Um dia com o Papai

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Aconteceu da mãe passar um dia inteiro fora. Trabalhando. E o pai ficou com as crianças.

Preciso nem dizer que o caminho de volta foi um inferno, com ela pensando o tempo todo em tudo de ruim e de pior que podia ter acontecido a prole.

Passou a mão no trinco e abriu, varando casa adentro, que nem doida. Pra deparar com eles, pai e neném aninhados, dormindo feito anjos.  E pouco mais adiante, o mais velho, quietinho em frente à televisão.

_Quer saber? Começo a desconfiar que se comportam melhor com seu pai que comigo – reclamou ao menino, um tanto quanto enciumada

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Tem jeito, não…

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Num elevador apertado seguiam três. Mãe, filho e um moço em mangas de camisa que suava como poucos. Mas antes que a história avance, deixem que eu me apresente. Sou a mãe. E o rebento é meu, sim senhor. Justo quem. O pior dos quatro. Desses que nem benzendo, viu? Misericórdia…

Enfim. Estávamos lá. Confinados. E subindo beeeeeem devagarzinho. Enquanto o homem, visivelmente desarranjado, torcia e repuxava, num sofrimento sem fim. Eu? Nem tchum. Disfarcei o mais que pude. Fingindo ignorar o cidadão que esverdeava.

Devo dizer até que lutou bastante, mas perdeu. Feio. E o culpado ninguém soube, ninguém viu. Mas os suspeitos pipocavam. Da feijuca com farofa ao guisado de mocotó. Fato é que não caiu bem. Pior. Explodiu. Numa densa névoa acinzentada. Com o infeliz posando de morto. E levando a gente com ele. Mas antes que máscaras de ar caíssem automaticamente do teto, meu amado pimpolho tomou a dianteira e dirigiu-se ao fulano nos seguintes termos.

_Credo, tio! Estragou, foi? – taí. Adulto pensa e criança fala. Quer dupla melhor que essa? E quanto menor, mais sincero. Tanto que continuou. Com razão de sobra pra tudo.

_Ué, mãe? Eu não fui. Nem você. Sobrou ele. Quem mais?

Ai, Cristo… Tem jeito, não…

E se a asfixia temporária não me matou, a vergonha-monstro permanente com certeza daria cabo do recado. Sem falar do jeito que me olhavam. Aguardando uma deliberação. Mas dizer o que, numa encrenca dessas? Que tal, Melhor cuidar da alma, hein, amigão?, não, muito óbvio. Ou quem sabe, Será que chove?, também, não. Aberto demais. Sobrou pro batido, Eu quero a minha mãe!, dramático, mas cem por cento verdadeiro.

Até que o inevitável aconteceu. Com o elevador entreabrindo pra que mais alguém pudesse entrar. Ou quase. Já que a senhorinha empacou. Fitando-nos de frente. Como quem diz, E aí? Quem foi?

Não seria meu filho se não devolvesse, Nem olhe pra mim!, enquanto reforçava a argumentação tapando o narizinho entre as mãos e enchendo as bochechas de ar. E voilà. Convertido em questão de segundos num espécime perfeito de baiacu-ará. Pode isso? Pois é…

Sei que a tal dona ainda protelou um tanto, mas na falta de opção melhor, acabou unindo-se ao grupo. E o elevador retomou seu curso habitual.

O Deus nos acuda veio na sequência. Com o diabo do homem tornando a sacudir e a apertar. Num sinal inequívoco de que o fim da trégua estava próximo, Quer saber? Vou de escada, que eu ganho muito mais…

Minha reação imediata foi socar o dedo na botoeira. No desespero obtuso de quem cria numa parada súbita. Que, é claro, não aconteceu. Por essas e outras que odeio física e nem dou muita pelota a esse conversê de relatividade espaço-tempo. Depois do ocorrido dei pra implicar com a fisiologia humana, também. Fazer o quê, né? Cismei. Pronto. E quero ver discordar de mim.

