Segundas Intenções

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Voltou para casa mais cedo. Eufórica. Perturbando a vizinhança inteira.

_Cês viram? Estreia nesta quinta: Marcas de um amor. Parte seis. A lenda continua. E aí? Quem topa?

Nenhuma resposta. Pelo contrário. A mãe alegou cansaço e uma crise reincidente de labirintite. A irmã, trabalho. E assim, todos. Um por um. Tia. Tio. Concunhado. Conhecida de porta. Mocinha que vende Avon. Até que colou numa amiga mais chegada. Com quem insistiu, à plena carga.
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Doida, eu?

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Era uma vez um moço. E uma moça. Que decidiram namorar.

O início até foi fácil. Enquanto ele era um só. E se chamava Leonardo. O sufoco veio depois. Quando virou dois.  Aí sim, a história começou a complicar.

_Pensa que estou brincando? Falo sério! – reclamou ela a uma amiga

_Cuméquié?

_Juan Ramón…  Já viu isso? – mas num heroísmo típico de mulher apaixonada, abrandou _ Sei que não bebe. Nem rouba. Mas dupla personalidade? Tenha a santa paciência…

Até o dia em que ele, Leonardo, ligou mais cedo pra ela. Intimando.

_Acabou a moleza! Uma corridinha no parque é tudo que precisamos.  Pode ser? Passo aí em meia hora – e desligou.

Restou a ela pular da cama e se arrumar. Tênis. Legging. Top. E o cabelo prendeu firme num rabinho. Mas quando abriu a porta foi Juan Ramón quem foi entrando e sugerindo um programa diferente.

_Vine a busca-la, mi amor, para que caminemos juntos em la playa. Ven conmigo, princesa…

Que mulher resiste a um convite assim? Com ela não foi diferente. Sumiu quarto adentro, retornando algum tempo depois. Leve e solta. De rasteirinha nos pés e canga amarrada ao pescoço.

Enquanto isso, apoiado na mesa da sala, Leonardo alongava.

_Tá doida, mulher? Que trajes são esses? Vá se arrumar. Ande. Eu espero… É cada uma…

E caminho da roça pra moçoila, que destrocou tudo de novo, reaparecendo em seguida. Surpreendida por um cheiro bom de refogado que vinha lá da cozinha.

_Escucha, corazón  – disse Juan, enquanto lhe afagava os ombros_ Quiero quedarme aquí con usted. Disfrutando de una buena bebida, una canción y la comida que preparé solamente para ti…

Ela bem que gostou da ideia. Foi correndo descalçar e num zás-trás estava de volta.

_Ainda não tá pronta? – admirou-se ele. O Leonardo, é claro. Quem mais? _ Treino que é bom, nada, né?- e alfinetou _ Já ouvi fala em gente enrolada, mas você se superou…

Bastou para ela. Que fugiu. Desembestada. Para nunca mais voltar.

De lembrança não quis nem foto. Restou ele. Inconformado.  E uma caixa postal abarrotada que ficou para trás por deletar.

_Hola, es Juan Ramón. Cade usted?…/ Sin ti voy a morir. Quieres casarte conmigo?…/ Me compré un gato para nosotros. Regressa, mi vida, por favor!…/ Oi, é o Leonardo. Apareceu um gato aqui em casa. Só pode ser coisa tua. Melhor vir buscar rapidinho. Tô avisando… / Corazón, el gatito desapareció. Pero no te preocupes , voy a comprar um buldogue para nosotros…/ Mas cê é destemperada, mesmo, né?! Cachorro, agora? Dou dez minutos pra voar com ele daqui. Ou senão… /Preciosa, el perrito también sumió. Pero tengo una idea: voy a comprar una cabra, algunos periquitos y una pareja de chimpancés. Te amo mucho!…/ Ô, sua maluca! Tá achando que minha casa é o rancho da sogra, é? Vou te delatar pro Ibama, sua doida varrida! Pro Ibama, ouviu bem????…

Doida, eu?

O amor é um bichinho que rói, rói, rói…

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O amor é um bichinho esquisito. Que já rendeu prosa. Verso. Churumelas dramáticas e até samba.

Cada qual ao seu modo. Dependendo do referencial.

Tem quem diz que o danado é manso. Cara e fuça do dono.

