Projeto Verão:

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Trombaram os dois num calçadão de praia. Quando ele comentou.

_Nossa, menina. Mal te reconheci. Assim: tão magrinha…

_Pra você ver: perdi mais de vinte quilos. Incrível, não?

_Qual o segredo? Aposto que está passando fome.

A outra, envaidecida, aprumou-se toda pra responder.

_Até que não, viu?

_Jura?

_Juro. Como de tudo.

_Até bolo?

_Bom. Bolo, não. Que tem açúcar. E sacarose não pode. Muito menos, farinha. Ou batata. Se bem que cenoura, também, não. Nem carne. Fruta. Verdura. E nada de queijos. Ovos, então…

_E está vivendo de quê, mulher de Deus? – questionou ele, visivelmente preocupado.

_Inalação. Três vezes por dia. Às vezes quatro. Ou cinco. Dependendo do apetite – e acrescentou_ Mas a barriga chapada. Olhe só que beleza…

Jeitosa de corpo até estava, mas verdade seja dita, ele não tinha interesse nenhum em prolongar aquela conversa. Sendo assim, apressou-se em comentar.

_De resto, tudo bem, né? Mande um abração pro Zé e…

_Zé? A gente separou.

_Puxa! Que pena…

_Pena, nada. Marido engorda.

Ele protestou.

_Mas que absurdo…

_Absurdo, uma ova! Fora os almoços disso e os jantares daquilo, tinha ainda que comparecer aos lanchões de fim de tarde na casa da sogra.  Sem falar nas toneladas de filme com sorvete e fornadas e mais fornadas de seriado com bolinho, pipoca, pizza e o diabo a quatro. Por pelo menos quatro temporadas. Com, no mínimo, vinte episódios cada uma – e continuou_ Presente? Chocolate. Viagem? Era só escolher entre a parrilhada argentina, a paelha valenciana e o nacho mexicano– pra completar, roendo as unhas _Basta olhar em volta. Casou e pronto. Danou-se a silhueta. Por falar nisso, viu minha última postagem fazendo abdominal supra com carga? Curte lá. É show…

Temendo que ela esticasse ainda mais a lenga-lenga, ele apelou.

_É como dizem por aí: foco no trabalho e bola pra frente, certo?

_Que trabalho? Fui despedida – pousando a mão sobre o ombro do amigo_ Sabe como é: muito choro dia e noite, ansiedade, depressão. Mas meu bíceps trincado que é uma doideira. Quer pegar? Fique à vontade. Se acanhe, não…

Mas ele já se despedia.

_Bom te ver, viu? Beije as crianças por mim…

_Crianças? Perdi a guarda. Transtorno esquizoide – e pontuou, exultante _Mas tô batendo fácil trezentas flexões e com uma das mãos nas costas.  Duvida? Pois vou mostrar. Imagine, faço questão!  Agora, conte comigo: é uma, é  duas, é  três, é  quatro, é  cinco, é…

projeto verão

Corpinho de quinze

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Mulher é bicho besta. Amigo. Mas, besta. E louco por festa. Três parecem trinta. Oito ou dez e declaro abertos os trabalhos da sessão pública de comissão parlamentar de inquérito. Onde o que não tem remédio, vai na base da lanternagem, mesmo. Que jeito tem. E se tem, a gente dá. De espinhela caída à emissão de debêntures. Kosovo. Joseph Blatter. Físicos, diuréticos e diaristas, A propósito, tô sem ninguém de novo, viu? Que lá em casa não para uma. Affe…

Quem vê, pensa que nasceram assim. Grudadas. Todas juntas e num mesmo quintal.  Qual nada! Tem gente que trombou ainda outro dia. Mesmo assim os juntamentos funcionam. E as mil maravilhas. Como? Não faço a mínima ideia. Sei que que não demora muito e a gente aglutina. De vez em quando encaroça, não vou mentir pra vocês. Mas é seguir mexendo, até engrossar e dar o ponto. Fato é que acontece sempre. E pra mim basta. Pra você, não?