Sei que descemos no vigésimo sexto, enquanto meu compromisso aguardava no décimo quinto. Sendo assim, simbora andar que todo santo ajuda. E sem nem um pio. Que nada paga o meu sossego. Ou a minha tranquilidade. E teria dado certo, não fosse pelo caco de gente, que engatou numa quinta marcha e saiu desbarrancando, Mas será o Benedito?! Volte aqui, moleque! Não corra. Nem pule. Cuidado com o degrau. De dois em dois não pode. E desça já desse corrimão. Tá com sarna, é? Credo!  Eu disse pra esperar pela mamãe… Acenda a luz, capeta! Acenda o diacho-do-raio dessa… Ai, Cristo… Tem jeito, não…

Tem jeito, não...

Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto

Criança tem cada uma

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Foi girar a alavanca e a porta abrir.  O patrulheiro estelar sabia que sozinho jamais conseguiria enfrentar a guarda do cruel imperador Gorky. Com o reino vulnerável e a princesa Indra nas mãos de cruéis mercenários, qualquer descuido seria o fim da resistência nos condados.

Nos calabouços da cidade perdida, nosso herói lidera um grupo de rebeldes no combate a um exército inteiro de monstros-mutantes-zumbis. Após retomar o controle intergaláctico e devolver a doce princesa ao seu reino, é chegada a hora de unir-se aos demais guardiões numa arriscada missão de retomada do espaço-tempo. Conseguirão nossos defensores alcançar a nave mãe antes que meteoros gigantes teleguiados por Gorky interceptem para sempre seus destinos? Ou será que rochas de lava flamejante impedirão os nossos…

_Que bagunça é essa, moleque?  – quis saber a santa, ou melhor, a mãe. Mãos espalmadas, narinas alargando e olhos maiores que eu, num estupor típico de quem acabou de limpar uma casa inteira.

_Justo hoje, filho! Só comigo, meu Deus. Só comigo…

O moleque, empapado em molho grosso até os cotovelos, aproveitou para esmagar um meteorito remanescente, ou polpetone com fusilli à bolonhesa da vó Anne, como preferirem. Antes que a desmancha-prazeres lhe catasse o prato. E as orelhas.

Foi Ai! UI! pra todo lado. E por mais que ela esfregasse, dessa vez nosso guerreiro espacial caprichara no figurino. Nem quarando em soda estelar. Nem assim.

_Olhe o estado que ficou esse uniforme! – ralhou a matriarca, enquanto ele franzia a testinha, como quem diz, Danou-se!

_Vai chegar tarde outra vez! Aí vem recado na agenda e seu pai vai brigar com quem? Adivinhe? Você não sabe da missa um terço  – e tratou de arremedar _ Precisa controlar melhor esse menino! Fica em casa, não faz nada e ainda por cima perde a hora. Já vi tudo – chilicou a dona azeda, montada num beiço que esticava até a esquina _ E hoje não benta. O primeiro que me aborrecer, leva!  – deferência que geralmente sobrava ao pai, já que criança sabe bem a hora de ficar quietinha.

Agoniada como estava, tratou de ventar com o pequeno porta afora. Mas mãe é oitenta por cento mole e vinte por cento zelo. Sendo assim, inventou de perguntar _ Ficou com fome, né? Nem sei como é que vive. De vento. Só pode…

E deu meia volta na história _ Quer uma bolachinha? Quer? Um danoninho? Tem pudim de chocolate na geladeira. Peraí, que vou buscar…

Voltou num vapt vupt. Com uma travessa pra lá de abarrotada. E uma bitoca estalada na bochecha cheia e quase limpa.

_Tem que comer pra virar craque e marcar um golaço pra mamãe, viu?

O pequeno sorriu. Banguela e comportado. Quem não conhecesse a praga, levava. Facinho, facinho.

