Perfil de Mãe

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Mãe não é gente. Já que gente, cansa. Senta se tem vontade. E quando chega à noite, dorme. Mãe, não. Cochila. Pisca o olho uma vez ou outra. Acontece que filho quando nasce é a coisa mais linda. Mas botou a boca no mundo, bastou. E isso é só o começo. Depois, piora. Mas esquente, não, viu?  Mãe, dá conta. Acha até graça. E logo embarriga de novo. Pode isso? Pior que pode. Continuar Lendo »

Ô, manhê!

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Pense numa mulher doida por séries de Tv. Pois é. Agora, vá multiplicando. Até ficar insuportável. Taí. A própria. Que além de fanática numa boa história, era, também, a mãe de um bebezinho lindo.

Mas a pura santa verdade é que depois de várias temporadas, finalmente, era chegado o dia do Grand Finale. Com a tal em penitência. Mal dormiu, nem comeu. Aguardando pelo início do capítulo final.

Então, vejamos: desligou celulares? Sim. Estourou pipoca? Opa! Catou seu bebê e amarfanhou na poltroninha? Nem precisa perguntar de novo.

E começou. Com a Rainha Boa encurralada por lobos famintos. Que pior não lhe fizeram por conta de alguém surgido detrás das moitas. Amigo? Inimigo? O jeito era pagar pra ver.

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Vai que é tua

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Dia de sol na Vila Olímpica. E na casa dos Silva, também.

Com a mãe tomando posição.

Acorda um, dois, três, põe a casa em pé e eles partem. É café, mochila, um que engasga, outro que golfa, com ela entrando na fase dos arremessos. O bloqueio cresce pra cima dela. Que mira e lança: pratos, copos, fraldas e no rebote vão as crianças. E tem barreira na porta da escola. Mas ela esquiva num lance livre e chama na responsa: é de mãe pra filho, garotinha!

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Um Príncipe na Cidade Grande

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Geralmente o amor vem depois. Parte dum segundo ato. E ainda assim vem respaldado. Tem ata. Emendas. Num bailado lento e que envolve exceções.

Amor de pai por filho, não. É diferente. Imediato. Nasceu, bastou. E abre-se um novo capítulo na vida do caboclo. Por mais turrão que seja. Desprendido. Ou curto e grosso. Que filho muda tudo. Essa é a grande verdade.

Não que mãe tire de letra. Mas é mais fácil. Que até nisso Deus nos favorece. Vide os nove meses de gestação.  Já o pai, coitado, assume aos quarenta e cinco do segundo tempo. Impelido logo de cara a um universo delicado e cor-de-rosa, como se não houvesse no mundo criatura mais linda que aquela, E não é porque é minha, não, viu? Mas a danada é bem feitinha. E sem querer me gabar, saiu todinha ao pai. Confere só: olhos, nariz, orelhas. Que foi que eu disse? Cópia idêntica. Benza Deus…

E pense você num cidadão atarantado. De suavidade discutível e que não dá leite nem torcendo. Sorte deles que bebê não cria caso. Pelo contrário. Acha graça. E é assim que a maioria das histórias começa. E a minha não foi diferente. Posso até apostar.

Nasci pituca e de pescoço mole. Até aí morreu Neves. Mas moleca cresce que é uma beleza. E logo passei da porcelana ao polipropileno da mais alta densidade. Desses que dá pra dobrar, torcer e carinhar até dizer chega. Que de bagunça pai entende. Mais que isso, adora. O engraçado é que pai é pai só nos primeiros cinco minutos. Depois vira criança. E fica tudo pareado. Pouco importa quem tem quatro ou quarenta. Entrou na chuva…

Lembro como se fosse hoje, do meu pai ensinando a fazer pipa. Depois a gente corria. E mais. E mais que o vento. Quando não trombávamos um no outro, capotando de rir e correndo tudo de novo. Que o último a chegar em casa era a mulher do padre. Quase sempre imundos. De calça ralada nos fundilhos e joelhos. E a cara toda lambrecada de sorvete. Com a minha mãe estrilando atrás, enquanto eu chacoalhava as mãozinhas e seguia repetindo casa afora, Joquempôooooo…

Acontece que vai dando um comichão na gente. E querendo, meio não querendo, um belo dia larguei mão de ser criança. Não sosseguei até que virei moça. E dentre outras coisas dispensei teu colo, teus conselhos e jurei que me virava sem ajuda, Onze horas??? Tenha dó, pai! Sou maior e vacinada. Quer me matar de vergonha, quer? Todo mundo vai… Mas é que… Ah. Esqueça…Você não me entende, mesmo…