Porque frequentamos as mesmas lojas. Moramos perto. Na mesma rua. Torcemos pros mesmos time. Somos mães de meninas. De meninos. Amamos cachorros. Ou simplesmente calhamos de estar lado a lado numa fila entediante qualquer, até que uma diga, Oi…, e comente do tempo, do preço de morte do tomate cereja e tantas outras coisas que existem entre o céu, a terra e nossa vã filosofia…

Aí, já viu, né? Uma coisa puxa outra. E hora e meia mais tarde estamos abraçadas. Irmanadas para sempre. Falando mal dos homens, exaltando nossas crias e do quão bom seria entrar novamente num manequim trinta e oito. Ou quarenta e dois. Ou quarenta e quatro…

Sei que o mundo gira. E nada na história muda. Por isso estavam as moças reunidas ali. Ao longo de uma grande mesa disposta para um manjar.  Foi quando uma delas, após lamber os dedos recobertos em bom-bocado e açúcar cristal, não se conteve mais e avisou.

_Meninas, preciso emagrecer.

E a resposta veio, numa resistência inflexível.

_Você? Nunca! Eu que sim…

_Imagine. Estão lindas. Ótimas. Culpa minha que descuidei. Três quilos em três meses. Pode? – a tempo de atender quem lhe acenava de longe_ Mais um enroladinho de queijo? Claro, meu bem. Aproveite e experimente meu folhado de calabresa, ou não falo mais com você, hein!? Se bem que tua focaccia de alecrim com bacon um escândalo. no quarto pedaço e nem pensei em parar ainda… – passando o prato adiante _ De nada, florzinha. Tome. Pegue aqui. Pegue…

Ao que a outra agradeceu prontamente. Comeu disso e daquilo. Deu outro golão na coca e garantiu, ciente das próprias fraquezas.

_Dieta? Desisti, sabia? Num consigo e não tem jeito. Sobrei pra faca. Minha única solução.

_Bobagem. Que gordura tem memória. E a minha não me deixa – lembrou outra. Boca chapiscada em creme de limão.

_Larguem mão de moleza, suas frouxas, e simbora correr na praia – conclamou a mais saudável de todas, tratando de engolir às pressas um suntuoso naco de rocambole, antes de acrescentar_ Treino diariamente. Já tinha contado a vocês?

Nãoooo! , encantaram-se as moças. Que pediram detalhes. Hora. Onde. Quando. Cor do tênis. Como prender a franja pra que não fique batendo nos olhos. Depois voltaram a elogiar os brigadeiros majestosos da dona da casa.

Bem quando alguém puxou para si a responsabilidade daquela encrenca toda e arriscou.

_ decidida. Vou fazer regime. E ninguém me demove – limpando um pinguinho de glacê que lhe pontuava o queixo.

Mais zum-zum-zum. Até que deliberaram.

_Só se formos todas. Juntas.

A concordância foi plena. Absoluta. Acompanhadas dos usuais, É isso aí… Conte comigo… Alguém me passe a travessa de salgados fritos, fazendo um grande favor…

_Sei, não, meninas… Têm certeza? – todo grupo tem o São Tomé que merece.

Assentiram em coro. Afinal, amiga é pra essas coisas. E trocaram felicitações. Votos de, Dessa vez, vai… Com fé em Deus!… Corpinho de quinze, aí vamos nós…

E ficaram combinadas.

_Começamos quando?

_Segunda. bom pra vocês?

_Ótimo.

_Genial.

_Pode comer o quê?

_Nada. Com gelo. E duas colheres diárias de cereal.

Entreolharam-se.  Suplício é uma coisa. Com requintes de crueldade, já é um pouco demais. Resumo da ópera: melhor esquecer e tocar a vida.

_A propósito, onde será nosso próximo encontro?

_Pode ser aqui, mesmo, em casa, que já estou acostumada e tenho tanto prazer em receber…

_Eu topo. Trago o bolo de fubá e a cobertura de goiabada. Que tal?

_Show! Fico com as empanadas.

