Carinho de Mãe

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A barriga foi o prenúncio. Custou a vir, mas tomou conta. Num me-carrega-que-te-apoio, ao qual me afeiçoei com certa facilidade.

Mas vê-lo pela primeira vez foi outra história. Tê-lo em meus braços, então, pôs do avesso prioridades e reescreveu meu daqui-pra-frente, convertendo todo o resto num desperdício imperdoável.

É que amor de mãe não tem medida, recesso nem receita. E envolve renúncia. Devoção. Pitadas de aconchego e porções descomunais de carinho, pra guarnecer e adoçar. Aí é misturar bem e torcer pra que dê samba. Que filho não tem bula. Nem juízo. Pega tudo que é ziquizira e faz justamente o que não deve. Mas soube da última? Você dá conta. E não pergunte como. Tem que emprenhar e sentir na própria carne pra saber que funciona.

O melhor de tudo é que dá certo. Mãe domina a arte do improviso e tem uma criatividade que contando ninguém acredita. Afora a paciência de Jó. E o que a fulana não sabe, descobre. Isso quando não adivinha. Que a dona além de tudo é telepata. Autodidata. Consultora. Motorista. PHD em psicologia aplicada. E se sentir falta de mais alguma aplicativo, procure que tá lá.  Que a bicha é danada, viu?  Afff Maria

Um mulherão de todo tamanho que se desmancha por conta de um guri. Com filho é assim. Uma vida inteira revirada por causa de um peteleco de gente. Que nem tamanho tem, mas é meu. Quanto a mim, sempre fui dele. Perdidamente apaixonada.  Embalando um pacotinho envolto em mantas, toucas e cueiros, e onde mal se veem as bochechas de fora. E é procurar por um e deparar com dois. Aninhados. Numa comunhão construída. Lapidada aos trancos e barrancos. E que nem sempre veio fácil.

Não me deixam mentir as noites em claro, os xaropes cuspidos longe e os reiterados e não menos famosos combinados. Pra todo o resto tem bitoquinha. Já que beijo de mãe tem propriedades curativas, ômega 3, nutre os órgãos e energiza os chakras. Bons pra tudo. De febre branda a ataque de soninho. Em caso de dengo, então, quebre o vidro e faça a festa. De onde vieram esses, tem outros. E muitos e muitos outros mais.

Afinal sou mãe de carteirinha. Daquelas que se pudessem, optavam por fazer de novo. E a tempo de entrar na fila outra vez. Com direito a repeteco de abraço. E fungadinha de saideira.

Até parece mentira a ligeireza com que crescem. Assim mesmo, do dia pra noite. Primeiro o leite seca. Daí o peito dá lugar a chuca. Que logo perde o posto pra sopinha. Mais ou menos na época em que começam a engatinhar. Depois, sentam. Aí são as perninhas que bambeiam. Até que improvisam um rumo e vão quase em linha reta. Falando pelos cotovelos. Enquanto a casa vai enchendo de amigos. Num instantinho estão lendo. Fazem contas. Planos. Passam a ter opiniões. Reclamam se mudam de casa. Estrilam quando mudam de humor. Escolhem suas roupas, seus empregos e namoradas. Viajam sozinhos. Trabalham. Dão mais um tanto de trabalho. E um belo dia casam. É quando ganhamos netos. Ou qualquer coisa parecida e mais ou menos nessa ordem.

No dia seguinte, a vida continua. Que filho estica, mas não envelhece nunca. Nem incomoda. E vem sempre primeiro. Então confortem-se, maridos. E entendam. Não é nada pessoal. Só que cama de casal, ou cabe a prole inteira, ou o papai que vá dormir noutro lugar. E já que está em pé, aproveite e traga suco. Ah! Bolacha recheada, também. E deixe o menino te pintar a cara, sim! De tinta, é obvio. Se não, que graça tem? Manchou a roupa, foi? Melhor. Fica de lembrança. Agora um beijo no bico. E aposto uma corrida. Duvido que ganhem de mim…

E já que mãe não se aposenta, que eu ame loucamente e para sempre. Por dois. Por seis. Dez mil e podendo prorrogar. Um amor assim, à moda. Largo. Pronto. Bem a minha cara. Sem conta nem final. Que filho é bom, viu? Melhor até que bolo quentinho. Aliás, minha mãe faz um de fubá, uhhhhhhhh… inesquecível. Desses infalíveis, que só ela e ninguém mais. Qual o segredo? Sei não. Mas arrisco um palpite. Carinho de mãe. Ué? Precisava alguma coisa mais?

