Pai-Trinca de Ases

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A rigor, bastou o fulano virar pai para as apostas começarem. E não tem santo que invista suas fichas no coitado. Já que papai autodidata larga nas últimas colocações. Perdendo feio pra coisinha babenta que urra em si bemol contralto pela madrugada inteira. Daí derrapa nas fraldas, patina no banho, veste o fedelho pelo avesso, nunca sabe qual pomada vai onde, nem que bombons, chocolates, balas e dropes, mesmo que acompanhados de pipoca e fritas, não constituem uma refeição balanceada. Mas não, mesmo!

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Beijinho Doce

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Só sei que a mãe saiu, deixando a menina na cozinha com o pai. Parece que iriam cozinhar. Ou algo próximo a isso, já que o paizão foi ligando a TV e gritando:

_Vamô, povo! Pra cima deles

Sobrou a ela trabalhar sozinha. Tirando tudo da geladeira. Armários. E perguntando.

_Isso vai? – pra calda de chocolate. Ovos. Fermento. Farinha. Mostarda preta. Repolho. Cebola roxa. Suco de uva. Leite. E maionese de macarrão.

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Um Príncipe na Cidade Grande

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Geralmente o amor vem depois. Parte dum segundo ato. E ainda assim vem respaldado. Tem ata. Emendas. Num bailado lento e que envolve exceções.

Amor de pai por filho, não. É diferente. Imediato. Nasceu, bastou. E abre-se um novo capítulo na vida do caboclo. Por mais turrão que seja. Desprendido. Ou curto e grosso. Que filho muda tudo. Essa é a grande verdade.

Não que mãe tire de letra. Mas é mais fácil. Que até nisso Deus nos favorece. Vide os nove meses de gestação.  Já o pai, coitado, assume aos quarenta e cinco do segundo tempo. Impelido logo de cara a um universo delicado e cor-de-rosa, como se não houvesse no mundo criatura mais linda que aquela, E não é porque é minha, não, viu? Mas a danada é bem feitinha. E sem querer me gabar, saiu todinha ao pai. Confere só: olhos, nariz, orelhas. Que foi que eu disse? Cópia idêntica. Benza Deus…

E pense você num cidadão atarantado. De suavidade discutível e que não dá leite nem torcendo. Sorte deles que bebê não cria caso. Pelo contrário. Acha graça. E é assim que a maioria das histórias começa. E a minha não foi diferente. Posso até apostar.

Nasci pituca e de pescoço mole. Até aí morreu Neves. Mas moleca cresce que é uma beleza. E logo passei da porcelana ao polipropileno da mais alta densidade. Desses que dá pra dobrar, torcer e carinhar até dizer chega. Que de bagunça pai entende. Mais que isso, adora. O engraçado é que pai é pai só nos primeiros cinco minutos. Depois vira criança. E fica tudo pareado. Pouco importa quem tem quatro ou quarenta. Entrou na chuva…

Lembro como se fosse hoje, do meu pai ensinando a fazer pipa. Depois a gente corria. E mais. E mais que o vento. Quando não trombávamos um no outro, capotando de rir e correndo tudo de novo. Que o último a chegar em casa era a mulher do padre. Quase sempre imundos. De calça ralada nos fundilhos e joelhos. E a cara toda lambrecada de sorvete. Com a minha mãe estrilando atrás, enquanto eu chacoalhava as mãozinhas e seguia repetindo casa afora, Joquempôooooo…

Acontece que vai dando um comichão na gente. E querendo, meio não querendo, um belo dia larguei mão de ser criança. Não sosseguei até que virei moça. E dentre outras coisas dispensei teu colo, teus conselhos e jurei que me virava sem ajuda, Onze horas??? Tenha dó, pai! Sou maior e vacinada. Quer me matar de vergonha, quer? Todo mundo vai… Mas é que… Ah. Esqueça…Você não me entende, mesmo…

De resto o tempo passou. Pra mim e pra metade do globo. Sei que parece folclore, mas as vezes acho que só eu envelheci. Ao contrário dele. Que seguiu igual que nem

O mesmo cabeçudo de sempre. Que ainda se zanga quando pego estrada sozinha. Se dirijo à noite. Ou esqueço de jantar. Isso quando não pede pra ligar assim que pisar em casa, ou reclama que não dorme. E faz questão de acompanhar até o carro. Saudades? Uma pinoia. Quer ver se eu trouxe casaco, isso sim. Ou lembrei do guarda-chuva…

Quando chego é sempre o primeiro que levanta, e vem todo faceiro, atrás de beijo e abraço. Tendo chance, acaricia meus cabelos. Elogia a roupa que catei às pressas e jura por Deus que estou linda, mesmo de cara lambida e escova arruinada pelo vento.