_E eu, com o escondidinho. Aprendi uma receita noiva: de picanha, com mandioca, quatro queijos e ovos. Refogado em banha. Uhummmm… – antes que se entreolhassem de novo, acudiu_ Muito leve, viu? Dissolve na boca que é uma beleza. Que porco é light, sabia? Menos calórico que peru. Uma benção…

_Se é assim, então, pode. Faça dois. Grandes. Que deve ser uma delícia…

_E põe delícia nisso, menina... Jesuisssss…

corpinho de quinze

Dieta do Biquíni

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Julia seguia firme. Derretendo. Contando os minutos e as calorias que a separavam de mais uma sexta-feira quente. 

Mas Deus que é pai e fez o sol, fez também a praia. E ela não deixaria por menos. É. A Júlia era assim. O cão chupando manga. E quando encasquetava. Sai de baixo.

Em se tratando de verão, tudo pesa. Desarranja. Ou, o que é pior, engorda. E bastou somar biquíni, calorão e culote, pra vaca ir de vez pro brejo. Imensa. Redonda. E saliente à beça. Pneu tala larga e pochete neoprene. Cruzes!

E pensam que ela entregou? Quem, a Julia? De jeito nenhum! Passou incólume pelas mais diversas provações. Seu segredo? Foco. E um espelho de corpo inteiro. Mais uma foto dessas que não favorecem, tirada de baixo para cima, presa a sua geladeira.

Mas, como dizem por aí, tudo vale a pena se a fome não é pequena. E lá foi ela. Faminta e linda. Bucho roncando a caminho do mar.

Ah, o mar…  Era só esquecer da vida e deixar o couro fritar. De frente. De lado e de costas. Virando pururuca light. Daquelas bem sequinhas. Que desmancham na boca. Hummm

Foi fechar os olhos pra festa começar, Queiiiiiiiijo de coalho. Olha o queijiiiiiiiinho na brasa

Aquilo soou como música ao seu estômago. Afinal, não tem óleo. E o queijo é branco. Assim, numa alegria crescente, pediu logo dois. Um pra cada mão.  E comeu. Tudinho. Numa bocada master. Até lamber os dedos. Pensando que foi pouco. Mas melhor que nada. Enfim…

Tornou a deitar e a ouvir. Um clamor novo. Do milho debulhado e servido num pratinho. E opção saudável ninguém discute. Come-se e pronto.

Na sequência veio o moço do sanduíche natural. A cesta de empadinha, assada e com pouquississíssima gordura trans. O carrinho de raspadinha. Que é só gelo e fruta. A batida de Maracujá. Que tinha só um dedinho de nada de leite condensado. O sacolé que ardia de doce, mas o moço jurou que era culpa do morango. Maduro-madurinho. Uns dez pacotes de biscoito de polvilho. Afinal, polvilho é quase vento. E não tem glúten. Por isso não engorda. E o mate com limão. O picolé de coco queimado. O acarajé quente da baiana (que não era baiana, nem aqui, nem na China). E o afamado espetinho de camarão pistola. Tudo natural e levinho. Que nem manda a etiqueta. Extra-GGG-Plus, no caso.

E o sol fez sua curva, iniciando o final dos trabalhos. Hora de chacoalhar a esteira e bater em retirada. Não sem antes emendar numa esticadinha. Convocando os mais chegados para um dedo de prosa furada, num botecão de esquina. Como era mesmo o nome daquele lugar?  Aquele, gente, rei do pastel de carne seca e do bolinho de bacalhau…

Mas antes que alguém pudesse concordar, ouviu-se o brado retumbante. Era a Júlia, dando o alarme, Nem pensar! Tô de regime, esqueceram? Fritura só quando invernar. Eu, hein? Depois ficam reclamando que a roupa não entra. Tem que ser assim, que nem eu, que digo que não como e não como e pronto!”

É. Tá certo. Bom é ter amiga assim. Firme. Forte. Que não deixa a gente titubear. E a Júlia era assim. O cão chupando manga. Mas quando encasquetava…