Outros, que é arisco. Pelo grosso e que pinica. Bonzinho só no começo. Depois, morde. Arranca pedaço. Nacos inteiros de coração. Dilacerados. Lanhando corpo e alma. E o que mais vier com eles.

Sei de quem tomou raiva. Até medo. Numa paúra da moléstia. Triste de ver e mais ainda de contar.

Difícil mesmo é fechar a conta. Quem provou da vida o seu bocado, sabe bem do estou falando. Conta de amor não zera. Nunca. Se insistir, vira dízima. E fica pra trás. Aquele quebradinho de nada. Incomodando e arrastando. Pelos séculos dos séculos. Amém.

Quer saber? Não tem receita. Nem conserto. Se é amor, é assim. Nem branco. Nem preto. Um Prêt-à-porter. E pronto.

Amor é protótipo de molde avariado. Filho único. Com a vantagem que pode dar certo. Dar cano. Ou dar n’água. Ô, dó…

Quando isso acontecer. Vale a regra do “chacoalha a cabeleira e entra na roda, vem dançar”. De novo. E de novo. E de novo. Se cansar, descanse uma. Depois volte. Enjoou, foi? Acontece. Nas melhores famílias.

Se nenhum amor sobrar, cultive o seu. Aquele tal de amor-próprio. Ouviu falar? Não tem contraindicação e vai bem com quase tudo.

Ficou sozinha? Grande coisa. Mas que cara é essa, menina?  Solidão não é o fim. Nem o começo. É só uma chance de ser feliz de outro jeito. Sem meias palavras. Nem meias medidas. Tem coisa melhor? Tem. Mas se não deu…

Então, solidão também é bicho. Assim como o outro. Mesmo planeta. Só que mais calado. Um olho no gato, outro no rato.

Conheço quem abraçou a ideia. E não é pouca gente, não. Quer saber? Partilho e incentivo. Ao menos é seguro. E com o que tem de bicho feio esparramado por aí…

O pior é a mulherada. Que grita. Depois sai, desembestada. Correndo atrás. Num que-te-pego-que-te-agarro descomunal. Como se, sem ele, fosse trincar. Quebrar. Morrer…

E não adianta avisar que é refugo. Que o traste é ruim. Desses que não presta nem pra esquentar banco. Pensa que ouve? Imagine. São dois choros. Um escandaloso, pra entrar. E um sofrido demais da conta, pra sair.

No final, vai ficar brava. Culpar os outros. A vida. E o amor, é claro. Que é bicho muito esquisito.

Vai entender, né?

O Mala

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Com certeza, não foi uma boa ideia. Mas era tarde. Fazer o que, se já estavam lá.

Fileira C. Poltronas doze e treze, respectivamente. Ela, de longo. Ele, de tênis. Sentados e assistindo. Bom. Ao menos, ela. Sem perder um agudo que fosse. Enquanto que ele não parava um só minuto. Num mexe e remexe daqueles. Incomodando meio mundo.

_Que comichão é esse? – ralhou ela.

_Tô procurando o controle? Queria dar uma zapeada

_Tá doido, é? Por acaso acha que está onde? Isso é um teatro, homem! Eu, hein…

_É que não gostando muito dessa programação. Achei fraquinha…

_Fraquinha estou eu. E é da cabeça! Que não sei onde estava quando fui inventar de trazer você aqui…

_ E o som ruim demais! Não dá pra entender uma palavra do que dizem.

_Desde quando você fala italiano?

_Chame alguém, ande! Mande mexer no áudio. Ou pôr legenda. Que está me dando uma agonia daquelas.  E por falar em agonia, lá vêm eles cantando de novo…

Pareceu ter quietado. Por três longos minutos. Foi quando começou a assobiar.

A reação dela foi imediata. Num cutucão fenomenal. Praticamente um semicoice.

_Credo! – reclamou ele, que inventou de perguntar _ Será que cai?

_Quem?

_O Vasco, ué? Que horas são? Se perder hoje, já era. Matematicamente rebaixado. Sem choro nem vela…  

O shhhhhhhhhh veio de trás. Fileiras D, E ou F. Difícil precisar a fonte.

Ela encolheu. Virou tatu-bolinha. Ele nem fez conta. Seguia aborrecido e perturbando. Mais que nunca. Tamborilava alto. Estalando os beiços. Chacoalhava o corpo e a poltrona ia com ele. Fazendo o contraponto.

