Corpinho de quinze

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Mulher é bicho besta. Amigo. Mas, besta. E louco por festa. Três parecem trinta. Oito ou dez e declaro abertos os trabalhos da sessão pública de comissão parlamentar de inquérito. Onde o que não tem remédio, vai na base da lanternagem, mesmo. Que jeito tem. E se tem, a gente dá. De espinhela caída à emissão de debêntures. Kosovo. Joseph Blatter. Físicos, diuréticos e diaristas, A propósito, tô sem ninguém de novo, viu? Que lá em casa não para uma. Affe…

Quem vê, pensa que nasceram assim. Grudadas. Todas juntas e num mesmo quintal.  Qual nada! Tem gente que trombou ainda outro dia. Mesmo assim os juntamentos funcionam. E as mil maravilhas. Como? Não faço a mínima ideia. Sei que que não demora muito e a gente aglutina. De vez em quando encaroça, não vou mentir pra vocês. Mas é seguir mexendo, até engrossar e dar o ponto. Fato é que acontece sempre. E pra mim basta. Pra você, não?

Porque frequentamos as mesmas lojas. Moramos perto. Na mesma rua. Torcemos pros mesmos time. Somos mães de meninas. De meninos. Amamos cachorros. Ou simplesmente calhamos de estar lado a lado numa fila entediante qualquer, até que uma diga, Oi…, e comente do tempo, do preço de morte do tomate cereja e tantas outras coisas que existem entre o céu, a terra e nossa vã filosofia…

Aí, já viu, né? Uma coisa puxa outra. E hora e meia mais tarde estamos abraçadas. Irmanadas para sempre. Falando mal dos homens, exaltando nossas crias e do quão bom seria entrar novamente num manequim trinta e oito. Ou quarenta e dois. Ou quarenta e quatro…

Sei que o mundo gira. E nada na história muda. Por isso estavam as moças reunidas ali. Ao longo de uma grande mesa disposta para um manjar.  Foi quando uma delas, após lamber os dedos recobertos em bom-bocado e açúcar cristal, não se conteve mais e avisou.

_Meninas, preciso emagrecer.

E a resposta veio, numa resistência inflexível.

_Você? Nunca! Eu que sim…

_Imagine. Estão lindas. Ótimas. Culpa minha que descuidei. Três quilos em três meses. Pode? – a tempo de atender quem lhe acenava de longe_ Mais um enroladinho de queijo? Claro, meu bem. Aproveite e experimente meu folhado de calabresa, ou não falo mais com você, hein!? Se bem que tua focaccia de alecrim com bacon um escândalo. no quarto pedaço e nem pensei em parar ainda… – passando o prato adiante _ De nada, florzinha. Tome. Pegue aqui. Pegue…

Ao que a outra agradeceu prontamente. Comeu disso e daquilo. Deu outro golão na coca e garantiu, ciente das próprias fraquezas.

_Dieta? Desisti, sabia? Num consigo e não tem jeito. Sobrei pra faca. Minha única solução.

_Bobagem. Que gordura tem memória. E a minha não me deixa – lembrou outra. Boca chapiscada em creme de limão.

_Larguem mão de moleza, suas frouxas, e simbora correr na praia – conclamou a mais saudável de todas, tratando de engolir às pressas um suntuoso naco de rocambole, antes de acrescentar_ Treino diariamente. Já tinha contado a vocês?

Nãoooo! , encantaram-se as moças. Que pediram detalhes. Hora. Onde. Quando. Cor do tênis. Como prender a franja pra que não fique batendo nos olhos. Depois voltaram a elogiar os brigadeiros majestosos da dona da casa.

Bem quando alguém puxou para si a responsabilidade daquela encrenca toda e arriscou.

_ decidida. Vou fazer regime. E ninguém me demove – limpando um pinguinho de glacê que lhe pontuava o queixo.

Mais zum-zum-zum. Até que deliberaram.

_Só se formos todas. Juntas.

A concordância foi plena. Absoluta. Acompanhadas dos usuais, É isso aí… Conte comigo… Alguém me passe a travessa de salgados fritos, fazendo um grande favor…

_Sei, não, meninas… Têm certeza? – todo grupo tem o São Tomé que merece.

Assentiram em coro. Afinal, amiga é pra essas coisas. E trocaram felicitações. Votos de, Dessa vez, vai… Com fé em Deus!… Corpinho de quinze, aí vamos nós…

E ficaram combinadas.

_Começamos quando?

_Segunda. bom pra vocês?

_Ótimo.

_Genial.

_Pode comer o quê?

_Nada. Com gelo. E duas colheres diárias de cereal.

Entreolharam-se.  Suplício é uma coisa. Com requintes de crueldade, já é um pouco demais. Resumo da ópera: melhor esquecer e tocar a vida.

_A propósito, onde será nosso próximo encontro?

_Pode ser aqui, mesmo, em casa, que já estou acostumada e tenho tanto prazer em receber…

_Eu topo. Trago o bolo de fubá e a cobertura de goiabada. Que tal?

_Show! Fico com as empanadas.

