam o valor desses homens e mulheres talentosos. Que deixam casa e filhos pra cuidar dos outros. Dar seu melhor. Motivando e incentivando a acreditar.

E é esse alguém, que nunca te viu, nem escolheu, que vai mais longe em tua caminhada. Conduzindo em segurança. Percebendo e valorizando como se fosse único. Cuidando e instruindo como se fosse eterno. Amando e lapidando como se fosse seu.

Ande. Venha. Corra, moleque! Se ajeite no caminho. Só assim não perde nada.  Que vida boa tem história. Tem família. Tem escola. Boca babada. Joelho lanhado. E muita sarna pra coçar.