_Vou ali e já venho – acontece que demorou. As turras com um pé de chuteira que não tinha Cristo que ajudasse a encontrar. Pra depois casar as meias e socar tudo na mochila. Aquela. De janeiro. Que em abril não tinha as alças, nem fecho. Quando lembrou de trocar a escova e reforçar a lancheira (que a bisnaguinha na cantina, colega, pela hora da morte). Mas cadê o estojo desse garoto? Victor Luiz, quedê seu estojo de lição? Eita, menino danado…

Ele, se ouviu, não deu nem confiança. Ocupado que estava em responder o ataque do famigerado imperador do mal e proteger os limites das Terras Altas. Esperem! Oh, não! O foguete do guerreiro lendário caiu! Espatifou-se contra uma torre de bolachas recheadas. Tentou fugir e caiu de novo. Assolado num pântano ácido de pudim radioativo e a mercê de tortas-autômatas canibais. Contra as quais se valeu de rajadas mortais de danoninho plutoniano, retomando o controle da situação. A essa altura, do prato original, restava pouco. Menos que meia fatia de pavê da destruição.  E por pouco tempo. Já que a única forma de vencer o exército Orc era explodindo seu covil secreto, de uma vez por todas!

O menino bem que tentou. Mas com a galáxia em erupção e a guerra declarada aos insurgentes, havia pouco que pudesse fazer pra garantir a integridade física do planeta Sala. Mesas, tapetes, cadeiras, tudo infectado. Uooooó! Ioioioioioió… Tomem isso, forças malignas…  E mais isso…E isso…

Não fosse a intromissão da famigerada mater-estresser-mutante, e ele teria varrido definitivamente o império de Gorky para outras dimensões. Ligeiro que era, bateu em retirada. Deixando pegadas marrom nescau intenso no carpete marfim-zero-bala da entrada principal.

_VICTOR LUIZ JORGE FILGUEIRAS JÚNIOR!

Aquele urro foi dela. Num clamor autêntico aos deuses. Santos. E entidades afim. Se bem que nessas horas, vizinhos e psiquiatras também resolvem. São todos bem-vindos. Qualquer alma boa e menos atarefada. Preferencialmente as munidas de balde mega, tira manchas super e esfregão blaster. Mais uma caixa jumbo de dardos tranquilizantes. Cinquenta polegadas cada. Pra abater elefantes. Míticos. Mutantes. E interestelares.

Criança tem cada uma

Quem não chora, não mama

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Dentre as mães mais célebres da história, duas ganham em disparada: a do árbitro de futebol e a outra. A hot spicy salsa parrilla: a genitora do bebê que esgoela em voo lotado. Doze horas no lombo. Enquanto os outros cento e quarenta e nove passageiros tentam loucamente fazer aquilo… qual era mesmo o nome? Ah. Tá. Lembrei: dormir!

Foi mais ou menos nessa hora, quando quase tudo irrita, que a festa começou pra valer.  

E não foi por falta dela tentar. Primeiro jogou o menino pra cima. Depois, pros lados. Então, apertou. Beijou. Choramingou junto. E nada. Quanto mais fazia, mais o bichinho gritava.

Esse não era bento. Não podia. Não do jeito que chorava. No mínimo era o sétimo filho de uma ninhada só de homens. Parido em noite de lua cheia em uma beira de encruzilhada. E nessas horas o rebento não tem pai. Já perceberam? Nem avós. Nem ninguém que goste dele ou com quem possa parecer minimamente.

E lá se foi a pobre. Chacoalhar o filhote de chocadeira no banheiro. Abafado contra o peito. Já que catapultar pela saída de emergência não se mostrava uma soluções nem um pouco razoável. Viável até era, mas razoável, jamais…

Assim o berreiro seguiu toalete adentro e noite afora. Até que… silêncio. Seguido do barulho de descarga.  Muito bem!, gritou um passageiro lá do fundo, entre surtado e esperançoso. Cruel? Porque não era você naquele A320. Se fosse meu, já teria “descargado” faz tempo. Filho a gente faz. Um atrás do outro. Quantos forem necessários. Difícil é fazer dinheiro. De resto, você diz, Vamos?,  e eu pergunto, Quando?

Mas, de volta a vaca fria, tudo que posso dizer é que o entusiasmo do colega durou pouco. A porta do banheiro foi aberta e o que se viu foi uma figura lívida e desgrenhada. Trazendo ao colo o mesmo menino. É. Aquele, com fibromialgia generalizada e apendicite supurada aguda. Mas, esperem só um minuto… de repente, acalmou. Não está mais gritando. Nem um pio que seja. Aleluia, irmãos, que o sangue de Jesus tem poder! Tá tudo amarrado, pelo santo nome do profeta!