Carinho de Mãe

Culpa Sua. Só pode…

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Estavam os dois ali. Em plena praça de alimentação. Decidindo quem ia primeiro e aonde.

Sei que não demorou muito pra tal dona fulana dar com as pernas no mundo. Afinal nossa história trata de uma filha de Maria à solta em Miami. E o que é pior, com o embornal abarrotado de dólares, ao câmbio extorsivo de três por um.

A ele restavam as sacolas, que a essa altura não eram poucas. Gucci. Gabbana. Valentino. Além do bebê a tiracolo. Que mal completara seis meses. E que ao menor sinal de ausência da mãe armava um berreiro daqueles. Terrível. Som surround em dolby digital.

Danou-se, remoeu o caboclo, descadeirando corredor e meio atrás da moça, O bebê que mamar. O bebê tá com sono. O bebê tá molhado, e como nada a demovia, apelou, O bebê quer a mãe!

Ela, tomada pela comoção, sentiu-se ótima. Necessária. Querida. Tudo que poderia voltar a sentir mais tarde, ao retornar pro Brasil. Agora, não. Que tinha muito o que fazer. Sendo assim, foi direta.

_ Toma que o filho é teu.

_E faço o quê?

_Balançar já seria um começo – e foi o que ele fez.

Mas o que era pra ser um frágil oscilar angelicus acabou transmutado num freneticus chacoalhar chiliquentus. Se alguém percebeu? Digamos que nem todos no estado da Flórida. Mas o pitchuco, sim (esse com toda certeza, coitadinho!). Que passou do resmungo ao choro aberto, num rasante descontrolado e sem sobreviventes.

O pai ainda tentou, Mulher do céu, acode aqui! Misericórdia…

Bobagem, descartou ela a caminho do provador, Cante pra ele que passa…

Tá. Cantar até que é fácil. Mas situações de crise não dão margem a repertórios variados, sendo assim, engatou na primeira que veio…” Toda vez que eu chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama”…

Obvio que não funcionou. Ao contrário, o neném berrou mais ainda.

Evidente que sacudindo um tantinho mais ele sossega, presumiu o gênio, que botou toda a sua fé e força num sacolejo dos diabos. Sambando e cantando como se soubesse. Com o pimpolho sob o sovaco, convertido em reco-reco. Indo e vindo por entre lágrimas.

Pensam que acabou? Qual nada! O melhor estava por vir. Com o advento da bateria, num tchicundum-pumperô totalmente fora de forma. E que tomou corpo, com o pai xaxando, numa mistura mal-ajambrada de passista e britadeira. Dava dó só de olhar…

Até que o bichinho desandou. Talhando de dentro pra fora e vertendo tudo o que tinha pra cima do pai e de quem mais passasse ao largo, num raio de cento e cinquenta quilômetros.

_Que confusão é essa, posso saber? – era a mãe quem se achegava. Boquiaberta com a dimensão da cena toda.

_Eu que sei? – devolveu ele, contundente _ Culpa sua! Só pode.

_Minha?

_Mas é obvio – e passou a explicar, numa caradurice sem tamanho _Tava tudo muito bem até agora. Mas foi você chegar e pronto. Cabô o nosso sossego…

_Cuméquié?

_Sabe o que te falta, meu bem? Molejo – e voltando a balangar o menino, sussurrou _ Chora não, campeão. Papai tá aqui, viu? Papai tá aqui…

Culpa sua. Só pode

Dicionário de futebolês para amadoras com filhos

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Chegou a copa. E você, que passa os dias correndo atrás da bola (leia-se: molecada), percebeu que não se preparou adequadamente para o evento.

Não falo em acessórios, que nessas horas qualquer fralda com ursinhos verdes em carrinhos amarelos vira bandana e pashmina. Falo da preparação técnica. Dos pré-requisitos que vão dos sistemas de esquema tático (4-2-4, 3-5-2, 1-2-3 de Oliveira 4 e, o infalível, 3 pra cá e 2 pra lá), aos nomes dos artilheiros, das comissões técnicas e o diâmetro médio das coxas da equipe de ataque italiana (mamma mia, questo è una meraviglia!).

