Cuti-Cuti

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Bom dia, moreco-pimpão! Quem é o cajuzinho-Xtudo, mozão-mais-cuti-cuti da minha vida, hein?, mandou ela por whatsapp. Interrompendo a reunião dele. Não satisfeita, tratou logo de acrescentar dúzia e meia de carinhas sorridentes. Mais vinte coraçõezinhos. Vinte, não. Trinta. E um golfinho ao final. Pronto. Agora, sim. E aguardou. Até que ele leu. Mas responder que é bom, nada. Sendo assim, voltou à carga.

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Bobão

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_Flores, Pedro Henrique? Desde quando flor é presente? – mãos no quadril e pezinho balançando.

_É pra enfeitar, amorzinho.

_ Tenho cara de xaxim, por acaso? Aprenda comigo, meu filho: joia, enfeita. Bolsa cara, enfeita. Crisântemo? Não. Será que tudo eu tenho que explicar?

Acontece que o moço conhecia bem seu gado. E escondido as suas costas guardava outras surpresas. Várias. Grandes. Bem a gosto da fulana, que tornou a assanhar. Até sorriso franco a desgranhenta deu. Fato é que foi curto. Tempo de desmantelar o primeiro embrulho.

_Chocolate, Pedro Henrique?  – segurem as crianças, que a fera está à solta _ Lipo, que é bom, ninguém paga, né? –  e o rapaz murchou, enquanto ela esbravejava _Tem noção de quantas horas de spinning são necessárias pra queimar míseras cem calorias? Ou o que é passar um mês inteirinho ruminando alface crespa com suco de couve e óleo de esturjão? – perdendo de vez a compostura _ Tudo isso pra que, meu Deus do céu?  Pra chegar um engraçadinho e pôr por terra os esforços de uma vida inteira. Simples assim…

_Achei que fosse gostar…

_De comida, Pedro Henrique? Tenha a santa paciência, criatura…

Mas ainda restava um pacote. E ela mal podia esperar.

Pois bem. Ele repassou o regalo e ficou na torcida. Certo de que o strike viria. Sua mulher vai adorar, disse a atendente da loja, Não tem erro. É aposta ganha…

A verdade é que contrariando as expectativas, ela não foi direto ao assunto. Pelo contrário, resolveu adivinhar.

_É roupa. Acertei?

O outro pigarreou.

_ Bom… não. Não, exatamente.

_Pois aposto que é – insistiu a tinhosa_ Eu te conheço, viu? E de outros carnavais – não satisfeita, lançou o desafio_ E aposto a alma-amordaçada-da-minha-mãe-atrás-da-porta como é uma bata. Preta. E das mais sem graça… – pra concluir fritando o moço _ E reze pra não ser tamanho único, tá me ouvindo? Que já é demais! Assim, também, não é possível…

Fosse como fosse a dúvida estava lançada.

_Quanto eu calço? – rosnou a leoa.  E era bom que ele acertasse.

Ao que o moço gaguejou.

_Você, amorzinho?

_Não. O síndico. Desembucha, homem. Peito, quadril, panturrilha e cintura. Quero a centimetragem todinha e nada de arredondar.

_E aí, não vai abrir? – lembrou ele. Antes não tivesse feito.

_Um espelho, Pedro Henrique? O que é isso? Oferenda? Virei Iemanjá agora, foi? E o resto, quedê? Pentinho de um e noventa e nove. Colar de conta. Tornozeleira de missanga…

_É neoclássico, pretinha…

_O negócio é o seguinte: pode ser até pós-jurássico, que não estou dando a mínima – e replicou _ Bom é ouro, compreendeu?

_Eu pensei que…

_Escute aqui, o gosto é meu ou teu?

_Teu…

_Então quero um diamante no dedo, mocinho. Aí, sim, começamos a conversar…

Quando viu era empurrado porta afora. Direto ao elevador.

_Mas, florzinha, mal acabei de chegar. Deixe que eu fique mais um tantinho…

Ela consultou o relógio e negou. Veementemente.

