Então, Tudo De Novo

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No farol um arrastão comendo solto. Em meio ao bololô um motorista esperava. Pacientemente. Quando deu de cara com um meliante terrível, a quem fez questão de explicar.

_Desculpe, mas sou fixo do Arruela. Há mais de três anos que só ele me assalta. Fica pra próxima, pode ser?

_Foi mal, Patrão. O Arruela atrasado, mas já-já taí. O senhor pode aguardar?

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Impedimento

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_Voltamos ao vivo pro segundo tempo desse grande jogo. Tudo certo para o reinício. E a galera na geral se anima. Vai autorizar o arbitro. Mas o que quié isso?  O bandeirinha acaba de indicar impedimento. É isso, mesmo, garotinho? – perguntou o narrador ao repórter em campo

_Acredite quem quiser, mas a informação é quente: um santo invadiu o meio-campo.

_Santo?

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Santa Paciência

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Porta de colégio é um inferno, reparou? Um vuco-vuco desgranhento, sem falar na montoeira de pais aboletados em fila dupla. Quando não, tripla.

Talvez por isso a reação tão imediata ao ver aquela garagem vazia. E foi entrando.

Mas alguém logo lhe colou a rabeira, descendo a mão na buzina. Pensam que se encabulou? Qual nada. Acabou de manobrar e ali ficou. Bem quietinho. Ao que outra baixou o vidro pra reclamar.

_Moço?!

_Oi.

_O que o senhor pensa que está fazendo?

_Estacionando.

_Mas EU ia estacionar.

_A senhora, também, é? – resumindo o caso todo num único abano de cabeça _Infelizmente, não será possível. Cheguei primeiro. Então, se a senhora der licença…

_Como assim? É a MINHA vaga. Na garagem da MINHA casa.

_É tua, é? – e começou a avaliar. Botando defeito do teto a parede.

_Perfeito só Deus, né, moça? Mas fique triste, não. No seu lugar pensava assim: pelo menos eu tenho um teto. E  dê-se por satisfeita, que a coisa anda feia por aí…

_Escute aqui, o senhor vai, ou não vai, sair da minha garagem? – atrás dela uma fila enorme de carros se formava.

_Mas eu já expliquei pra senhora. Lamento muito, mesmo. Mas é hora do rush e tudo engarrafado. Se puder dar uma afastadinha…

_Afastadinha?

_É. Uma ré. Distorce tudo e pronto. Pode até voltar mais tarde, nuns vinte ou trinta minutos. Meia hora é tempo mais que suficiente pro meu filho sair da escola.

_Eu não tenho como voltar mais tarde!

_Bom, se é assim, bem que podia buscar o moleque pra mim, né? O nome dele é Pedro. Classe da tia Ana…

_Eu?

_Que custa? Nem entrou em casa ainda. Invés disso, taí. Engastalhando o trânsito...

De fundo as buzinas. Pipocando. Ressoavam bairro afora. Ela, inconformada, só faltava enfartar com a pouca graça da encrenca toda. Pior. Minguavam as opções. Ou colaborava com o despropositado do fulano, ou o infeliz não arredava. Não tão cedo. Nem em sonho.

E quer saber? Ela foi. Sinalizando e gesticulando pruma fileira interminável de veículos, Calma, pô! Tô saindo, não viram, não? Eita…

Enquanto o outro fornecia orientações de última hora.

_A escola dele é mais pra frente, viu? Umas cinco quadras além da esquina. De resto é dirigir com cuidado. Não corra, nem acelere, que o menino enjoa muito fácil. Fazer o quê, né? Estômago fraco, coitadinho…

Sei que deu partida. Cantou até pneu, tamanha a raiva que sentia. Mas antes que saísse foi interpelada. De novo.

_Peraí!

_Que foi agora?

_Tome. Leve isso – repassando a ela um boleto _ É a mensalidade. atrasada.

Ela riu. Sarcástica.

_Jura? E pago como?

_ que sabe. O que for melhor. Dinheiro. Cheque. Menos cartão, que não aceitam – acrescentando na sequência _ Aproveite e compre pão.  Três baguetes. Das mais moreninha…

_Cuméquié???????

Passou foi o maior sabão na dona, Agora, vai! Cê tá fechando o cruzamento!,  chiou ele, categórico, Vê que o povo quer passar, todo mundo cansado, doido pra chegar logo em casa, e a madame aí, atravancando meio mundo. Pode isso?… Folga demais pro meu gosto, viu? Contando ninguém acredita…

Santa Paciência

SAC

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Aconteceu dia desses. Ao ligar para um serviço de atendimento ao consumidor.

_Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

_Quero informar que achei um pedaço de luva dentro do requeijão de vocês.

_Feminina ou masculina, senhor?

_Hein?

_Mão direita ou esquerda?

_E como é que eu vou saber?

_Certamente, senhor. Esquerda é a mão do braço que fica ao lado do coração. Pode ouvir seu coração, senhor?

_Sim, mas…

_Então, tudo resolvido. Que a direita é a que sobra. Ficou fácil assim, senhor?