Mas não se preocupe, que compilei de forma simples e concisa os conhecimentos necessários a quem não quer fazer feio numa mesa-redonda de futebol. Ou quadrada, de boteco. E note que a segunda é ainda mais exigente que a primeira. Sendo assim, não perca mais tempo e olho no lance!

1. Prorrogação: minutos finais e decisivos de um jogo. Aqueles que você nunca verá (porque a sua filha menor grita e esperneia. Quer ir embora, de onde quer que você esteja. Ou porque as amiguinhas da sua filha gritam e esperneiam. Querem ir embora, de onde quer que vocês estejam. Ou porque o seu marido, torto de bêbado, cismou de cantar, A pipa do vovô não sobe mais…, colado a bunda da sua melhor amiga). Assim, quando o juiz apita, Fim de jogo!, e todos se preparam para sair, só dá você, de um lado ao outro, perguntando: E aí? Foi gol? Ganhamos? De quanto? E de quem? Era amistoso ou semifinal? Falando nisso, alguém sabe se vai ter copa?

2. Amistoso: que nem peguete. No final, não vale nada.

3. Semifinal: noivado, com grandes chance de dar jogo.

4. Final: Casório, com todo mundo chorando e torcendo pelo melhor.

5. Mão na taça: em fim sós. Daqui a quatro anos voltamos a conversar.

6. Final vencida pelo outro time: Foi bom enquanto durou.

7. Bicão: coice de ponta de chuteira. Quando você descobre que além de dinheiro, os jogadores também têm preparadores físicos, nutricionistas e fisioterapeutas fabulosos que você nunca terá. Mas a inveja corre por conta do pedicuro deles, que o infeliz chuta de canhota e faz gol de placa sem sentir nadica de nada! Enquanto você está lá: trabalhando de chinelo há quase um mês. Com um dedão que é pura carne esponjosa e lateja só em ver sapato…

8. Bola murcha: como você se sente ao descobrir que o jogo foi ontem e que torceu noventa minutos pelo capitão Jack Sparrow, achando que era o Thiago Silva, em um jogo imperdível contra aquele timeco da rainha.

9. Canhota: pé contrário da mão que escrevinha. Ou pondo em miúdos: pé oposto a mão que assina os cheques, abre presentes, passa rímel e arranca os pelos que nascem tortos na base da sobrancelha.

10. Vai que é tua: vai e toma, que não é tua coisa nenhuma, mas pelo que estão te pagando, não faz mais que a obrigação!

11. Essa até eu fazia: dê-me metadinha do que pagam a eles e descobrirão um talento nato.  Não prometo gol de voleio, mas que desembesto, eu desembesto…

12. Replay: só mais uma vezinha! Por favor! Por favorzinho! Dessa vez eu juro que assisto e presto atenção quietinha, vai… Por Deus do céu, Nossa Senhora e Santa Rita do Passa Quatro… E se jurar de pezinho junto? No duro, mesmo! Juro-juradinho que nunca mais vou perder nenhum lance, por menorzinho que seja. Por favor… Não? Por quê? Porque não, não é resposta!

13. Mete 4! Mete 4!: nenhuma conotação sexual, que o sangue de Jesus tem poder!

14. Impedimento: tipo criança que acorda no meio da noite e não volta a dormir por nada. Nem como reza brava ou historinha longa. Em mais um zero a zero histórico, torcida brasileira…

15. Bolão: dinheirama que você levaria fácil, caso acreditasse em seus palpites descabidos. Mas, não. Vai perder. Quem mandou ouvir o marido, o filho, o sobrinho e o porteira da escola das crianças? Ficou em último. Benfeito!

16. Sim, não, uhum: tudo que vai extrair deles durante uma boa partida. E é melhor não insistir, ou entra em campo o afamado, Que parte do estou vendo o jogo você não entendeu?

17. Uuuuuhhhhhhh: Não é vaia, não. É o outro. Aquele. Do drible que quase foi. Sem nenhum significado específico. Só indica que triscou rente. De resto, não serve pra nada. Mas, diverte. E ajuda a passar o tempo, enquanto o Neymar procura o gol. Experimente, vai! Capaz até de gostar. É só armar o biquinho e deixar o resto por conta da arbitragem: Uuuuuuuhhhhhhhhh…

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É Hoje…

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Mais ouriçados que eles, ninguém. Também, pudera. Havia décadas que não faziam. Como, o quê? Sexo, é claro.