E se você é dessas que ainda acredita em príncipe encantado, dançou, nêga. Que ele existe, sim. Mas ficou grisalho. E mora perto. Pena que casou. E ao que tudo indica, foi com a minha mãe. Eita mulherzinha de sorte, viu?…

Um príncipe na cidade grande

Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto

Programão de pai

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Lar. O merecido pouso do guerreiro.

Foi uma semana cheia. Dessas em que os dias duram meses. E os problemas brotam. Assim, à toa. Um mais cabeludo que o outro. Mas quem se importa? Logo estaria em casa. São e salvo.

 Cansado. Mas feliz. Sensação plena de dever cumprido. Melhor entrar.

Tudo nos conformes. Não tivesse ele se esquecido do cachorro. Um até bem grande. Capaz de converter o mais inofensivo quintal em campo hostil. Minado. Agravado pela a chuva de ainda há pouco. Ontem, até conseguiu desviar. Mas hoje, quando viu, já era tarde.

O mais novo foi quem deu o sinal _Manhê, o papai foi abatido – ao que a mulher emendou _ De novo? Direto pro tanque. E vê lá, hein? Se sujar o chão, cê que limpe. Tá me ouvindo?

Quase em casa. Quase no banho. Quase mudando de ideia e voltando correndo pro trabalho. Não estivesse ele com dois moleques pinçados. Um em cada perna. E com um pé de sapato imundo. Por lavar. Lá nos fundos. Numa pia que mal cabia o cotovelo.

Fez lambança. Molhou tudo. Deitou sabão no olho do mais velho. Deu mal jeito nas costas e ainda ouviu reprimenda.  

Melhor beber. Se tivesse como. Mas no dia em que nada ajuda, nem a geladeira alivia. E olhe que vasculhou. E vasculhou com fé. Latinha? Só na despensa. Quente. A mulher veio com gelo. De que adianta, me diz? Ainda se fosse uísque. Mas era cerveja. Melhor deixar pra lá.

Passou a seco. Sem um belisco, nem cigarro. Pra piorar, só mesmo a filha, mais duas pencas de amiguinhas, aboletadas no sofá e assistindo Chiquititas (bem na hora do jornal e na maior zona). Quis transferir as ferinhas. Nada feito. Dalí não arredavam. Nenhuma chance.

Tentou o escritório. A cozinha. A TV preto e branco da lavanderia. Todas ocupadas. É. Não deu, resignou-se. Foi ter com a patroa. Sabem como é. Bater um papo, em nome dos velhos tempos _ Nem vem que não tem – esquivou-se ela_ Tô dizendo…

E não parou por aí. Teve também o fatídico, Paiê, ele me chutou!, seguido pelo esperado, Foi ele quem começou! Eu juro!, e o já famoso, Seu Cleber, o chuveiro queimou. Dá pra trocar?, somado ao não menos importante, Benheeeê, o cachorro tá com berne. Faz compressa de bacon nele pra mim?

Situações extremas pedem medidas drásticas. Foi o que fez, escondendo-se sob as cobertas. Quietinho. Quase sem respirar. Até que sentiu a ponta da camisa repuxando (a sua frente, um homem aranha todo sujo. Que cutucava o nariz e o fitava. Ambos com a mesma intensidade e insistência).

_Paiê, brinca comigo?

_Amanhã.

_Hoje é amanhã?

_Não. Hoje é hoje.

_Demora pro hoje virar amanhã?

_Um bocado.

_Um bocado de quanto?

Resolveu apelar pra autoridade (se é que ainda tinha alguma).

_Vai dormir, moleque!

_Bem que eu queria. Mas não posso.

_Por quê?

_Tô de plantão. Não percebeu? – pra cochichar, em seguida _É a casa, pai. Anda virada. Tipo do avesso, sabe?

Eu que o diga, meu filho. Eu que o diga…Catou o espirro de herói e com ele rolou até cansar. O barulho atraiu a tropa toda (perdia quem caísse primeiro da cama. Só não valia morder. Nem arregar). Um bololô só: mistureba suada de mão de pai, com pé de filho. Colados num mega-abraço-urso. Sobrando joelho lanhado pra cá, e boca banguela pra lá. Tudo melado e encardido. Do jeitinho que tem que ser. Em um TE-AMO-PAI de carne e osso. De fazer perfeito o dia. O ano. E a vida. 

Quem dormiu primeiro, ninguém viu. Nem a mãe. Que desligou o fogo e veio ter com eles.  Toda assanhada. Afinal, programa assim, a gente não perde, nem troca. Por nadinha nesse mundo.