Mas alegria de pobre não dura uma Copa. Sendo assim, dito e feito: bastou a tal dona pisar fora da casinha pro chororô voltar matando. Pior. Ele não era o único infante a bordo.

Resultado: acordaram todos. Que, assustados, acharam por bem aderir imediatamente ao concerto em andamento. Em si. Fá. Mi. Ré. Tudo estourado. Bemol e sustenido. Ótimo! Não me faltava mais nada…

Lembram do juiz que se vendeu a troco de pinga e validou um gol ilegítimo aos quarenta e cinco do segundo tempo? Pois é. Absolvido. Com honras!

E quando tudo parecia perdido, eis que… ué? Parou, de novo? Acho que sim. E lá se foram dez minutos, em um voo que era só tranquilidade. Quer dizer, caímos numa zona de turbulência extrema e tivemos que arremeter três vezes. Mas as máscaras de oxigênio funcionaram perfeitamente durante a despressurização. E o melhor: ninguém chorava. Ou ria escangalhadamente. Nem cantava cinquenta mil vezes o que a barata diz que tem, mas tem coisa nenhuma. Ufa… Finalmente irei relaxar. Finalmente vou dormir. Finalmente acendem-se as luzes da aeronave e é o capitão quem avisa que o café da manhã está sendo servido… Contei que o menino voltou a chorar? Então. Voltou…

Mãe de primeira viagem, quer apostar? Só pode. É a amplitude da cantinela quem a entrega: imagine se o caçula de quatro irmãos choraria assim? Começa que nem chora, Gato escaldado, compadre!,  se ressonar mais alto, não vai. Fica. Ali, mesmo. Em plena escala. Até aprender bons modos. Ou juntar um tanto assim de moedinhas. Esquente, não. É coisa pouca. Só o suficiente pra passagem de volta. Toronto-Guarulhos. Judiação…

Quem não chora, não mama

É Hoje…

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Mais ouriçados que eles, ninguém. Também, pudera. Havia décadas que não faziam. Como, o quê? Sexo, é claro.

Vontade até que tinham. Faltava tempo, sossego e oportunidade. Mas, eis que o improvável aconteceu. Com as crianças dormindo cedo e pesado. Deixando os dois ali. Faceiros. Num resfolego da moléstia.

Foi um tal de, Vai! Vai! Vai!, e, Vem! Vem! Vem!, com, Mais pra lá! Passou! Distorça tudo e volte, que quem ouvia jurava que estacionavam uma cegonheira, numa vaga para monociclos.

E olhe que começaram pelo básico. Em um dois pra lá, três pra cá, impossível de errar. Bem por isso, ela reclamou. Queria mais. Rojões, morteiros coloridos e sininhos tilintando.

Recorreram aos áureos tempos de namoro. Onde nada escapa, tudo pode e quanto maior o cheiro de encrenca, melhor. Se bem que não dispunham mais daquela elasticidade toda. Nem da forma. Ou destreza. Enfim. O que daria errado em uma noite auspiciosa como aquela?

_Que cara é essa? – estranhou ela.

_Qual era, mesmo, o nome daquela posição que você adorava? – respondeu ele, mal-intencionado até o caroço.

Ela riu _ Qual? A Viga Inclinada ou a Ponte Suspensa. Será que a gente ainda lembra?

_Moleza! É só pôr o seu pé direito no chão, sua perna esquerda pra cima, meus dois braços espalmados por baixo e as cabeças pendendo inclinadas…

_Não! Essa é o Caranguejo Reverso Rastejante! Falava daquela onde a sua perna vai por baixo, minha barriga por cima, seu tronco virado pra trás, enquanto prendo seu pescoço com meus pés, assim, ó…

Ao que ele deu o alarme _ Nãaaaaaaaaaaaaaaao!

_Credo! Que foi?