Vontade até que tinham. Faltava tempo, sossego e oportunidade. Mas, eis que o improvável aconteceu. Com as crianças dormindo cedo e pesado. Deixando os dois ali. Faceiros. Num resfolego da moléstia.

Foi um tal de, Vai! Vai! Vai!, e, Vem! Vem! Vem!, com, Mais pra lá! Passou! Distorça tudo e volte, que quem ouvia jurava que estacionavam uma cegonheira, numa vaga para monociclos.

E olhe que começaram pelo básico. Em um dois pra lá, três pra cá, impossível de errar. Bem por isso, ela reclamou. Queria mais. Rojões, morteiros coloridos e sininhos tilintando.

Recorreram aos áureos tempos de namoro. Onde nada escapa, tudo pode e quanto maior o cheiro de encrenca, melhor. Se bem que não dispunham mais daquela elasticidade toda. Nem da forma. Ou destreza. Enfim. O que daria errado em uma noite auspiciosa como aquela?

_Que cara é essa? – estranhou ela.

_Qual era, mesmo, o nome daquela posição que você adorava? – respondeu ele, mal-intencionado até o caroço.

Ela riu _ Qual? A Viga Inclinada ou a Ponte Suspensa. Será que a gente ainda lembra?

_Moleza! É só pôr o seu pé direito no chão, sua perna esquerda pra cima, meus dois braços espalmados por baixo e as cabeças pendendo inclinadas…

_Não! Essa é o Caranguejo Reverso Rastejante! Falava daquela onde a sua perna vai por baixo, minha barriga por cima, seu tronco virado pra trás, enquanto prendo seu pescoço com meus pés, assim, ó…

Ao que ele deu o alarme _ Nãaaaaaaaaaaaaaaao!

_Credo! Que foi?

__Meu deltoide! Tá pinçando o meu deltoide!

__Se tentarmos outra? Você bem que gostava da Mula Manca Sentada, hein? E tinha aquela, também: a Misteriosa Flor de Lotus Dourada na Tromba Torta do Elefante Africano

E antes que ele assentisse, ela já distribuía funções _Vamos lá! Eu ajoelho, aqui. Você fica de lado, ali, apoiando seu cotovelo esquerdo bem no meio do meu plexo solar, assim! Enquanto centro a base da minha coluna no hemisfério posterior da sua…

_Aiiiiiiiiii…

_Mas será o Benedito?

_Meu bíceps! Travei meu bíceps! Ou será que foi o tríceps?

Relevou pra não perder o marido, nem a noite de regalos e fantasias. Outra assim, só em mil anos. Ou se o Flamengo for campeão. Vai saber, né?

Ele, preocupado, resolveu acelerar _Não tem algo mais simplinho que dê pra gente fazer, não?  Tipo arroz com feijão de panela de barro. Bem temperadinho…

_Algum problema com o meu arroz com feijão?

Lascou-se.

_Se tiver, fale. Não me venha com indiretinhas gastronômicas…

Alerta vermelho! Alerta vermelho! Ele que não era bobo, nem nada, preferiu não arriscar.

_É o melhor feijão do mundo. Refeição pra mais de dez talheres. E venha cá que eu…

_Venha cá, uma ova! Ontem, mesmo, peguei você separando. Comeu arroz puro. E eu vi!

Vixi…

_Exagerou no louro. Pronto. Falei – pontuou o tinhoso.

_Arrá! Se fosse na sua mãe, aposto que lambia a panela.

_Lá vem você implicando com a minha mãe…

_Meu feijão tem louro demais? Onde já se viu! Pois fique sabendo, que o feijão da sua mãe tem mais folhas que minha salada completa. E você reclama? Nãaaaaao!

O esfrega teria seguido noite adentro, não fosse a movimentação extra vinda do quarto dos meninos. O barulho fez com que voltassem a vida e a ordem: Escute aqui, que tal abandonarmos essa história de Elefante Com Trombose e ir logo ao que interessa?

Papai e mamãe? Fechado! Além do mais, combate os radicais livres. Melhora o tônus muscular, o humor e não engorda.  Perfeito. Não fossem pelos passinhos arrastados e a vozinha inconfundível, Ô, manhê!

