Corpinho de quinze

7 Comentários

Mulher é bicho besta. Amigo. Mas, besta. E louco por festa. Três parecem trinta. Oito ou dez e declaro abertos os trabalhos da sessão pública de comissão parlamentar de inquérito. Onde o que não tem remédio, vai na base da lanternagem, mesmo. Que jeito tem. E se tem, a gente dá. De espinhela caída à emissão de debêntures. Kosovo. Joseph Blatter. Físicos, diuréticos e diaristas, A propósito, tô sem ninguém de novo, viu? Que lá em casa não para uma. Affe…

Quem vê, pensa que nasceram assim. Grudadas. Todas juntas e num mesmo quintal.  Qual nada! Tem gente que trombou ainda outro dia. Mesmo assim os juntamentos funcionam. E as mil maravilhas. Como? Não faço a mínima ideia. Sei que que não demora muito e a gente aglutina. De vez em quando encaroça, não vou mentir pra vocês. Mas é seguir mexendo, até engrossar e dar o ponto. Fato é que acontece sempre. E pra mim basta. Pra você, não?

Porque frequentamos as mesmas lojas. Moramos perto. Na mesma rua. Torcemos pros mesmos time. Somos mães de meninas. De meninos. Amamos cachorros. Ou simplesmente calhamos de estar lado a lado numa fila entediante qualquer, até que uma diga, Oi…, e comente do tempo, do preço de morte do tomate cereja e tantas outras coisas que existem entre o céu, a terra e nossa vã filosofia…

Aí, já viu, né? Uma coisa puxa outra. E hora e meia mais tarde estamos abraçadas. Irmanadas para sempre. Falando mal dos homens, exaltando nossas crias e do quão bom seria entrar novamente num manequim trinta e oito. Ou quarenta e dois. Ou quarenta e quatro…

Sei que o mundo gira. E nada na história muda. Por isso estavam as moças reunidas ali. Ao longo de uma grande mesa disposta para um manjar.  Foi quando uma delas, após lamber os dedos recobertos em bom-bocado e açúcar cristal, não se conteve mais e avisou.

_Meninas, preciso emagrecer.

E a resposta veio, numa resistência inflexível.

_Você? Nunca! Eu que sim…

_Imagine. Estão lindas. Ótimas. Culpa minha que descuidei. Três quilos em três meses. Pode? – a tempo de atender quem lhe acenava de longe_ Mais um enroladinho de queijo? Claro, meu bem. Aproveite e experimente meu folhado de calabresa, ou não falo mais com você, hein!? Se bem que tua focaccia de alecrim com bacon um escândalo. no quarto pedaço e nem pensei em parar ainda… – passando o prato adiante _ De nada, florzinha. Tome. Pegue aqui. Pegue…

Ao que a outra agradeceu prontamente. Comeu disso e daquilo. Deu outro golão na coca e garantiu, ciente das próprias fraquezas.

_Dieta? Desisti, sabia? Num consigo e não tem jeito. Sobrei pra faca. Minha única solução.

_Bobagem. Que gordura tem memória. E a minha não me deixa – lembrou outra. Boca chapiscada em creme de limão.

_Larguem mão de moleza, suas frouxas, e simbora correr na praia – conclamou a mais saudável de todas, tratando de engolir às pressas um suntuoso naco de rocambole, antes de acrescentar_ Treino diariamente. Já tinha contado a vocês?

Nãoooo! , encantaram-se as moças. Que pediram detalhes. Hora. Onde. Quando. Cor do tênis. Como prender a franja pra que não fique batendo nos olhos. Depois voltaram a elogiar os brigadeiros majestosos da dona da casa.

Bem quando alguém puxou para si a responsabilidade daquela encrenca toda e arriscou.

_ decidida. Vou fazer regime. E ninguém me demove – limpando um pinguinho de glacê que lhe pontuava o queixo.

Mais zum-zum-zum. Até que deliberaram.

_Só se formos todas. Juntas.

A concordância foi plena. Absoluta. Acompanhadas dos usuais, É isso aí… Conte comigo… Alguém me passe a travessa de salgados fritos, fazendo um grande favor…

_Sei, não, meninas… Têm certeza? – todo grupo tem o São Tomé que merece.

Assentiram em coro. Afinal, amiga é pra essas coisas. E trocaram felicitações. Votos de, Dessa vez, vai… Com fé em Deus!… Corpinho de quinze, aí vamos nós…

E ficaram combinadas.

_Começamos quando?

_Segunda. bom pra vocês?

_Ótimo.

_Genial.

_Pode comer o quê?

_Nada. Com gelo. E duas colheres diárias de cereal.

Entreolharam-se.  Suplício é uma coisa. Com requintes de crueldade, já é um pouco demais. Resumo da ópera: melhor esquecer e tocar a vida.

_A propósito, onde será nosso próximo encontro?