De resto o tempo passou. Pra mim e pra metade do globo. Sei que parece folclore, mas as vezes acho que só eu envelheci. Ao contrário dele. Que seguiu igual que nem

O mesmo cabeçudo de sempre. Que ainda se zanga quando pego estrada sozinha. Se dirijo à noite. Ou esqueço de jantar. Isso quando não pede pra ligar assim que pisar em casa, ou reclama que não dorme. E faz questão de acompanhar até o carro. Saudades? Uma pinoia. Quer ver se eu trouxe casaco, isso sim. Ou lembrei do guarda-chuva…

Quando chego é sempre o primeiro que levanta, e vem todo faceiro, atrás de beijo e abraço. Tendo chance, acaricia meus cabelos. Elogia a roupa que catei às pressas e jura por Deus que estou linda, mesmo de cara lambida e escova arruinada pelo vento.

E se você é dessas que ainda acredita em príncipe encantado, dançou, nêga. Que ele existe, sim. Mas ficou grisalho. E mora perto. Pena que casou. E ao que tudo indica, foi com a minha mãe. Eita mulherzinha de sorte, viu?…

Um príncipe na cidade grande

Carinho de Mãe

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A barriga foi o prenúncio. Custou a vir, mas tomou conta. Num me-carrega-que-te-apoio, ao qual me afeiçoei com certa facilidade.

Mas vê-lo pela primeira vez foi outra história. Tê-lo em meus braços, então, pôs do avesso prioridades e reescreveu meu daqui-pra-frente, convertendo todo o resto num desperdício imperdoável.

É que amor de mãe não tem medida, recesso nem receita. E envolve renúncia. Devoção. Pitadas de aconchego e porções descomunais de carinho, pra guarnecer e adoçar. Aí é misturar bem e torcer pra que dê samba. Que filho não tem bula. Nem juízo. Pega tudo que é ziquizira e faz justamente o que não deve. Mas soube da última? Você dá conta. E não pergunte como. Tem que emprenhar e sentir na própria carne pra saber que funciona.

O melhor de tudo é que dá certo. Mãe domina a arte do improviso e tem uma criatividade que contando ninguém acredita. Afora a paciência de Jó. E o que a fulana não sabe, descobre. Isso quando não adivinha. Que a dona além de tudo é telepata. Autodidata. Consultora. Motorista. PHD em psicologia aplicada. E se sentir falta de mais alguma aplicativo, procure que tá lá.  Que a bicha é danada, viu?  Afff Maria

Um mulherão de todo tamanho que se desmancha por conta de um guri. Com filho é assim. Uma vida inteira revirada por causa de um peteleco de gente. Que nem tamanho tem, mas é meu. Quanto a mim, sempre fui dele. Perdidamente apaixonada.  Embalando um pacotinho envolto em mantas, toucas e cueiros, e onde mal se veem as bochechas de fora. E é procurar por um e deparar com dois. Aninhados. Numa comunhão construída. Lapidada aos trancos e barrancos. E que nem sempre veio fácil.

Não me deixam mentir as noites em claro, os xaropes cuspidos longe e os reiterados e não menos famosos combinados. Pra todo o resto tem bitoquinha. Já que beijo de mãe tem propriedades curativas, ômega 3, nutre os órgãos e energiza os chakras. Bons pra tudo. De febre branda a ataque de soninho. Em caso de dengo, então, quebre o vidro e faça a festa. De onde vieram esses, tem outros. E muitos e muitos outros mais.

Afinal sou mãe de carteirinha. Daquelas que se pudessem, optavam por fazer de novo. E a tempo de entrar na fila outra vez. Com direito a repeteco de abraço. E fungadinha de saideira.

Até parece mentira a ligeireza com que crescem. Assim mesmo, do dia pra noite. Primeiro o leite seca. Daí o peito dá lugar a chuca. Que logo perde o posto pra sopinha. Mais ou menos na época em que começam a engatinhar. Depois, sentam. Aí são as perninhas que bambeiam. Até que improvisam um rumo e vão quase em linha reta. Falando pelos cotovelos. Enquanto a casa vai enchendo de amigos. Num instantinho estão lendo. Fazem contas. Planos. Passam a ter opiniões. Reclamam se mudam de casa. Estrilam quando mudam de humor. Escolhem suas roupas, seus empregos e namoradas. Viajam sozinhos. Trabalham. Dão mais um tanto de trabalho. E um belo dia casam. É quando ganhamos netos. Ou qualquer coisa parecida e mais ou menos nessa ordem.