_Você? Nem pensar. E trate de correr, que o shopping fecha às dez. Mas antes de comprar, tire foto e mande por whatsapp, pra ter certeza que presta – com tempo pra bronca final_ Tá fazendo o que parado aí?  Chispa! E passe esses bombons pra cá…

O caso é que ele foi. Tadinho. Montado num pé só, que era pra ganhar expediente. Enquanto a outra ainda reclamava. Com a boca que era puro chocolate.

_Taí. A gente faz de tudo pelo caboclo. Dá carinho. Põe pra dentro de casa. E na hora de retribuir, neca! – parou pra lamber os dedos, devagarzinho, um a um_ Depois perde e vai chorar. Que outra como eu, ele não acha.  Nem em mil anos… – e alfinetou, mais convicta que nunca_ Bobão!

bobão

Assim, não caso

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Era só mais um casamento na Catedral da Imaculada Conceição, onde tudo corria nos conformes.

Bem quando o padre, tomado de repentino entusiasmo, dirigiu-se aos noivos nos seguintes termos_ Por isso eu vos pergunto: é de livre e espontânea vontade que viestes aqui para unir-vos em sagrado matrimônio? – assentiram, felizes da vida.

_Estais pois dispostos a receber com amor e tolerância todos os filhos que Deus assim vos confiar? – assentiram novamente. Mais felizes ainda.

_Gostaria de perguntar-te, João, na presença de tua mulher e de toda essa comunidade: tens recursos pra alimentar, vestir, educar, paramentar e custear cada um de seus rebentos sempre que estes vierem a precisar? – João confirmou

_ Sei –  retrucou o padre _E aplicado onde? CDB? Renda fixa? Se for poupança, esqueça! Não dá nem para as custas da fimose…

João tossiu e engasgou, enquanto a noiva, contrariadíssima em suas vontades, foi advertida pelo pároco _ Quantas vezes já casou? Nenhuma? Eu também não. Mas conduzi mais de quinhentos casais pelas vielas sinuosas do sacramento. Então, quietinha! Que do riscado entendo “eu” – e de volta ao noivo _Como ficamos quanto aos dobrados? Tens ou não tens?

-Tenho…

_Quanto? Que encher panela de arroz e feijão não serve! Precisa ter para as férias na Disney, para os cruzeiros no Queen Victoria e pros gondoleiros em Veneza!

_Em Veneza?

_Ué? E onde mais tem gondoleiro? Cubatão? – suspirou, desenganado _ E tu? Es homem de verdade? Desses garranchados com “H”?

_Hein?

_Ele é sempre lerdo, assim? – perguntou a Maria

_Padre! – rosnou ela _ O senhor vai ou não vai me casar?

_Credo! Que gastura, menina! Tá embuchada, é? Não? Então, sossegue! Pra que tanta pressa? Tem alguém encomendado na família? Só pode – e procurando um moribundo entre os presentes, acrescentou _Aposto cinco contra um na madrinha de vermelho. Se for o caso, já encaminho, depois fica o bônus, para quando a velha for pras cucuias

Bastou para Maria, que surtada do alto de suas tamancas brancas, decretou _Pois fique o senhor sabendo que meu João não só é macho, como é lindo, cheiroso e ganha bem, viu?

_Salário pula brejo – retrucou vossa eminência.

_E eu não dou a mínima!

_Não liga, hoje! De escovinha feita e barriguinha cheia. Quero ver quando minguar. Aí, sai da frente, que é banguela morro abaixo! – ainda fez que escorregava.

Ela desafiou_ Vivo de amor, se for preciso!

_Melhor duas latas de mucilon e um pote jumbo de colágeno…

_Meu João é diferente!

_Todos são, minha filha, todos são! Até que se inicie a primeira rodada do brasileirão

Foi a vez da parentada acudir, tomando a nave da igreja. Quem derrubou o padre, ninguém viu. Mas missionário do Sudão, não se abate facilmente.

_Depois não venha chorar ao padre, que o imprestável do seu marido mesquinhou, que deu pra cortar as unhas do pé na sala, que molha o banheiro inteiro sem ter Cristo que o faça acertar meio jato na privada, que não levanta um dedo pra… – maldição inconclusa pega? Sei não. Só sei que amordaçaram a santidade e largaram para trás. Foi descoberto mais tarde, dias depois, quando deram falta dele em uma cerimônia de batismo.

Quanto a João e Maria, houve quem contasse que foram parar numa bodega de esquina. Com a pobre debulhada em lágrimas. Num pranto lavado, de fazer transbordar o sistema do Cantareira. Enquanto isso, marido e padrinhos festavam. Mandando ver num churrasquinho de gato preto.  Desses malpassados e que a luz do dia ninguém encara, mas atoladinho numa farofa caseira, hum… Nem cachorro come…

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O Mala

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Com certeza, não foi uma boa ideia. Mas era tarde. Fazer o que, se já estavam lá.

Fileira C. Poltronas doze e treze, respectivamente. Ela, de longo. Ele, de tênis. Sentados e assistindo. Bom. Ao menos, ela. Sem perder um agudo que fosse. Enquanto que ele não parava um só minuto. Num mexe e remexe daqueles. Incomodando meio mundo.

_Que comichão é esse? – ralhou ela.

_Tô procurando o controle? Queria dar uma zapeada

_Tá doido, é? Por acaso acha que está onde? Isso é um teatro, homem! Eu, hein…

_É que não gostando muito dessa programação. Achei fraquinha…

_Fraquinha estou eu. E é da cabeça! Que não sei onde estava quando fui inventar de trazer você aqui…

_ E o som ruim demais! Não dá pra entender uma palavra do que dizem.

_Desde quando você fala italiano?

_Chame alguém, ande! Mande mexer no áudio. Ou pôr legenda. Que está me dando uma agonia daquelas.  E por falar em agonia, lá vêm eles cantando de novo…

Pareceu ter quietado. Por três longos minutos. Foi quando começou a assobiar.

A reação dela foi imediata. Num cutucão fenomenal. Praticamente um semicoice.

_Credo! – reclamou ele, que inventou de perguntar _ Será que cai?

_Quem?

_O Vasco, ué? Que horas são? Se perder hoje, já era. Matematicamente rebaixado. Sem choro nem vela…  

O shhhhhhhhhh veio de trás. Fileiras D, E ou F. Difícil precisar a fonte.

Ela encolheu. Virou tatu-bolinha. Ele nem fez conta. Seguia aborrecido e perturbando. Mais que nunca. Tamborilava alto. Estalando os beiços. Chacoalhava o corpo e a poltrona ia com ele. Fazendo o contraponto.

Novos olhares. Ela choraminga.

_Dá pra sossegar? Você é impossível!

_E você é uma lindinha! – retrucou o sonso _ Agora, aproveite o elogio e busque uma cervejinha pro papai.  Tô precisando muito molhar o bico, viu?

_ Isso aqui não é boteco, não! É lugar fino, criatura…

_Já vi tudo! Não tem breja na budega

_Jesuisssss…

_ Bom pra aprender. Da próxima vez trago de casa. Um isopor cheinho assim…

Outro shhhhhhhhhh. E esse tinha nome, sobrenome e bico torto. Sem falar que vinha de todos os lados. 

_Viu, só? Tá feliz?

_ Se ao menos cantassem mais baixo. Ainda se fosse um pagodinho… 

_Desisto de você!

Debandou pro lado dela. Cheio de dedos e de graça _ Desiste não, pintinha

_ Você não tem jeito…

_Prometo que volto bonzinho.

_Volta? De onde?

_Do banheiro. Que tô aperreado. Fale pra galera dar um pause – bem quando tocou o telefone _ Carlão? E aí, meu brother!

O desconforto foi geral.