Congelaram. Depois foi um tal de cobre, ajeita e esconde que, por pouco, não caíram da cama.

_Cadê o lençol?

_Que lençol?

_Aquele que você arremessou jardas além no meio da sua bendita Ponte Levadiça…

_Era Ponte Suspensa! E se alguém perdeu o lençol, foi você com seu Boitatá de Cócoras…

_Mula Manca Sentada! Mula Manca Sentada!

Como a ordem dos fatores não altera o produto, continuaram sem um mísero paninho para encobrir. Nem um lencinho umedecido pra chamar de seu.

A mãe apelou pro berro a distância_ Já pro seu quarto! E ligue a TV. Bem alto!

Acho que sossegou. E aí, vamos? Opa! É agora ou nunca…

E bem na hora do quase, ao invés do OOOOOOOOHHHHHH, veio um UUUUUUUUIIIIIIIIII.

 _ Meu supino! Estirei meu supino!

_O que eu faço? Paro?

_Nunca! Jamais! Só chegue um pouquinho mais pra lá… – e ela obedeceu, prontamente. Sem saber que era a vez do menor acordar, Manhêeeeeeeee…

Ignore-o, ordenou ele.

_Mamãezinha!

Continue ignorando, implorou, em completo desalento.

_Fiz xixi na cama. Todinha. Cocô, também…

E abriu o maior berreiro. Altíssimo. Em si bemol sustenido e estourado. Que só parou depois do banho. Quando deitaram os quatro juntos. Com os moleques no meio. E o casal se olhando. Cada qual numa pontinha. Imaginando quão longo um milênio poderia ser. E o Flamengo? A quantas andaria no campeonato, hein? Alguém sabe? O que vier primeiro, atende. Alguém? Qualquer um…Imagem

Confraria do Leite Azedo

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Branca. Preta. Alta. Baixa. Nasceu, bastou: virou filha de Maria.

Mas o tempo passa. A fila anda. E, um belo dia, quem era filha vira mãe. Sem muito floreio ou tempo para adaptações. Só sabe quem migrou. E virou sócia benemérita desse clã tão afamado.

Nem adianta pleitear, que isso é coisa de eleita. De pelega arretada. Que bufa, mas não entrega. Arrastando o barrigão de um lado ao outro e achando graça de tudo. Do pé que virou pãozinho. Dos enjoos. Da papada extra e até das câimbras (pior que isso, só a vontade insana de comer feijão frito com geleia de jaca. De pote. De noite. E bem na hora que cai a chuva, é claro…)

Somos mais que uma irmandade. Uma rede indissolúvel de entrega e amor sem estribeiras. E como em toda entidade moderna, aqui também não se usam uniformes. Então, pela milésima vez, não! Não usamos anel da Barbie por opção. Sabemos que bolsinha pink-groselha não combina com vestido sequinho na altura do joelho. E que, não por acaso, salto agulha e capa de super-herói são itens vendidos separadamente. Mas não se preocupem, mãe é assim mesmo. Com traços e manchas comuns a estipe.

Façamos um teste. Quer saber quem sou? Fácil. É só procurar: provavelmente estarei com a mesma blusa de ontem. Descabelada ou de rabinho. Num ombro, mochilas e mochiletes pisca-piscando. No outro, um pivete a tiracolo. Sempre. Agora olhe para baixo. Isso. Com mais dois, pendurados e rebocando. Um pra cada canela. Viu só, que beleza? Assim equilibra. E no final, ninguém se perde. Prático, não?

Igual a mim, milhares. Mais pra coesas, que pra elegantes. Zanzando soltas por aí. Enlouquecidas. Em todos os sentidos e direções. Sempre dois segundos à frente. A tempo de evitar que eles aprontem. Que se machuquem. Que atravessem a rua sem olhar. Ou comam aquilo que caiu ao chão (a não ser, é claro, que seja inevitável. Aí, minha cara, assopre bem e entregue a Deus. Vai por mim, que ele cuida…)

 E creia ou não, somos lindas. Mesmo que um pouco fora de forma. Ou de medida. Mas, ainda assim, lindas. E assoberbadas. Sempre correndo. Sempre cuidando. Sempre com pressa. Sempre cansadas. Sempre com culpa. Sempre queridas. Sempre prontas para abrir mão do que quer que seja por qualquer um deles.