_E quanto ao meu requeijão?

_Perfeitamente, senhor.

_Não tem nada de perfeito, não! Comi um pedaço de luva, está entendendo?

_Exatamente, senhor. E como pretende nos ressarcir do prejuízo?

_Eu?

_Corretamente, senhor. Comer a luva de um funcionário é dano ao patrimônio privado. Crime passível de multa. E o senhor acaba de ser autuado. Satisfeito? Ajudo em algo mais?

_Multa? Era só o que me faltava. Podia ter sido um dedo, mocinha. Tem noção disso?

_Antropofagia, hein? Isso agrava sua pena em vinte por cento, senhor.

_A culpa é minha? – e reclamou_ Tenha a santa paciência, minha filha. Falta só você dizer que entrei na sua fábrica e mordi um funcionário de propósito! Ora faça-me o favor…

_Um minutinho que estou anotando. Crime doloso com motivo torpe. Fantástico, senhor. Mais trinta por cento.

_A senhora doida, é?

_Danos morais? Excelente opção, senhor. Vou averiguar a informação – musiquinha chata na espera e logo ela retorna_ Obrigada por aguardar. Isso dobra seu valor inicial e acrescenta mais uma série de incríveis taxinhas. Gostaria de anotar? Cinco por cento por ocupar nosso 0800. Mais dez, por ser durante MEU horário de almoço. Porque hoje é dia da secretária, mais vinte. TPM, trinta. Odeio azul, onze. Não consigo perder três quilos, quarenta e cinco. Não me lembro o motivo inicial dessa conversa, mais sete, que é o meu número da sorte… – bem quando anunciou, muito da satisfeita_  Adoraria se permanecesse em linha pra avaliar meu atendimento. Lembrando que cinco é muito satisfeito. Quatro e quase satisfeito. E os outros a gente nem precisa considerar, não é, mesmo, senhor?…  Senhor?… Uhuuuuuu, senhooooooor???

SAC

Só que não

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Mar no jeito. Dia quente e claro. Praia boa pra gente passear. E foi o que fiz.

Sozinha. Rente a água. Eu e Deus. Quer dizer, não exatamente. Já que a minha frente ia um garotão. Desses de peitoral blindado e bermudão pelas canelas. Igualzinho ao Júnior. Meu filho.   E se tem algo que realmente me incomoda nessa vida, taí: caminhar a rabeira de menino. Tudo. Menos isso…

Toda vez a mesma história, Cê é mole demais, Quer que empurre?, Aprume essas costas, Fale menos e ande mais, Affê…  Quando não cruza os braços pra perturbar, É pra hoje ou tá difícil? Ande, manhê! Que canseira, viu?…

Fato é que decidi, Comigo não, violão: é hoje que tomo a dianteira…

Sei que joguei pra direita. Cortei pela esquerda. Acelerei. E nada. Ainda na cola do distinto. Tornei a apertar o passo. Corri por fora. Tropecei num rastelo de criança. Ralei de todo lado e ainda por cima engoli água (e não foi pouca, juro procêis). Insisti mais um tanto. Pelejei. Fiz que fiz até que passei o tal do moço.

Ótimo? Péssimo!  Onde já se viu uma mulher na minha idade zanzando à frente de um bonitão de quase vinte? Calma, pensei. Muita calma nessa hora, que desalento não corrige estria. Pior, agrava. E se é assim, melhor posar de fina. Atarraxando braço com perna e pneu com culote. Talvez chacoalhe menos. Ou trema só um pouquinho. Aí é torcer pra virar charme, num doce balanço a caminho do mar…

Ok. Bateu o desespero. O fato do moleque estar mais pra capitão da seleção americana de polo aquático, que pra corredor fundista queniano, agravava ainda mais minha aflição. Mas resolver o negócio era moleza. Tudo que tinha a fazer era deixá-lo passar. Fácil, né? Sei…

Bastou desacelerar pro diacho do moçoilo pisar no freio comigo (pra que pressa, não é mesmo???) Enfim. Sentar também era uma ideia. Se boa ou ruim, são outros quinhentos. E coincidência ou não, acontece que despenquei. Literalmente. Caindo de dorso e afundando. Mas, ufa! Ele passou. Já podia levantar e retomar o percurso.

Isso se não estivesse mergulhada em areia fofa até onde Deus desse discernimento. Tudo bem. Questão de habilidade e jeitinho. Tentei novamente. E entranhei mais metro e meio. Faltou determinação, só pode… Experimentei botar mais força e quase virei tatuzinho. Quem sabe não descubro um veio d’água e saio nadando até o Atlântico. Cruzeiro pra quê, gente? Bobagem…

Jeito foi rolar. Croquete de coroa. Hit do verão europeu. Não deixem de experimentar. Sensação incrível essa de sururu empanado craquelando ao sol. Difícil é correr cuspindo areia. Mas a isso também se sobrevive. Depois vira história. Mas fica entre a gente, combinado?

