Brasilianadas

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Oi, seu gringo!

Está chegando o grande dia, né? Eu? Prontíssima! Os aeroportos é que não. Nem a infraestrutura no entorno dos estádios. É um ajuste aqui, um telão que falta ali, e meia dúzia de cadeiras pra instalar acolá.  Mas de resto, botei água no feijão e roupa de missa. Então, se é um desses que ainda não desistiu, venha!

Mas venha com fé. Em paz e com a carteirinha de vacinação em dia, por favor. Como disse o grande filósofo (ou foi um mc funkeiro qualquer, eu agora não me lembro), cada um no seu quadrado. Ou, pondo em miúdos, fique com sua vaca louca pra lá, que mantenho minha febre tifoide pra cá. Só não esqueça as figurinhas, que o álbum eu já comprei. O que não comprei ainda, foi essa história toda de copa. Mas passa, viu? E a gente engole. Depois torce. Que o coração é brasileiro, tadinho. Desses que adoram samba e sofrem com a situação do jeito que está.

Ah! Traga capote, que em junho chove. Sempre. A cântaros, ou privadas. Fenômeno que nossa rede de estações meteorológicas tem ainda certa dificuldade em prever, já que o evento parece interligado a áreas restritas do Recife. Mais especificamente nas cercanias do Estádio do Arruda.  Vai à Arena Pernambuco? Tudo bem. Fica longe. Mas prefira áreas cobertas. Na dúvida, já sabe: um olho no jogo, outro no céu. E adquirindo hoje, mesmo, seus ingressos, você leva para casa um lindo par de capacetes. E ainda recebe a novíssima Guinsu Fifa 2014. Suas lâminas com duplo serrilhado cortam balas, pregos e descascam fios elétricos, além de enfrentar torcedores de uniformizada com precisão e habilidade. Se quiser usar cartão de crédito, basta fornecer o número. O boleto é falso, isso você já sabe. Não perca mais tempo. Oferta limitada, enquanto durarem os estoques dos cambistas.

Vai pra São Paulo? Rio? Com a falta d’água, aqui o problema é outro. Numa estiagem da moléstia. Mas não ficamos atrás quando o assunto é emoção. Procurando adrenalina? Veio ao lugar certo! Sua família vai tremer da cabeça aos pés. Temos arrastões de todos os tamanhos. E nem precisa fastpass. Mas não se preocupe, que só atiram em quem reage. Outra coisa, antes de sair de casa, não custa nada uma sapiada na net. Só pra garantir. Vai que acordou com cara de bandido procurado, justo hoje! Culpa sua, tanta gente de bem pra se parecer… Que somos hospitaleiros, você sabe e todo o mundo, também. O que não temos é segurança. E cansados de tanto apanhar, um belo dia, começamos, também, a bater. Se for de carro, atropelamos. Se for na mão, o linchamento é quase certo. Perdeu? Não deu nem para dizer, Benfeito? Esquenta, não. Mais tarde eles passam na TV. Facebook. Whatsapp. Enfim…

Hein? Será que dava pra falar mais devagar? É que meu inglês não anda lá essas coisas. Mas soube de umas putas que até falam direitinho. Com curso pago e todo o mais. Onde aprenderam a dizer o quanto cobram e as diferenças básicas entre o kiss e o fuck. E que o primeiro é barato. Negócio de mãe pra filho. Já o segundo é velho conhecido da casa. E acomete a todo trabalhador honesto brasileiro. Mas esse é much. Much more expensive.

