O Rega-bofe

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Só pode ser castigo! Não bastasse a dor de cabeça lancinante, tenho ainda pela frente quatro longas horas dirigindo. Rumo a mais um mega casamento mico. Com a trupe toda a tiracolo: vovó Estefânia, tia Fefa e minha irmã, Lurdinha, acompanhada pelos pentelhos mais novos.

Quarenta minutos só para assentar o pessoal no carro. Finalmente a estrada. Só mesmo a Teca, prima hippie-chic, com fama de lesada, para casar em Ilha Bela em plena alta e escaldante temporada. Quando nada ajuda. Trânsito caótico. Calor infernal. Insetos insaciáveis. E eu. Que só queria lembrar melhor das curvas da Ritinha. Ah, Ritinha…

Agora, me diga: de que adianta ter vivido a maior noitada de uma vida, se não lembro quase nada dela pra contar? Tanto esforço. Tanto conversa mole. Quando finalmente rola, nem sei se estava mesmo presente. Culpa do Ivo. E suas saideiras sem fim. Cê me paga, Ivo! Vai ver só…

Hora e meia de viagem e a tia Fefa ronca alto. Em uníssono. Uma motosserra desgranhenta e irritante. Devastando o resto de paciência que trago comigo. Aproveito uma curva mais fechada e jogo de solavanco o carro para a direita. Titia resvala. Testa respaldada na janela. Mas a sinfonia continua. É. Tudo leva a crer que essa não será uma viagem das mais divertidas.

Espere aí: algo curioso prende minha atenção. E, pernas. Enganchando, de tal maneira em meus sapatos, que fica difícil acelerar, reduzir, ou frear. Nenhuma ideia do que seja aquilo. Mas, tudo bem. Investigo melhor assim que cessarem as reclamações quanto a minha forma pouco ortodoxa de dirigir.

Sigo chutando e coiceando. Com o carro pulando junto. Até a coisa desapegar. Sair voando. E ricochetear descontrolada. Pra pousar petulante, no colo morno de tia Fefa. Que resmunga. Funga e bufa. Só não acorda. Empurrando o trapinho longe. Meio pro meu lado.

Agora é questão de jeito. Mais algumas jogadas para cá e para lá e a coisa desconhecida se revela. Tem que! E assim vamos. Gingando e desdobrando. Gingando e… Travei!

Que raios uma calçolona creme, extra-GG-plus-size-all-you-can-eat, está fazendo dentro do meu carro? Sinal que eu não era o único fora de controle naquele fatídico ontem à noite.

Mas como? A final, é da Ritinha que estamos falando! Mas… E se a Ritinha, no final das contas, não fosse lá tão filé assim? Nem tão sexy, ou performática, como insistia em fazer acreditar? E se fossem as sombras? A propaganda exagerada e distorcida? A vontade indescritível de catar uma outra, que não fosse a minha, velha de casa e de guerra? Ou o uísque (que só podia estar bento. De terreiro. E pai de santo gozador)?

Calma! Uma coisa de cada vez. Primeiro, me livrar do caleçon! E rápido. Antes que percebam.  

Com a estrada parada, o jeito é apelar: insisto pelo acostamento. Costurando. Pinoteando que nem garrote assustado. Alguém, no banco de trás, improvisa um saquinho de indisposição, enquanto aguardam as máscaras de oxigênio, que custam a cair automaticamente _Ô, doido!  Preste atenção, criatura! Não sabe dirigir, não? Ô, Lurdinha, assuma esse volante! Misericórdia… – mas os meio justificam os fins. Com a danada da calçola, agora, em minhas mãos. Finalmente! É hora de parar no posto. A parentada toda desce. Mulheres de um lado e eu para o outro.

Lixeira aberta. Mas, na hora h, hesito. Lembro da Ritinha. Que nem era tão “inha” assim, mas fez bonito. E tornou memoráveis as parcas memórias que tenho do banco traseiro de meu Passat.  Olho pros lados: ninguém por perto. Experimento um beijinho. E uma cheiradinha básica na preciosidade. O tecido é fino e gelado. Bom até de sentir. Aperto o amuleto de encontro ao peito. E fim. Fim da Ritinha e do trapo velho. Ambos desovados numa lixeira qualquer de canto estrada. E caminho da roça. Mais que prontamente.

Estamos a dez minutos do hotel e a cerimônia já vai longe. Culpa minha. Tudo, sempre, culpa minha… Tia Fefa é a mais animada do grupo. Retoca a maquiagem. Ajeita o arranjo nas madeixas. Hora de descer e curtir o rega-bofe. Vovó Estefânia emperra.

_Ande, vó! Desça! – reclamam todos.

_Assim é que não vou! Quedê minha calcinha?

_Que calcinha?

_A que devia estar usando! E não estou!

O suor escorre, irrigando meu peito _ Tem certeza que veio com ela?

A velhinha me cata o colarinho _Você usa cuecas? – aceno, apavorado. Ela continua, sem mover músculo que seja _ E eu, calcinhas. E quero a minha de volta.  Essa é de festa. De estimação. Uso e guardo. Sem lavar, que não precisa.

Sinto um nó, comprido e apertado, embolando o baixo ventre. Lembro da lixeira e quero morrer. Ou me matar.

_Tirou pra quê? – é a tia Fefa, ao resgate.

_Calor – responde a velha.

_Credo! Calor bobo esse…

_A perereca é minha! Então não se meta – responde a malcriada.

_Manhê, a vovó não tem é um cachorro? – só agora lembram das crianças. Dois pivetes, que comemoram animados, a descoberta do novo bichinho da vovó.

_Ai… – lá se vai minha irmã. Arrastando os porqueiras para longe _ Depois eu explico. Depois eu explico…

_ Vão. Podem ir – diz a vovó. E virando-se em minha direção _ Você, não. Você fica. Pra ajudar a procurar. Só Mais um pouco. E… Fefa, peça pra montar um pratinho. Minha azia, meu bem. Tá terrível… Ah! E traz um vinho, também. Coisa pouca. Um cálice. Cheio e tinto. Sabe como é, né? Gostar, nem gosto. Mas essa minha pressão…