_E eu, com o escondidinho. Aprendi uma receita noiva: de picanha, com mandioca, quatro queijos e ovos. Refogado em banha. Uhummmm… – antes que se entreolhassem de novo, acudiu_ Muito leve, viu? Dissolve na boca que é uma beleza. Que porco é light, sabia? Menos calórico que peru. Uma benção…

_Se é assim, então, pode. Faça dois. Grandes. Que deve ser uma delícia…

_E põe delícia nisso, menina... Jesuisssss…

corpinho de quinze

Repensando as divindades

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Ipanema. Lotada e meia. Com um primeiro de janeiro prestes a estourar. A contagem regressiva começa. Quatro. Três. Dois…

Eis que no mar se vê um clarão. Com ondas quebrando e dobrando em todas as direções. Fazendo a multidão recuar.

O empurra-empurra é tremendo. Todos correm. Menos elas. As amigas. Um grupo de seis vindo lá de Madureira. Com os cambitos devidamente submersos em aguas claras fluminenses.

E de lá não arredam. Não sem antes saltar sete ondas. De jeito nenhum.  Nananinanão. Fincam de vez o pé na areia. E esperam. Abraçadas. Torcendo pelo melhor.

E é ali. No epicentro do olho de peixe marinho, que surge ela. Iemanjá. Plena em bruma e glória. E montada num jet ski Kawasaki Ultra 300X. Rosa. Chiclete.

As meninas enlouquecem. E vão chegando. Mais pra perto da entidade.

_Mãezinha, mãezinha – grita uma delas.

_Mãe uma ova, que nem parecer contigo eu pareço! Ainda se fosse sua irmã mais nova. Ou uma prima rica e distante. Mas, mãe? Tenha a santa paciência…

Essa murcha e outra toma o seu lugar _ Iemanjá – ela grita_ Sou eu! A Aninha!

_E por acaso te conheço? Aninha, é? Deixe-me pensar um instante – batuca a fronte lisinha _Não. Nenhuma chance. Pegou senha? Ah, que pena. Final da fila. Passar bem – e acena em direção à praia _ Próximo!!!

_Mas…

_Ainda aqui? Escute só, meu bem: eu sou uma divindade, está me entendendo? Um ser de luz. Preferência nacional. Percebe? Então, se mande. Se quiser, volte depois. Na maré baixa. Aí, a gente conversa… Próximo!!!

Entreolham-se. Abismadas. Mas é Iemanjá. Talvez um pouco descompassada. Meio azeda. Mas ainda é Iemanjá. E não dá pra desperdiçar uma oportunidade como essa.

Por isso se cutucam. Até alguém tomar coragem.

_ Eu vim aqui para pedir…

_Pedir! Pedir! Pedir! Não dá pra mudar um pouco o disco, não? E aquele papinho de oferenda, como é que fica?

_Mas eu te trouxe algo – ela tenta continuar.

_Jura? O quê? Não é esse espelhinho furreco que traz na mão, não, né? Escute aqui, nêga: sou uma orixá, não a Pocahontas! Aliás, nem índio topa mais essa tranqueirada de R$1,99. “Vê se cresce”, garota. Na próxima, tente um Dior. Ou um Chanel…

A mocinha ao lado é quem responde _ Eu te trouxe um batom…

_É da MAC?

_Hein?

_ Taí. Gostei da cor. Sabe se é à prova d’água? Lá onde moro é muito úmido. Um bolor só, menina, nem te conto. É só imergir pra borrar a cara toda. Ninguém merece…

_Que tal flores? – elas insistem.

_ A não, gente! Rosa branca, de novo? Ninguém aqui ouviu falar em orquídea? Girassol? Lírio amarelo? É, amarelo, sim. Por quê? Algum problema? Combate a icterícia e ajuda na memorização. Muito indicado pra escritórios, quartos e áreas pequenas de trabalho forçado…

Assombro geral.

_ E você? Que tá escondendo aí? – ela segue perturbando _ Sou vesga por acaso? Tô olhando na direção de quem? Você, mesma, minha filha. Nossa! Como hoje está difícil…

A pobre abre as mãozinhas e apresenta seu presente.

_ Um bolinho, é? Cê que fez? Só pode. Se tá ruim por fora, imagine por dentro. Olhe lá, hein? Se eu morrer de congestão, quero ver pra quem vão apelar. Faz o seguinte, minha flor: ofereça pra alguém mais simplinho. Quem? Sei lá…Tente as almas.  Ou o Cosme e o Damião. A Iara, mãe d’água. O Saci. O Boitatá. A Mili, das Chiquititas…

Outra se apresenta. Sem coragem de começar.

_Que cê quer? Fale logo, que hoje não tô benta…

_Quero um namorado – disse a feia. Muito feia. Mas feia, mesmo.

Iemanjá olha bem a moça e baixa o facho.

_Escute aqui, meu doce. Que tal tentar outra coisa?  Um prêmio Nobel? Uma mega sena?

Nada. A moça queria um macho. Pra amar e respeitar. Até que a morte os separe. Vigi…

Iemanjá suspira e começa a explicar_ Já ouviu falar em ecumenismo? Anda muito em voga lá pros lados de onde eu venho. Pois é. O importante é o cliente satisfeito. Então, se não dou conta, não tenho constrangimento algum em indicar- e continua _ Conhece a novena das pílulas de Frei Galvão? Pois é. Tome três. Em jejum. Ou melhor, treze. Quer saber? Arredonde pra trinta. E reze. Mas reze muito. Que tá difícil, viu? – e olhando o mundaréu de gente boquiaberto na areia, ela torna a gritar _ Próximo!!!