Suplente de Esposa

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Sabe aqueles dias que você não está nem um pouco a fim? Então. Era ela. Um filho em semana de prova e outro de cama, vomitando a casa inteira.

Pra piorar, ele. Sinuoso e sibilando. Pleiteando o que lhe era de direito. E não sossegava. Queria porque queria. Ai dela se não valorizasse a preferência.

_Busco na rua onde tenho aos montes – ameaçava _ Depois não diga que não avisei – pra fechar com chave de ouro_ É bem como dizem por aí. Quem tem uma, não tem nenhuma. Quer saber do que mais? Vou atrás de uma reserva. Uma suplente. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus…

_Aposto uma perna que não acha nada melhor – manifestou-se ela, a titular na ocasião.

_ Cê que pensa – retrucou o topetudo _ Sabe a Anne?

_Que Anne?

_Aquela. Bonitona. Mãe de um moleque da rua. Cê abra o olho com ela – não satisfeito, prosseguiu enumerando _Tem a Mikio, também. A mestiça fabulosa do clube de campo. É estalar um dedo e pronto. Vem correndo aqui pro papai…

Anne? Mikio?,  pensou, pensou e nada. Mas lembrou da Verinha. E ficou fácil. Foi passando a mão no telefone e discando.

O outro ria, Vera? Que Vera? Tá doida?  Dessa nem eu estou sabendo…

_A noiva do teu primo. Quem mais?

_Hein?

_Acompanhe comigo: nem bonita, nem feia. Além do que é discretíssima. E fica tudo em família. Muito mais negócio, oras bolas…

Só sei que ele murchou, assim que alguém do outro lado da linha atendeu.

_Vera? Sou eu, querida…

Desligue isso, sua desregulada, pediu ele, em cólicas, ciscando aflito entorno dela.

Desregulada, não. Cansada. Assoberbada. Atolada. Descabelada. Tudo. Menos, desregulada. E continuou. No maior papo. Até chegar onde queria.

_Então, colega. Acontece que estou precisando de uma mãozinha com o Ocimar. Será que rola?

E seguiu, colando isso naquilo, numa matraquisse sem tamanho. Insistindo na proposta descabeçada, como se tratasse de uma grande ajuda humanitária.

_Afinal, que culpa tem o coitado se as crianças consomem todo o meu tempo? Não fosse isso, nem fazia tal pedido.  É quase uma caridade que presta aos parentes. E estamos falando aqui de uma assistência pontual. É mais do que o pobrezinho precisa…

Enquanto isso, o homem desmoronava. Membros bambeando e camisa empapada, a ponto de desmaiar.

Foi explícita ao limite_ Jantar? Tá de brincadeira, né? Que isso eu mesma faço e é todo santo dia – pra encerrar num grand jeté _ O negô tá num sufoco bíblico, compreende? Se trocar de turno comigo, fico devendo uma. Uma não, dez! Das grandes. E pra sempre!

Sei que desligaram.  E virou uma sarna. Azucrinando o que restara do infeliz.

_Tá fazendo o que parado aí? Ande, meu filho! Antes que a moça desista – cheia de pressa e recomendações _E não apronte, nem dê trabalho, pelo amor de Deus! Viu a dureza que foi pra arrumar essa? Outra eu juro que num guento…

E correu casa afora. Tentando lembrar da Anne e da Mikio. Doida por uma reserva. Ou suplente. Afinal, quem tem uma, não tem nenhuma. Ao menos é o que dizem por aí. E sabem como é, né? A voz do povo é a voz de Deus…Suplente de Esposa

Um espírito baixou lá em casa

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Ontem um espírito baixou lá em casa. Nele. Antes fosse em mim. Assim dava de louca. Desopilava. Mas, não. Ficamos os dois. Ali. Confinados. Com ele azucrinando. Caçando encrenca. Sem parada. Nem porquê.

E olhe que dar chilique é comigo mesma. Mas cuidar do piti alheio, comadre, já é outro departamento. Ainda mais se vem barbado. Com quase dois metros de espinhela caída. E justo pro lado de quem! Desestruturei. Saí desfiando rente. Talhando beicinho à faca.

Tentei mudar de assunto. Virar o disco. Seguir em frente. Não funcionou. E o pelego só piorava. Quer saber? É trabalho. E dos bravos. Só pode. Já devo estar acumulando milhas. Para as próximas vinte encarnações.  No mínimo. Assim volto raio de luz. Vaca indiana. Ou herdeira da Madonna. Vai saber, né?

Invoco, então, as infalíveis. Aquelas que fazem a Liga da Justiça parecer a Vila dos Smurfs. São elas. As minhas vizinhas. Palpiteiras de ocasião. Com jeitinho para quase tudo. De simpatia do bucho cheio a como invadir um Wi-Fi em dez lições. Sem mestre, nem senha.

Sugestão 1: descarrego.

Recuei. Lembrei da Jovelina. Cujo marido embatumou num repente. A pobre diaba tentou tudo. Abnegação. Mimos. Atenção redobrada. Abriu mão da família. Amigos. Trabalho. Até do horário no salão. E nada. Absolutamente nada! Foi quando apelou. A um padre. Exorcista. Sétimo dan em aikido.

As visitas foram tantas, que fugiram. Ela e o sacerdote. Num fusquinha amarelo. Airbag duplo. Sensor de ré. Travas elétricas. Ótimo estado de uso. Ouvi dizer que estão tentando vender. Trocar por passagens para ir a Roma. Ver o papa. Se souberem de algum interessado…

Sugestão 2: chá de vem-cá-meu-nêgo (ou melô do “guenta”-bem-dado)

Vai nessa! Lembram da Aleluia? Quase morreu, a infeliz. O fulano, de tão entusiasmado, só pensava em encostar. Enquanto a outra, pobrezinha, mal andava. Sofria até para respirar. Fraquinha. Esquálida. Vista turva. E ele querendo mais. Da missa, o terço. Todinho. Guloso. Eu, hein? Prefiro o xarope ao unguento. Benza-Deus!

Sugestão 5.698…

Ai. Ai. Melhor parar por aqui. Se for esperto, ele que se corrija. Sozinho. Por conta e risco. Afinal, o acordo foi claro: te faço feliz e você retribui. Sempre na mesma moeda. Não era isso, não? Sei… Letras miúdas no rodapé? Tá… Não vi. Mesmo. Por falar nisso, aproveite para ver se estou lá, esperando na esquina. Quem sabe, quando voltar…

Eu? Cansei dessa vida. Resolvi sossegar. E desvirar o santo. Aquele. O Antônio. Que esqueci há uns três anos. No fundo de um armário escuro. De cabeça para baixo. Afogado num copo d’água e amarrado em silver tape.

Só pode ser revanche. Ah, meu Santinho, pegue leve com essa moça. Era brincadeira, viu? Beato mal-humorado, gente! Credo…