Nessa confraria, pouco importa o que perdemos. Se somos as últimas, ou quantas vezes ficamos para trás. Quem liga? Me diz? Eu? Esqueça. Que não entendo de arte, mas admiro um bom bigode de suco.  Sou toda fresca, mas dou a vida em troca de um beijo melado do moleque mais fedido. Sem falar nos montes de papéis borrados que penduro pela casa e onde ninguém lê mamãe- te- amo. Só eu…

Sei também que não tem volta. E vem com pacote completo. Cólicas, fraldas, festinhas em buffets e o fim dos cochilinhos aos domingos.  E quer saber? Até que gosto das minhas olheiras. Deram um certo ar nouveau a essa pessoa que vos fala…

Temos filhos, oras bolas. E eles são marrentos. Dengosos. Birrentos. E amados além de qualquer proporção, métrica de tempo e distância. Enquanto houver sangue, vida, paciência. Ou até calejar o coração.

Dizem que amor de mãe resiste a tudo. Saudade, ausência, maresia e radiação. E que não morre. Volta ao início. Ao dia em que alisei de leve aquela barriga. Perdidamente em ti aconchegada. Pra não voltar a ser quem era. Nunca mais. Por pura e simples opção.

Quem é mãe, sabe. Que ganhou a vida. Que ganhou na loto. Que acertou em cheio. E não sei quanto a vocês, mas pra mim, parece ótimo. Melhor que tudo que podia imaginar.

Mãe. É o que sou. E sou feliz assim. Por mim, por eles e independente deles. E mesmo se doer. Já que não é dom, nem sina. E não tem jeito, nem conserto.

E tudo que sei na vida é amar esse menino. Hoje e sempre e tanto e muito. Com que orgulho. E com que felicidade…Imagem

A mãe da Chiquita Bacana

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Carnaval é festa de solteiro. Folia dos que ainda não desenvolveram matilha.

Mulher com barriga e penca, nem em banho da Dorotéia faz sucesso. Melhor é periguete, mesmo. Para os outras existe o desfile na televisão. Ou as afamadas matines. E não adianta espernear. Carnaval é Carnaval. Matinê é invenção de genitora. Não sabia, não? Ô, dó…

E as diferenças são muitas. Claras como o dia. Que é inclusive uma das mais marcantes adaptações. Tchau, quatro noites de Momo e Oi, duas tardes da Mama.

Pronto. É o que temos. Um cordão de mães ensandecidas. Desesperadas por um punhadinho de confete que seja. Loucas pra se jogar ao primeiro acorde de Mamãe-eu-quero. Mas Ilarilarilariê também serve. E Justin Bieber? Tá em ritmo de repique? Opa. Vale, também.

Geralmente, os primeiros cinco minutos vão bem. Até demais. Bem quando o menorzinho pede colo. Ou xixi. Ou cocô. Enquanto o amiguinho, aquele primo-vizinho-da-mesma-classe, chora com medo da música alta (que mãe que é mãe, é assim: não basta levar os seus, tem que arrastar mais uns cinquenta com ela).

Resumindo, criança não falta. Em corpo presente. Pois a alma ficou em casa. No computador. Jogando DS. Xbox. Wii. E Essa tralha toda que a gente nem sabe como é que funciona. Mas que eles adoram. Muito mais que bailinho de carnaval.

A banda é um show a parte. Já que o gogó de ouro não aparece. Nem pro grand finale. Está repousando. Pra entreter a turma da noite. Os afortunados. Que saem depois das onze. E vão que vão. Até o dia clarear.

Matinê é osso. É Gaza. Terra de ninguém. Onde manda quem pode e obedece quem é casado. Afinal, eles também estão lá. Os maridos. Contritos e em bloco. Fantasiados de homem-poste ou de vai-ver-se-estou-lá-na-esquina. E pulando. Miudinho. Atrás de uma cerveja gelada. Há sempre aquele um ou outro que se pode ver carregando o rebento no cocuruto. Vai saber o que esse aprontou. Cada família uma sentença. Com apostrofe. E regras gramaticais as mais diversas possíveis.

Voltemos, então, as crianças. Aquelas. Socadas em fantasias que brilham. Coçam. E pinicam. Arrastadas pelo salão entulhado e barulhento. Que deixam o rígido controle de higiene de suas casas, pra catar serpentina do chão melado. Se acabando em espuminha.