Novos olhares. Ela choraminga.

_Dá pra sossegar? Você é impossível!

_E você é uma lindinha! – retrucou o sonso _ Agora, aproveite o elogio e busque uma cervejinha pro papai.  Tô precisando muito molhar o bico, viu?

_ Isso aqui não é boteco, não! É lugar fino, criatura…

_Já vi tudo! Não tem breja na budega

_Jesuisssss…

_ Bom pra aprender. Da próxima vez trago de casa. Um isopor cheinho assim…

Outro shhhhhhhhhh. E esse tinha nome, sobrenome e bico torto. Sem falar que vinha de todos os lados. 

_Viu, só? Tá feliz?

_ Se ao menos cantassem mais baixo. Ainda se fosse um pagodinho… 

_Desisto de você!

Debandou pro lado dela. Cheio de dedos e de graça _ Desiste não, pintinha

_ Você não tem jeito…

_Prometo que volto bonzinho.

_Volta? De onde?

_Do banheiro. Que tô aperreado. Fale pra galera dar um pause – bem quando tocou o telefone _ Carlão? E aí, meu brother!

O desconforto foi geral.

E ele tentou explicar _ Gente, é o Carlão…

_Mas será o Benedito? – insurgiu-se ela.

Quando começaram a acreditar numa trégua humanitária, surgiu ele de novo.

_ vendo algum garçom por aí? 

_Hein???

_Esquente não, que vou buscar. Que prefere? Fritas? Linguicinha? Ih… Que cara é essa? Se queria pastel, era só falar…

_ Quer saber? Cansei. Pra mim, chega!

E catou sua bolsinha, decidida a partir.

Foi a vez dele interpor recurso.

_Peraí. Peraí. Que essa eu conheço – e soltou a voz no mundo _ Funiculí, Funiculá. Funiculí, Funiculáaaaaaa…

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Um espírito baixou lá em casa

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Ontem um espírito baixou lá em casa. Nele. Antes fosse em mim. Assim dava de louca. Desopilava. Mas, não. Ficamos os dois. Ali. Confinados. Com ele azucrinando. Caçando encrenca. Sem parada. Nem porquê.

E olhe que dar chilique é comigo mesma. Mas cuidar do piti alheio, comadre, já é outro departamento. Ainda mais se vem barbado. Com quase dois metros de espinhela caída. E justo pro lado de quem! Desestruturei. Saí desfiando rente. Talhando beicinho à faca.

Tentei mudar de assunto. Virar o disco. Seguir em frente. Não funcionou. E o pelego só piorava. Quer saber? É trabalho. E dos bravos. Só pode. Já devo estar acumulando milhas. Para as próximas vinte encarnações.  No mínimo. Assim volto raio de luz. Vaca indiana. Ou herdeira da Madonna. Vai saber, né?

Invoco, então, as infalíveis. Aquelas que fazem a Liga da Justiça parecer a Vila dos Smurfs. São elas. As minhas vizinhas. Palpiteiras de ocasião. Com jeitinho para quase tudo. De simpatia do bucho cheio a como invadir um Wi-Fi em dez lições. Sem mestre, nem senha.

Sugestão 1: descarrego.

Recuei. Lembrei da Jovelina. Cujo marido embatumou num repente. A pobre diaba tentou tudo. Abnegação. Mimos. Atenção redobrada. Abriu mão da família. Amigos. Trabalho. Até do horário no salão. E nada. Absolutamente nada! Foi quando apelou. A um padre. Exorcista. Sétimo dan em aikido.

As visitas foram tantas, que fugiram. Ela e o sacerdote. Num fusquinha amarelo. Airbag duplo. Sensor de ré. Travas elétricas. Ótimo estado de uso. Ouvi dizer que estão tentando vender. Trocar por passagens para ir a Roma. Ver o papa. Se souberem de algum interessado…

Sugestão 2: chá de vem-cá-meu-nêgo (ou melô do “guenta”-bem-dado)

Vai nessa! Lembram da Aleluia? Quase morreu, a infeliz. O fulano, de tão entusiasmado, só pensava em encostar. Enquanto a outra, pobrezinha, mal andava. Sofria até para respirar. Fraquinha. Esquálida. Vista turva. E ele querendo mais. Da missa, o terço. Todinho. Guloso. Eu, hein? Prefiro o xarope ao unguento. Benza-Deus!

Sugestão 5.698…

Ai. Ai. Melhor parar por aqui. Se for esperto, ele que se corrija. Sozinho. Por conta e risco. Afinal, o acordo foi claro: te faço feliz e você retribui. Sempre na mesma moeda. Não era isso, não? Sei… Letras miúdas no rodapé? Tá… Não vi. Mesmo. Por falar nisso, aproveite para ver se estou lá, esperando na esquina. Quem sabe, quando voltar…

Eu? Cansei dessa vida. Resolvi sossegar. E desvirar o santo. Aquele. O Antônio. Que esqueci há uns três anos. No fundo de um armário escuro. De cabeça para baixo. Afogado num copo d’água e amarrado em silver tape.

Só pode ser revanche. Ah, meu Santinho, pegue leve com essa moça. Era brincadeira, viu? Beato mal-humorado, gente! Credo…

Quer namorar comigo?

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Terminou num beijo. Ou começou. Depende do referencial. O ponto é que algo surgiu entre eles. Com paixão e intensidade.

Ela nem piscava. Era puro sorriso. Rasgado. De orelha a orelha. Sonhava acordada. Com ele. Que retesou o corpo enquanto procurava. Remexeu aqui e ali. Revirou os bolsos. Não sossegou até encontrar.

_Arrá! Aqui está – repousando uma cadernetinha surrada sobre a mesa.

_Que é isso? – perguntou, curiosa.

_ Bom, agora que está tudo certo entre nós, melhor deixar claro umas coisinhas. É como minha mãe costuma falar: o combinado não é caro. Então, vou fazer umas perguntinhas. Bobagens. Nem esquente. Aí, é só calibrar. E seguir. Felizes para todo o sempre. Tudo bem pra você?

_Mande!

_Vejamos… Você cozinha?

_Não muito bem, mas…

_Como assim “não muito bem?” O trivial básico você garante, né? Não ganho pra comer fora todo dia, não! Sem falar na minha gastrite. Na alergia a conservantes. E na intolerância a cloreto de sódio. Dá azia, sabe? Uma azia tão grande. Uma queimação…

_Hein?

_E lavar e passar? Você sabe, não sabe? Engomar, minha mãe ensina. Só não pergunta demais. Ela odeia quem fica perguntando. De resto é fácil. Com exceção das camisas. Que essas prefiro à mão. Bom que vai acostumando. Caleja pra quando vierem as crianças. Roupa de criança é terrível. Encolhe e rasga só de olhar. Digo isso porque tenho duas. Meninas. Uma do primeiro, outra do segundo casamento…

_Segundo?

_Por falar em crianças, já pensou em conversão?

_Oi?

_É que sou judeu. Ortodoxo. E minha mãe não admitiria um filho de ventre não-hebreu. Imagine quatro.

_Quatro?

_Cinco? Prefere cinco? Por mim, até seis. Amo família grande. Barulhenta, não! Mas, grande! E que guarde os sábados. Jejue. Uma beleza. Vai por mim. Vai por mim…

Agora é ela quem se mexe. E remexe. Numa agonia da gota. Quase pula.

_Que foi, minha chickabiddy? Algum problema?

_Está ouvindo isso? Meu celular. Acho que está tocando…

_Por falar nisso, aproveite e cancele o facebook. Temos uma única inscrição para a família. Melhor assim, não acha? Imagine só, quanta bobagem! Instagram. Candy Crush. Whatsapp…

_Noooossa. É ele mesmo. E está gritando meu nome. Lá longe. No banheiro…

_Aonde você vai?

__Ao banheiro. Já disse.

_Bexiga baixa. Adivinhei? Tenho uma tia assim, pobrezinha. O final nunca é bom: infecção ou incontinência. Daí, pra controlar, só mesmo no fraldão. Pra você, melhor G. Quase nem vaza. Uma beleza. Embalagem com oito ou doze unidades…

Ela nem ouviu a metade. Já que corria. Muito. Dobrava quase cinco quadras e ainda achava pouco. Sumiu. Nunca mais foi vista. Ao menos não por ele. Que coisa, né, gente? Casal tão bonito…