_Pode ser aqui, mesmo, em casa, que já estou acostumada e tenho tanto prazer em receber…

_Eu topo. Trago o bolo de fubá e a cobertura de goiabada. Que tal?

_Show! Fico com as empanadas.

_E eu, com o escondidinho. Aprendi uma receita noiva: de picanha, com mandioca, quatro queijos e ovos. Refogado em banha. Uhummmm… – antes que se entreolhassem de novo, acudiu_ Muito leve, viu? Dissolve na boca que é uma beleza. Que porco é light, sabia? Menos calórico que peru. Uma benção…

_Se é assim, então, pode. Faça dois. Grandes. Que deve ser uma delícia…

_E põe delícia nisso, menina... Jesuisssss…

corpinho de quinze

O Festão

11 Comentários

_Alô? Seu Manoel?

_Sim?

_ Sei que é meio tarde pra ligar, mas é a Meggy, do cerimonial. O senhor pode falar?

_ Poder eu posso, mas acontece que…

_Ótimo. É o seguinte: estamos a menos de um mês do casamento da sua filha e são tantas as pendências que começamos a ficar preocupados.

_ O caso é que…

_O caso é que já perdemos vários dos melhores fornecedores. Se não agirmos logo, sua filha não terá nem bolo.  Já viu casamento sem bolo, seu Manoel?

Ele ainda tentou, em vão, se fazer ouvir. Queria avisar, dizer que aquela ligação toda não passava de um grande equívoco. Mas ela não deu chance. E ficou o Dito pelo Benedito. Com ele ali, ouvindo. Enquanto ela falava e falava e falava.

_Tem a questão da música, das bebidas, do cardápio. Tá tudo atrasado, seu Manoel!

Era a oportunidade que faltava. Poderia ter desligado. Mas preferiu entrar na dança, Ok, disse ele.

_ E não adianta protelar. Semana que vem é a… Que foi que o senhor disse?

_ Ok. Por onde quer começar?

Passada a surpresa inicial, ela retomou o ritmo e a ladainha _Que tal, pelo prosseco? Sei que concordamos nuns cortes, mas sem brinde não dá. Assim, desculpe se insisto, mas é que…

_ Faz sentido.

_Faz?

_Claro. Anote aí: Brut. Importado. Geladinho. E a noite toda.

_A noite toda? E o que faço com o vinho?

_Dobre _ rebateu, empolgado.

_Dobrar?

_ Acha pouco? Então, triplique. E o uísque?

_Que uísque?

_Aquele. Vinte anos. Puro malte. Com toques de caramelo e frutos secos.

_ Mas o senhor disse que…

_Não importa o que eu disse. Sirva. Sem dó, nem piedade.

_ Deixe comigo. Sobre o buffet de massas, o senhor quer…

_Buffet? De massas? Esqueça!

_Mas o senhor…

_Quantas filhas você disse que eu tenho?

_ Que eu saiba, só uma.

_ E você quer, que no casamento da minha única filha, meus amigos peguem fila pra comer gravatinha?

_ Bom, é que…

_Fora de cogitação. Anote aí: camarão pistola de entrada e medalhão de filet au poivre como prato principal. Ou melhor, tem vitela? Então, troque. Com purê de pupunha e risoto de trufa branca. Uhmmmmmmm!

Silêncio do outro lado. Foi quando ele inqueriu, Acabamos?

_ Não exatamente. Tem a música da festa pro senhor decidir…

– Essa é fácil: quero banda. Sei lá. Pensei no Jota Quest. Com show de mulatas e repique de escola de samba ao final!

Novo e absoluto silêncio. Será que exagerei?, ponderou ele. Talvez um pouquinho. Mas o que não se faz pelos filhos. Mesmo que sejam dos outros. Foi quando lembrou do pagamento.

_Como o senhor já deu uma entradinha, posso até pra faturar o restante em trinta dias.

_ Vinte tá de bom tamanho. Odeio ficar devendo – para acrescentar em seguida_ E os convites?

_ Tudo certo. Vão pra gráfica essa semana.

_Dá pra acrescentar mais unzinho? Sr. M. C. Pacheco e família. Rua Toneleiros, 45 A. Copacabana. Rio de Janeiro. O CEP eu não sei. Agora, dê sossego, sim? E pare de ligar.

_ Quanto a isso, pode ficar despreocupado. O senhor ajudou demais. Qualquer coisa é só…

_Tá. Tá. Tá. Fique com Deus, minha filha _ desligaram, mas ele continuou ali. Quietinho. Matutando ao lado do aparelho.

_Manoel? Quem era? _ a voz veio da cozinha.

_ Engano. Mas diz uma coisa, ainda tem aquele seu vestido longo preto?

Ela apontou no corredor. Tenho, sim. Por quê? , perguntou curiosa.

_Melhor ver se serve. Algo me diz que seremos convidados prum festão – e completou, na maior cara de pau_ Se tem algo que não faço é desfeita, viu? Eu, hein. Longe de mim…

O festão