Putz

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Homem apaixonado é enguiço. Pode nem tocar, que desmancham por inteiro.

Aconteceu com ele. Atolado em amor até as canelas e ansiando por mais. Não conseguia sequer pensar no diacho da moçoila sem que o corpo inteiro contraísse ou seu estômago revirasse. De certo só o futuro que se abria a sua frente: ao lado dos filhos, netos e uma familiarada sem fim.

Faltou combinar com a moça. Claro. Mas isso era fácil corrigir. Tinha até um plano. Que começou mais ou menos assim:

Primeiro, a abordagem direta. Um fiasco, diga-se de passagem. Já que a bela foi e voltou uma centena de vezes. E ele, nada. Emperrado. Ali. Sem lhe endereçar um minguado Oi que fosse.

Então, ligou. E desligou. E ligou de novo. E desligou mais uma vez. Tanto que desistiu. Ok, pensou ele, Um SMS seria melhor, e começou a digitar. Travando logo na primeira linha. Afinal, como se dirigir adequadamente a sua futura esposa? Prezada Fulana, Querida Fulana, ou apenas, Fulana?

Pensou, pensou e na dúvida resolveu dividir seu dilema com um amigo. A quem perguntou.

_Se tivesse uma namorada e decidisse escrever para ela, como você…

_Impossível.

_Hein?

_Caso tenha se esquecido, não me interesso por garotas. E não tenho nenhum problema com minhas opções sexuais, sendo assim gostaria que as respeitasse também.

_Sei disso.

_Se sabe, por que pergunta?

Respirou fundo e tentou novamente, Mas se você, de mentirinha, pensasse em sair com uma garota…

_Credo!

_De mentirinha…

_Nem assim.

_Mas..

_Não.

_E se…

_Nunca.

Desesperou, E o meu recado?

_Não mande – pra emendar na sequência_ Quer conhecer um dos meus amigos? Apresento a você.

_Não, obrigado. Prefiro ela.

_Nesse caso, não posso ajudar.

_E faço o quê?

_Sei lá. Foque em algo mais útil – mudando drasticamente o rumo daquela conversa_ Já pensou em trabalhar? De vez em quando é bom, sabia?

_Perdi o emprego. País em crise, esqueceu? – devolveu mal-humorado

_Pois arrume outro. Dê seus pulos, que mulher nenhuma gosta dum cidadão encostado – pior de tudo é que tinha razão.

E foi o que fez. Iniciando pelo currículo e engatando numa carta de apresentação. Mas acabou travando. Logo na primeira linha. Afinal, como se dirigir adequadamente ao seu futuro empregador? Prezado Fulano, Querido Fulano, ou apenas… Fulano?

Putz

Pão de Banha

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Acuados. Completamente. Sem ter onde se apegar. É a primeira vez que uma mulher, à frente do departamento de projetos, fecha um contrato desse tamanho. Falta pouco. Questão de jeito. E arrocho. O segredo: não dar brecha. Nem tempo pros gringos se recuperarem.

É isso. Um embate histórico: só eu e o sucesso.

Bom. Eu. O sucesso. E o cabeção de um estagiário, doido o suficiente para interromper o meeting do século, e avisar _ Seu celular…

Sinto a veia pulsando sob os olhos _ Não falei que…

_Seu marido. Vida ou morte…

Penso nas crianças. Na escola sitiada. Atiradores de elite pendurados em árvores, enquanto caças da FAB rastreiam o perímetro _ Oi?

Dou outro lado, nenhuma sirene. Nem sinal dos cães farejadores_ Tô aqui, no mercado, e como não entendi os garranchos da Neca, resolvi te ligar. Biscoito de chocolate du-ci, que raios poderia ser du-ci?

_Doce – quase grito. Quase morro. Quase engulo o celular (e a cabeça do estagiário. Tudo junto).

_Ah, tá! Faz todo o sentido. BISCOITO DE CHOCOLATE DOCE! Mais uma coisinha: quadrado ou redondo?

Ai.Ai.Ai! Começo a derreter. Eu. O negócio de milhões. E a sala. Num saco só. Como arte de Dali.