No dia seguinte, a vida continua. Que filho estica, mas não envelhece nunca. Nem incomoda. E vem sempre primeiro. Então confortem-se, maridos. E entendam. Não é nada pessoal. Só que cama de casal, ou cabe a prole inteira, ou o papai que vá dormir noutro lugar. E já que está em pé, aproveite e traga suco. Ah! Bolacha recheada, também. E deixe o menino te pintar a cara, sim! De tinta, é obvio. Se não, que graça tem? Manchou a roupa, foi? Melhor. Fica de lembrança. Agora um beijo no bico. E aposto uma corrida. Duvido que ganhem de mim…

E já que mãe não se aposenta, que eu ame loucamente e para sempre. Por dois. Por seis. Dez mil e podendo prorrogar. Um amor assim, à moda. Largo. Pronto. Bem a minha cara. Sem conta nem final. Que filho é bom, viu? Melhor até que bolo quentinho. Aliás, minha mãe faz um de fubá, uhhhhhhhh… inesquecível. Desses infalíveis, que só ela e ninguém mais. Qual o segredo? Sei não. Mas arrisco um palpite. Carinho de mãe. Ué? Precisava alguma coisa mais?

Carinho de Mãe

Um caso meio diferente

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De todas as suas esquisitices, aquela ganhou longe.

E ninguém soube o porquê. Nem mesmo ela. Que iniciou seu dia como sempre, pelas crianças. Mas ao invés do habitual, Hora de acordar!, o que se ouviu foi algo bem incomum.

_Hoje é quinta-feira, dezesseis de abril, e o Bom Dia Brasil está só começando…

Os filhos se entreolharam, mas decidiram tocar em frente, como se nada tivesse acontecido, O café tá pronto?

A mãe, como quem olha diretamente para uma câmera, aprumou e disse.

_E o brasileiro? Tem comida na mesa? Como estados e municípios tem atuado para garantir a segurança nutricional da população? Pra responder a essas e outras perguntas, estamos recebendo hoje em nossos estúdios a coordenadora geral da secretaria estadual de alimentação…

Mas era só a Chica. Boleira de mão cheia e há anos na família, Vim avisá que num tem leite. Nem dá pra buscá, qui tá uma friuzera danada lá fora…

Foi o suficiente para mãe reassumir as transmissões.

_Uma grande massa de ar frio acaba de chegar ao país. Isso explica as baixas temperaturas e as geadas. É o caso do Acre, por exemplo. Com mínima de doze graus em Rio Branco…

Pior ainda foi no carro, quando a mãe entrou em horário eleitoral gratuito. Na porta da escola, entrevistou dois professores e tentou uma exclusiva com um senhor estacionado em fila dupla.

Voltou pra casa a tempo de abrir o Vídeo Show, que veio com os seguintes destaques, As dicas de beleza da vó Cinira, o vídeo musical da poodle da vizinha e o papo aberto com o seu Borges, porteiro-faz-tudo que a dona Chica era doidinha pra pegar…

Sei que o encosto não largava. E quando o marido entrou em casa foi recebido aos berros de, Cachorro, canalha! Isso lá são horas de chegar? Tava com outra, acertei? Fale, tratante. Fale!

Faltou a ele enfartar. Mas foi atendido pelos filhos, que explicaram.

_Liga, não, pai. Passou o dia assim. Zapeando de programa em programa. E o senhor chegou bem na hora da novela…

Comeram em silêncio. Quebrado vez ou outra, quando chamava os comerciais.

Tentaram banho, chá de boldo, vick vaporub e reza pra descarrego. Nada. Com as manchetes desdobrando noite adentro. Até sair do ar. Quando simplesmente calou.

_Como está se sentindo? – quis saber o marido.

_Bem melhor – respondeu ela, aliviada.

Então apagaram as luzes. E ela teria virado e dormido, não fosse ele. Em pé sobre a cama.

_Tantarantantan-tarantantan… O Plantão da Globo informa: mãe acometida de transtorno psicológico não identificado finalmente se liberta do transe. Mais notícias você acompanha durante a nossa programação…

Um caso meio diferente