__Meu deltoide! Tá pinçando o meu deltoide!

__Se tentarmos outra? Você bem que gostava da Mula Manca Sentada, hein? E tinha aquela, também: a Misteriosa Flor de Lotus Dourada na Tromba Torta do Elefante Africano

E antes que ele assentisse, ela já distribuía funções _Vamos lá! Eu ajoelho, aqui. Você fica de lado, ali, apoiando seu cotovelo esquerdo bem no meio do meu plexo solar, assim! Enquanto centro a base da minha coluna no hemisfério posterior da sua…

_Aiiiiiiiiii…

_Mas será o Benedito?

_Meu bíceps! Travei meu bíceps! Ou será que foi o tríceps?

Relevou pra não perder o marido, nem a noite de regalos e fantasias. Outra assim, só em mil anos. Ou se o Flamengo for campeão. Vai saber, né?

Ele, preocupado, resolveu acelerar _Não tem algo mais simplinho que dê pra gente fazer, não?  Tipo arroz com feijão de panela de barro. Bem temperadinho…

_Algum problema com o meu arroz com feijão?

Lascou-se.

_Se tiver, fale. Não me venha com indiretinhas gastronômicas…

Alerta vermelho! Alerta vermelho! Ele que não era bobo, nem nada, preferiu não arriscar.

_É o melhor feijão do mundo. Refeição pra mais de dez talheres. E venha cá que eu…

_Venha cá, uma ova! Ontem, mesmo, peguei você separando. Comeu arroz puro. E eu vi!

Vixi…

_Exagerou no louro. Pronto. Falei – pontuou o tinhoso.

_Arrá! Se fosse na sua mãe, aposto que lambia a panela.

_Lá vem você implicando com a minha mãe…

_Meu feijão tem louro demais? Onde já se viu! Pois fique sabendo, que o feijão da sua mãe tem mais folhas que minha salada completa. E você reclama? Nãaaaaao!

O esfrega teria seguido noite adentro, não fosse a movimentação extra vinda do quarto dos meninos. O barulho fez com que voltassem a vida e a ordem: Escute aqui, que tal abandonarmos essa história de Elefante Com Trombose e ir logo ao que interessa?

Papai e mamãe? Fechado! Além do mais, combate os radicais livres. Melhora o tônus muscular, o humor e não engorda.  Perfeito. Não fossem pelos passinhos arrastados e a vozinha inconfundível, Ô, manhê!

Congelaram. Depois foi um tal de cobre, ajeita e esconde que, por pouco, não caíram da cama.

_Cadê o lençol?

_Que lençol?

_Aquele que você arremessou jardas além no meio da sua bendita Ponte Levadiça…

_Era Ponte Suspensa! E se alguém perdeu o lençol, foi você com seu Boitatá de Cócoras…

_Mula Manca Sentada! Mula Manca Sentada!

Como a ordem dos fatores não altera o produto, continuaram sem um mísero paninho para encobrir. Nem um lencinho umedecido pra chamar de seu.

A mãe apelou pro berro a distância_ Já pro seu quarto! E ligue a TV. Bem alto!

Acho que sossegou. E aí, vamos? Opa! É agora ou nunca…

E bem na hora do quase, ao invés do OOOOOOOOHHHHHH, veio um UUUUUUUUIIIIIIIIII.

 _ Meu supino! Estirei meu supino!

_O que eu faço? Paro?

_Nunca! Jamais! Só chegue um pouquinho mais pra lá… – e ela obedeceu, prontamente. Sem saber que era a vez do menor acordar, Manhêeeeeeeee…

Ignore-o, ordenou ele.

_Mamãezinha!

Continue ignorando, implorou, em completo desalento.

_Fiz xixi na cama. Todinha. Cocô, também…

E abriu o maior berreiro. Altíssimo. Em si bemol sustenido e estourado. Que só parou depois do banho. Quando deitaram os quatro juntos. Com os moleques no meio. E o casal se olhando. Cada qual numa pontinha. Imaginando quão longo um milênio poderia ser. E o Flamengo? A quantas andaria no campeonato, hein? Alguém sabe? O que vier primeiro, atende. Alguém? Qualquer um…Imagem