Ele segue, animado _ Tem redondo, quadrado e com cara de bichinho. Qual cê acha?

_Quadrado – os gringos se aproveitam da parada providencial pra confabular.

_É que está escrito, aqui, ó: BISCOITO DE CHOCOLATE DOCE TRAQUINAS, e BISCOITO DE CHOCOLATE DOCE TRAQUINAS só tem REDONDO! Tudo bem?

O chefe dos gringos consulta o relógio. Pela segunda vez _ Tchau. Preciso muito…

_Eu! Eu! Eu! Tudo é você nessa vida? Nananinanão, mocinha! E eu? E as crianças? – é. Ferrou-se. Marido desempregado é osso. Com enxerto de titânio. E rebite duplo na carenagem superior.

Desligo. Celular e estagiário fora da sala e de alcance. Assim como a proposta milionária. Mas, perdido por perdido, emendo um novo round, logo depois do almoço.

Preciso de um fato novo. Um gancho. Um milagre. Então, foco. Compenetradíssima. Até que o marido volta a incorporar_ Tô montando o lanche da Clara. Como é que faz?

Respondo. Virada no capeta _ A Neca faz!

_Esqueça a Neca! Eu faço! – pra completar, na sequência __ Só não sei como. Ensina?

Virgem santa da aorta dilatada!  É hoje que eu enfarto... E tentei. Novamente _ A Neca…

_A Neca troca a roupa. A Neca põe na cama. A Neca leva e traz da escola. Que mais a Neca faz? Conhece os sogros e circuncisa os netos? Não mesmo, viu, madame? Que a Clara, se não tem mãe, tem pai! E esse aqui, vai fazer o lanche hoje!

Tem horas que nada adianta.  Então, toco. Que nem doida. Pra cruzar meia São Paulo num tapa. Assassinar um marido. E voltar. A tempo de não ser descoberta. Nem despedida.

Em casa, o cenário é de ópera. Bufa! A começar pela Neca. Contrariada. Batendo boca e vassoura (coitadinhos dos meus rodapés) _ Olhe bem, Dona Plumba, com seu Vincenti em casa num dá!  Mas, num dá, Mesmo!  – e eu não sei, Neca? E eu não sei?

A outra continuou _ Retemperô meu frango, Dona Plumba! Pode isso? Disse que fartava estragão e cumilho! Estragão tá é o faro do seu Vincenti… – e sai. Reclamando. Escada acima.

Na cozinha, uma Clara quietinha. Mãozinhas lotadas de sacolas de mercado e tranqueiras.

_Cadê a lancheira? – perguntei.

­_Precisa? – ele respondeu

O melhor guardou pro fim. No conteúdo dos pacotes. Quer saber? Jura? Lá vai: amendoim picante, provolone chips e anéis de cebola. Mencionei a garrafa pet de litro e meio de Coca? Pois é…

Métodos efetivos de morte lenta. Elencados um a um. Mas, devido ao pouco tempo que sobra, prefiro centrar no essencial. No caso, a lancheira. Da Rapunzel. Que ainda aguarda por algum recheio substancioso e livre de gordura trans.

_A bisnaguinha e o requeijão, cadê? – palma estendida e nenhuma paciência.

_Que bisnaguinha? Que requeijão?

_Você não comprou?

_ Por que não disse que ela estava de castigo?

_Não é castigo. É alimentação saudável.

_Dá no mesmo, não dá?  – e pra piorar _ Tem pão de banha. Serve? Recheie com sardela…

Desisti. O que veio na sequência, conto mais tarde. Assim que acabar de despachar uns currículos. Dele. É claro! Ah! Incluí você na lista. Salário e benefícios? Desapegamos desses luxos. Do jeito que a coisa anda, o que vier primeiro, atende! Marketing. Produção. Topografia. Adestramento de animais. Transporte ilegal de armas. Bingo. Portaria de muquifo. Enfim…

Propostas envolvendo plataformas petrolíferas, ou salinas insalubres e distantes, também são aceitas. E avaliadas com carinho, viu?