E desculpe se encerro o papo assim, na correria. É que com tanto feriado encavalando em dia santo, anda meio difícil para o ano engrenar. Experimente juntar copa, carnaval, natal e eleição, para ver o que é que sobra. Abandono de emprego institucionalizado subscreve justa causa? Vai saber…Perdeu foi a graça. Ouvi contar de sindicato articulando greve nas férias, só pra manter o costume. E tem ainda os dias de licença, que esses são clássicos. Ou hemorrágicos. Com doença pra escolher e repetir, já que mosquito a gente tem de sobra. O que falta é tempo, médico e hospital. Então, se me dá licença, vou correr, que hoje é dia útil. Pena que é meio expediente. É… Ordens do PCC. Medo? Eu? Imagine. Eles só depredam ônibus e quase sempre dá tempo de descer. Mas com carro blindado eles não mexem. Por falar nisso, onde está o seu? Ah… Não tem, não, né? Sei… Acreditou no BRT, foi? Xi…Imagem

Tá danado!

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Era ela ao telefone. Sua voz mais aguda que o usual.

_Nando, sou eu…

_Leneir, tem noção que é a terceira vez que você liga?

Deu de ombros e seguiu. Mais dramática que nunca.

_Lembra da secura na boca? Pois é. Desceu…

_Desceu pra onde, mulher?

_Pro peito. Começou com um estufamento, sabe? Depois veio a arritmia, o suor frio e a vontade de chorar…

O marido suspirou. Desacorçoado. Se essa era a Leneir, o que é que se podia fazer?

_Tô sentindo, Nando. É infarto. Só pode ser. No duro…

_Sossegue, mulher. É o quinto, nessa semana – e implorou _ Preciso que me deixe trabalhar. Um tiquinhozinho que seja. Por favor…

_Pronto! Travou meu diafragma! E se foi um aneurisma da aorta que rompeu?

Bufou. Injuriado. Que era um amor de mulher, ninguém discordava. Mas dentre todas as esquisitices possíveis, tinha que sofrer justo dessa?

_Não tenho mania de doença coisíssima nenhuma! – defendeu-se a moça.

_Ah, não? E quem é que sempre está doente?

_Eu? Nunca!

_E a apendicite em Portugal?

_Supurou, lembra? E eu que quase acreditei em AVC…

_Era nossa lua de mel, Leneir…

_Amei o quarto do hospital.  Por quê? Você, não?

_E o episódio na Espanha?

_Agapilori. Mas esse não conta, que nem é doença…

_Não? Tá. E o herpes zóster?

_Genético. Reclame com a minha mãe.

_Seu ovário?

_Não mexa com meus folículos…

_Ai. Ai. Ai…

Se sossegou, foi bem pouco. Voltando a carga com tudo.

Do outro lado, homens falando alto e uma sirene ininterrupta.

_Leneir? Leneir? O que é que está havendo aí?

_Nada, não, benzinho! É só a polícia. O pessoal do Batalhão de Operações Especiais. Sabia que o tenente- coronel Marins participou da pacificação na Rocinha?

_Rocinha?

_Pois é. Liguei primeiro pro Samu. Já que ninguém veio…

Voltou-se aos rapazes na antessala_ Gostaram do café? Que bom! Eu? Bem melhor. Mesmo! Voltem sempre, viu?

Tenente-Coronel Marins? Aí já era muito. Até para a Leneir.

Seu telefone voltou a tocar.

_Nando?

_Fale, Leneir…

_Sabe aquela pontada que começou nos quadris? Pois é. Irradiou…

_LENEIR!

Foi assim até ele chegar.

A noite, se teve algo, foi fogo. Mas desse mal não tem quem morra. Coisa que ele sabia muito bem como tratar.

No final de semana, quem caiu de cama foi ele. Trinta e nove graus e pipocando. Tremendo até a raiz dos dentes. Sem ter o que ajeitasse.

Mesmo assim, foi ter com a sogra, e com a parentada toda, que farreava na piscina.

Dessa vez ficou à sombra. Fungando e assoando. Com ela ao lado. Montada no próprio bico, enquanto reclamava a quem passasse perto.

_ Pode isso? Uma gripinha à toa e quase morre. Culpa minha, sabia? Que dou corda as manhas dele – e deu seu veredicto. Categórica _ Molengão! Ah, se fosse comigo…