E ele tentou explicar _ Gente, é o Carlão…

_Mas será o Benedito? – insurgiu-se ela.

Quando começaram a acreditar numa trégua humanitária, surgiu ele de novo.

_ vendo algum garçom por aí? 

_Hein???

_Esquente não, que vou buscar. Que prefere? Fritas? Linguicinha? Ih… Que cara é essa? Se queria pastel, era só falar…

_ Quer saber? Cansei. Pra mim, chega!

E catou sua bolsinha, decidida a partir.

Foi a vez dele interpor recurso.

_Peraí. Peraí. Que essa eu conheço – e soltou a voz no mundo _ Funiculí, Funiculá. Funiculí, Funiculáaaaaaa…

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Quer namorar comigo?

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Terminou num beijo. Ou começou. Depende do referencial. O ponto é que algo surgiu entre eles. Com paixão e intensidade.

Ela nem piscava. Era puro sorriso. Rasgado. De orelha a orelha. Sonhava acordada. Com ele. Que retesou o corpo enquanto procurava. Remexeu aqui e ali. Revirou os bolsos. Não sossegou até encontrar.

_Arrá! Aqui está – repousando uma cadernetinha surrada sobre a mesa.

_Que é isso? – perguntou, curiosa.

_ Bom, agora que está tudo certo entre nós, melhor deixar claro umas coisinhas. É como minha mãe costuma falar: o combinado não é caro. Então, vou fazer umas perguntinhas. Bobagens. Nem esquente. Aí, é só calibrar. E seguir. Felizes para todo o sempre. Tudo bem pra você?

_Mande!

_Vejamos… Você cozinha?

_Não muito bem, mas…

_Como assim “não muito bem?” O trivial básico você garante, né? Não ganho pra comer fora todo dia, não! Sem falar na minha gastrite. Na alergia a conservantes. E na intolerância a cloreto de sódio. Dá azia, sabe? Uma azia tão grande. Uma queimação…

_Hein?

_E lavar e passar? Você sabe, não sabe? Engomar, minha mãe ensina. Só não pergunta demais. Ela odeia quem fica perguntando. De resto é fácil. Com exceção das camisas. Que essas prefiro à mão. Bom que vai acostumando. Caleja pra quando vierem as crianças. Roupa de criança é terrível. Encolhe e rasga só de olhar. Digo isso porque tenho duas. Meninas. Uma do primeiro, outra do segundo casamento…

_Segundo?

_Por falar em crianças, já pensou em conversão?

_Oi?

_É que sou judeu. Ortodoxo. E minha mãe não admitiria um filho de ventre não-hebreu. Imagine quatro.

_Quatro?

_Cinco? Prefere cinco? Por mim, até seis. Amo família grande. Barulhenta, não! Mas, grande! E que guarde os sábados. Jejue. Uma beleza. Vai por mim. Vai por mim…

Agora é ela quem se mexe. E remexe. Numa agonia da gota. Quase pula.

_Que foi, minha chickabiddy? Algum problema?

_Está ouvindo isso? Meu celular. Acho que está tocando…

_Por falar nisso, aproveite e cancele o facebook. Temos uma única inscrição para a família. Melhor assim, não acha? Imagine só, quanta bobagem! Instagram. Candy Crush. Whatsapp…

_Noooossa. É ele mesmo. E está gritando meu nome. Lá longe. No banheiro…

_Aonde você vai?

__Ao banheiro. Já disse.

_Bexiga baixa. Adivinhei? Tenho uma tia assim, pobrezinha. O final nunca é bom: infecção ou incontinência. Daí, pra controlar, só mesmo no fraldão. Pra você, melhor G. Quase nem vaza. Uma beleza. Embalagem com oito ou doze unidades…

Ela nem ouviu a metade. Já que corria. Muito. Dobrava quase cinco quadras e ainda achava pouco. Sumiu. Nunca mais foi vista. Ao menos não por ele. Que coisa, né, gente? Casal tão bonito…