Manual de Sobrevivência ao Fim do Mundo

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Não sei você, quanto a mim estou convencida: nasci passada da hora. Pior. Tenho nem como negar. Sou assim. Sei lá. Saudosista. Dessas que creem piamente que felizes eram os outros. Aqueles. Os famosos habitantes de trasantontem. Já que, por aqui, o tempo fechou, colega.  Empretejou.  E foi de vez.

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Desarranjos Virtuais

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Trabalhava numas planilhas quando o computador tilintou, avisando da chegada de uma nova mensagem. Era um, Oi. Tudo bem?, de um homem que nunca vira antes.

Tudo ótimo. E você?, devolveu ela, que teria escrito mais. Ele, porém, não deu chance. Que o fulano era afoito e num instante pegou fogo. Então, não resistiu e saiu bombardeando.

_É casada? Divorciada? Tem filhos? Alérgica a gatos? Trabalha com quê? Mora onde? Tricolor ou Alvinegra? Liso natural ou faz chapinha? – e na sequência emendou, referindo-se a foto de perfil da outra _ Você lembra minha ex-esposa, sabia?

_Isso é bom? – retrucou a mulher.

_Não. Nem um pouco. Na verdade, péssimo. Sofri treze anos até me separar da infeliz. Aí foram mais quatro pra me refazer do baque – e pausou, com vontade de chorar. Sorte que a moça veio ao seu encontro.

_Sinal que era bonita…

_Qual nada – resmungou ele _ Tinha o rosto assimétrico e os olhos bem fora de esquadro. Mas era simpática. Quase sempre. E honesta. Bom. Nem tanto. Importante é que nunca foi presa.  Não que eu saiba. Nem roubou, ou traficou. Ao menos, não na frente das crianças…

Longo silêncio entre eles.

_Você é sempre tímida assim? – cutucou o moçoilo _ Lembra uma antiga namorada minha. Não fisicamente, claro. Já que era estrábica. E perdeu os dois caninos superiores numa briga de rua…

Novo silêncio.

_Gozado. Gostei de você, viu? De graça, mas foi. Empatia é tudo, né?

Silêncio ainda e ainda.

Foi quando ele mandou carinhas. Muitas. As primeiras eram apaixonadas. Depois vieram os corações partidos. As seguintes, furiosas. Enquanto as últimas gargalhavam de ir às lágrimas.

Foi bem aí que se despediram, com ela lembrando de um compromisso urgentíssimo pro qual inclusive já estava bastante atrasada.

Ele concordou, mas antes a fez prometer que voltariam a falar muito em breve.

Nem preciso dizer que a tal dona sumiu, né? Enquanto as mensagens dele transbordavam o inbox dela, Ei! Psiu? Cadê você, sumida? Fazendo jogo duro, né? Igualzinha a última moça que conheci por aqui. E as outras duas antes dessa, também. Ou será que foram três? Enfim. Se quiser sair prum “rolê-da-hora”, já sabe: seu tigrão tá na área, “baby”… Grooaaaaaarrrr!

E foi zanzar pela casa, inconformado, Não sei o que acontece com essa mulherada de hoje em dia… Começam bem, mas, em seguida, desandam. E vira tudo bicho do mato. Uma mais introspectiva que a outra. Vai entender, né? – e completou_ Em parte é culpa minha, admito. Quisera poder controlar esse meu magnetismo pessoal de macho alfa dominante, mas é involuntário… juro… espontâneo… tipo assim… tão eu…

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Será que ele é?

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_ Juninho, quié isso? – era a mãe quem perguntava. Toda esbaforida. Trazendo aquilo numa das mãos. Que se não era cueca, muito menos calcinha. Mas algo que derivava entre as duas. Só que colante. E cavada.  Cravejada de mimosas caveirinhas rosa-purpura-cintilante, de corar de inveja o performista mais estroboscópico.

O outro nem se apertou _ Ué, mãe. É uma saqueira. De halloween…

_E desde quando a Julinha gosta tanto assim de halloween?

_Não gosta.

Silencio gordo. Ninguém nem pisca.

_Não é dela, né? – arriscou a senhora.

_Não.

Bastou pra ela cruzar os braços e a cara, irredutível.

_Explique isso, menino. Agora. E bem direitinho…

_Tá – há tempos vinha evitando, mas enxergou a deixa. E resolveu assumir _ Sou bi.

Bivolt? Biologicamente desfavorecido? Biograficamente prejudicado? Bienvenido al club de los  cabrones catadores de muchachas, solamente muchachas, para siempre muchachas y oléééé!

É. Nada é fácil nessa vida. Nem simples. E tomada de um mau humor repentino, ralhou com o filho como se fosse criança.

_Que conversinha boba é essa, posso saber? Coisa de homem direito, tá na cara que não é.

_Nossa, se é – divertiu-se o moço – Sou homem, não vê? Só não o tempo todo.

_Quer dizer que…

_Quer dizer que gosto de pessoas.

Ufa. Não corria o risco de ter uma suçuarana como nora. Nem um orangotango. Ou Corrupião-de-papo-amarelo. Já pensou?

Ele continuou. Numa didática discutível _ É que de vez em quando tiro férias. E libero a bandeirada… – e foi saindo de fininho. Antes que alguém se desse conta.

_Onde pensa que vai? – insistiu ela, abanando-se.

_Viajar – e sorriu. Na maior caradurisse do mundo _ Emendar o feriado…

_Feriado? Que feriado?

Sumiu.

Foi ele sair por um lado, pra Julinha entrar pelo outro. Na ladainha de sempre, “Que o Julinho anda disperso. Que não procura. Nem responde. Não com a metade da vontade que deveria…”

_Liga, não, boba. É que ele está… de férias… viajando – completou a velhinha, sem muita convicção.

_E ele volta?

_Volta – cruzando os dedos em figa

_E faço o que enquanto espero?

_Reze, meu bem. Reze muito – lembrando de acrescentar _ Gostar de halloween também ajuda, viu, filha? – e se benzeu _ Barbaridade…

Será que ele é?

Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto