Tá danado!

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Era ela ao telefone. Sua voz mais aguda que o usual.

_Nando, sou eu…

_Leneir, tem noção que é a terceira vez que você liga?

Deu de ombros e seguiu. Mais dramática que nunca.

_Lembra da secura na boca? Pois é. Desceu…

_Desceu pra onde, mulher?

_Pro peito. Começou com um estufamento, sabe? Depois veio a arritmia, o suor frio e a vontade de chorar…

O marido suspirou. Desacorçoado. Se essa era a Leneir, o que é que se podia fazer?

_Tô sentindo, Nando. É infarto. Só pode ser. No duro…

_Sossegue, mulher. É o quinto, nessa semana – e implorou _ Preciso que me deixe trabalhar. Um tiquinhozinho que seja. Por favor…

_Pronto! Travou meu diafragma! E se foi um aneurisma da aorta que rompeu?

Bufou. Injuriado. Que era um amor de mulher, ninguém discordava. Mas dentre todas as esquisitices possíveis, tinha que sofrer justo dessa?

_Não tenho mania de doença coisíssima nenhuma! – defendeu-se a moça.

_Ah, não? E quem é que sempre está doente?

_Eu? Nunca!

_E a apendicite em Portugal?

_Supurou, lembra? E eu que quase acreditei em AVC…

_Era nossa lua de mel, Leneir…

_Amei o quarto do hospital.  Por quê? Você, não?

_E o episódio na Espanha?

_Agapilori. Mas esse não conta, que nem é doença…

_Não? Tá. E o herpes zóster?

_Genético. Reclame com a minha mãe.

_Seu ovário?

_Não mexa com meus folículos…

_Ai. Ai. Ai…

Se sossegou, foi bem pouco. Voltando a carga com tudo.

Do outro lado, homens falando alto e uma sirene ininterrupta.

_Leneir? Leneir? O que é que está havendo aí?

_Nada, não, benzinho! É só a polícia. O pessoal do Batalhão de Operações Especiais. Sabia que o tenente- coronel Marins participou da pacificação na Rocinha?

_Rocinha?

_Pois é. Liguei primeiro pro Samu. Já que ninguém veio…

Voltou-se aos rapazes na antessala_ Gostaram do café? Que bom! Eu? Bem melhor. Mesmo! Voltem sempre, viu?

Tenente-Coronel Marins? Aí já era muito. Até para a Leneir.

Seu telefone voltou a tocar.

_Nando?

_Fale, Leneir…

_Sabe aquela pontada que começou nos quadris? Pois é. Irradiou…

_LENEIR!

Foi assim até ele chegar.

A noite, se teve algo, foi fogo. Mas desse mal não tem quem morra. Coisa que ele sabia muito bem como tratar.

No final de semana, quem caiu de cama foi ele. Trinta e nove graus e pipocando. Tremendo até a raiz dos dentes. Sem ter o que ajeitasse.

Mesmo assim, foi ter com a sogra, e com a parentada toda, que farreava na piscina.

Dessa vez ficou à sombra. Fungando e assoando. Com ela ao lado. Montada no próprio bico, enquanto reclamava a quem passasse perto.

_ Pode isso? Uma gripinha à toa e quase morre. Culpa minha, sabia? Que dou corda as manhas dele – e deu seu veredicto. Categórica _ Molengão! Ah, se fosse comigo…

Banho de Assento

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Sou homem. E homem é assim: odeia esperar.

Por isso fugi. Deixando minha irmã sozinha, enquanto experimentava todo o estoque da loja de sapatos. E fui zanzar por aí.

Na verdade, nem fui longe. Entrei na primeira portinhola que vi. Uma farmácia. Onde estacionei ao lado de uma prateleira qualquer. À toa. Olhando pro mais completo e absoluto nada.

_Entocort…

_Oi?

_Remédio pra colite. Acertei? – e explicou _Parado aqui, fica fácil: ou é colite ou hemorroidas. Mas a tomar pela sua estampa, aposto, mesmo, que é colite. Crônica. E daquelas ouriçadas…

Pisquei. Duas vezes. Seria esse o fim de Clark Kent e sua tacanha visão de raios X? Iria o mundo finalmente se curvar aos superpoderes da atendente-mediúnica e sua percepção de tomógrafo pós-contraste? Mas antes que pudesse responder, ela retomou a consulta.

_Quantas caixas?

Comecei a duvidar de minha sanidade física e mental.

_Deixe comigo. Que efeito colateral todos têm. De monte. Mas pra isso também tem remédio. Quer ver só? – sumiu comigo. De corredor em corredor. Catando drágea disso e caixa daquilo. E a cestinha só enchendo.

_Esse você leva pra insônia. O outro, pras crises. Dos nervos. Se a coisa apertar, dobre a dose. Não tem erro. Vá por mim.

_Sei. É que…

_E as câimbras?

_Que câimbras?

_Pras câimbras o melhor mesmo é banana. Se não passar, tente um Sinvatrox. Mas se a vista enturvar, volte, ok? Correndo!

E a nêga matraqueava. Mais que o homem da feira.

_O negócio é um só: banho de assento. Com vinagre branco e amoníaco. Se resolve, eu não sei. Pelo menos, refresca. E tira a urucubaca.  Que doença é olho gordo. Já tentou mandar benzer?

Hemograma? Cintilografia? Ressonância Magnética? Pra quê, me diga? Esqueça tudo e chame um pai de santo. Mais barato que plano de saúde coletivo. E ainda vem com batuque.

Catei minha cestinha e dei no pé. Direto pro caixa. Pensam que ela parou? Qual nada.

_Mostraram pro senhor as nossas promoções?

_Escute aqui, minha filha…

_Iodo. O senhor tem iodo em casa?

_Na verdade, não. Mas…

_Nãoooooo? – o susto foi tanto que peguei logo cinco. Litros. E ela, sem perder o ritmo, emendou _ As ataduras baixaram. Não dá nem vinte centavos o metro…

Bom. Se é assim, me dê dez metros. Melhor, doze. Trinta. Levo tudo se me deixar ir embora.

_Escova infantil?

Tentei explicar que não tenho filhos. Não houve acordo. Acabou que levei duas. Uma rosa e uma azul. Pra não dizer que sou tendencioso.

E assim comprei um higienizador de dentaduras. Três pacotes de fraldas geriátricas. Paracetamol. Uma lata de Mucilon. E um barbeador elétrico. Ultrassônico. Que apara pelos do nariz e ainda ilumina a garganta.

Depois de tudo, a rua. Onde minha irmã esperava. E pasmou, Mas que tanto de sacola é esse?

Enquanto isso, a fulana, lá do fundo da loja, seguia tagarelando _Gente, que simpatia esse homem. Doentinho, coitado. Mas uma simpatia –  e gritou, num gesto final de comiseração _ Não esqueça o banho de assento, viu? Não esqueça o banho de assento!!!!