É, meus amores. O melhor de tudo isso é que um dia vocês crescem. E se vingam. Se forem meninos. Ou se juntam a folia. Se forem meninas.

Quanto a mim, preciso correr. Que amanhã é sábado. E vai ter bailinho de garagem na casa de uma chegada. Quem sabe dá até tempo para um trenzinho. Antes que a minha pequena comece, Mamãe, vamô imbora. Quero ir. Anda. Vamô. Manhêêêêê

E aí, vamos?

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Quarta-feira era puxado. Com ele operando em São Paulo, enquanto ela dava aulas na Baixada. A criançada ninguém nem via. O dia inteiro na escola. No integral. Os três. Duas de cinco e um de oito. Que a avó entregava bem tarde. Banho tomado. Barriga cheia e capotando. Só deitar e dormir.

Por isso ela estranhou a ligação. Bem no meio da tarde. E atendeu ao primeiro toque.

_Algum problema? – tratou logo de perguntar.

_Tá ocupada? – foi a resposta que obteve.

_Não. Minhas aulas foram transferidas. Devo dobrar amanhã. Por quê?

_Estou sem agenda – ele emendou _ Quanto tempo leva para descer?

Aquilo sim era novidade. De onde estaria ligando?

_E as cirurgias? – ela insistiu.

_Hoje? Nenhuma – e acrescentou, num tom pra lá de diferente _ E aí, vamos?

Será? E por que não?

_Mas as crianças… – tentou ponderar.

_ Esqueça as crianças. À noite a gente pega…

É. Na dúvida, melhor não desperdiçar

_Que bicho te mordeu? – quis saber, enquanto socava tudo na bolsa e preparava-se para sair.  

_No caminho te conto. Ande logo. Venha…

Se encontraram no carro. Em frente a saída principal.

_Estou daquele jeito – disse ele, baixando a voz.

_Quer saber? Eu também…

_Jura?

_Uhum…

A correria das festas. O vuco-vuco do final de ano. As crianças. A vida. A Síria derretendo. Ibovespa em alta e nenhum tempo no mundo para eles. Nunca.

Ela já sabia onde iam. E achou graça. Ele acelerou. E partiu. Primeiro passaram em casa. Pra pegar umas coisinhas e seguir viagem. Antes, ela deu um google. E veio a lista. Completa. Os melhores motéis da cidade. Com fotos. Hashtags e promoções.

Escolheram um. Confortável. Meio na sorte e bem no meio do caminho. Às dezessete e trinta e quatro de um tarde muito quente.

A suíte, bacanuda, até que combinava com dia. Totalmente fora do lugar comum. Com Piscina no quarto. Hidro. Cromoterapia. Pistinha. Teto solar e um milhão de canais eróticos, com sacanagem para todos os gostos e até dizer chega. É hoje, meu Deus. É hoje…

Ele afofou os travesseiros e ficou. Esperando. Por ela. Que veio na sequência. De gatinho. Até parar. Em frente ao maridão. Que sussurrou, mansinho _ Venha. Deite aqui…

_Assim?

_Não. Assim, não. Tire.

_E isso? Fica?

_Tire, também.

_Tem certeza? Quanto tempo temos?

_Preciso de quatro horas. No mínimo…

_Você tá que tá, hein? Melhor ligar para os meus pais…

_Faça isso.

Ela foi e voltou. Cara de quem vai fazer bobagem. E não vê a hora pra começar. Ele já tinha tudo ajeitado. Aí ficou fácil.

Foram encostando e desmontando. Quem dormiu primeiro, ninguém viu. Mas roncavam. E Alto. Acordaram na marra. Com o barulhinho chato do alarme do relógio dele.

_Quero mais – ele pediu, guloso.

_Jura? Cê dá conta?

_Opa! Como nos velhos tempos, lembra?

_ Ô…

_E aí? Aguenta? Então venha cá, minha gostosa…

 E enroscaram. De novo. Agora, com mais força. Bocas abertas e babando. Imersos num prazer inenarrável. Escandaloso. Por mais quatro horas ininterruptas. Pra sair desabalados porta afora. Cabelos molhados e cara de missão cumprida. Depois de duas. Seguidinhas. E sem sair de cima. Eita, delícia…