De resto, fiquei lá. Marinando. Aguardando que a duna sedimentada em meu biquíni se desfizesse aos poucos. Então, sacudi o mar do corpo e segui meu rumo. Feliz e satisfeita. Como previsto desde o início. Eu e Deus. Bom. Quase. Que um senhor marchava justo em frente. De pisada funda e ritmada. Turrão, quer apostar? Acostumado a mandar e desmandar na vida dos outros. Igualzinho ao meu marido. E se tem algo que realmente me incomoda nessa vida, taí. Mas comigo não, violão…

Só que não

Tem pau de selfie aí?

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Mais trânsito e ninguém anda. O dia estava de pirraça com ela. E pretendia continuar.

_Passa tudo! Passa tudo!

_Que passa tudo, o quê, moço? Sabe há quanto tempo parada nesse cruzamento?

_Grana. Quero toda a sua grana!

_Pois chegou tarde. Já levaram tudo. IPVA. IPTU. DPVAT. Material escolar. Sobrou nem cartão. Se fizer muita questão devo ter ainda umas duas folhinhas de cheque metidas nalgum canto. É pegar ou largar – e mudando de pato pra ganso _Queria só saber quem foi o engraçadinho que inventou essa pataquada toda de final de ano. Que o meu tá lá. Inteirinho. Encavalado nas sobras de dois mil e treze, dois mil e doze, dois mil e onze…

_Dona, perdendo a paciência.

_Só você? Imagine que a minha amiga, Josephine, levou seis horas de Diadema a Ubatuba. Pode isso?

_Vou explodir! avisando…

_Assim a coisa muda de figura, que o problema é hormonal. Já tentou reposição?

O marido boquiaberto não acreditava no que via.

_Que cara é essa, Pedro Henrique? Fale. Conte pro moço – e saiu descascando o santo _Minha sogra que andava assim. Uma pilha. Foi fazer reposição e pronto. Melhorou num zastrás. Sarar, não sarou. Que também é querer muito, conhecendo a cascuda da tua mãe – e voltando-se ao assaltante _ Não a sua, moço. Que deve ser uma mulher muito fina. Sei. Morreu, é? Peninha. Deus a tenha em muito bom lugar, viu?

Acontece que o cabra cansou. Catando o marido da doida pelo cangote, foi logo avisando.

_O celular ou ele morre!

Nenhuma reação.

_Ande, Gracie Kelly Regine, atenda logo o moço. Antes que…

_Calma, Pedro Henrique, cê é muito impressionável. Papagaios! Uma pressãozinha de nada e já desanda – dando um tapinha camarada no delinquente _ Mata nada, que o colega é gente boa. Quer ver só? Palmeirense. Acertei?

Com marido envermelhando. A ponto de estourar.

_Credo, Pedro Henrique! Deixa nem a gente conversar direito – ranhetou ela, passando a carteira. Pra exigir na sequência _ E pode ir zarpando que o celular eu num dô, num dô e num dô. Pronto. Emburrei. Feliz agora, Pedro Henrique? – indicando o marido ao meliante, que meio corpo pra dentro do veículo, ainda não se movia _ Quer? Pois fique. Que esse aí só me azucrina. Isso quando não pede pra eu coçar. Vê se tem cabimento…

Mas reconsidera e recua.

_Faz o seguinte moço, esquece o Pedro Henrique, que o pobrezinho é arroz com chuchu, mas é tudo o que temos pro jantar. Então, pra não perder a viagem, aconselho o senhor a ficar com a minha sogra. Que a velha é bem de vida, viu? Barbaridade! Carros. Motos. O diabo. Fora o casão de três quadras e meia, que vou te contar uma história – não satisfeita, prolongou _ Tem pau de selfie aí? A gente bem que podia mandar umas fotos pra ela. Que acha, hein, Pedro Henrique?

Tem um pau de selfie aí?

A mais gostosa

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Era olhar pra saber que vinha chumbo. E do grosso.

_Mas, benzinho… – implorou ele.

_Benzinho, uma ova! E não me venha com explicações, que vi tudo, seu safado. Cretino. Desqualificado. Vi tudinho! Ai, meu Deus…

_Ô, morzinho

_Deixei vocês sozinhos por cinco minutos, Cezinha. E quando eu volto, o que encontro? Os dois. Na maior safadeza. Você, nem digo nada, que não vale o que come. Mas… a Tininha…

_Ela não teve culpa.

_Uma falsa, isso sim! Traíra. Sem-vergonha, igualzinha a você.

_Eu que insisti. De começo, ela nem queria. Foi só depois que eu…

_Fale nada, Cezinha! Fale nada, viu? – e acrescentou _ Você tinha prometido…

_Eu sei, bizunguinha. Foi vacilo, mesmo. Mas a carne é fraca. E aconteceu. Já foi. É hora de tocar pra frente. Perdoe, vai? 

_Difícil, Cezinha. Não sei se consigo apagar a imagem de vocês dois. Juntinhos.  Na minha casa. Na minha mesa. Quando lembro das bocas, então… Era pra ser um almoço feliz, Cezinha. Mas vocês estragaram tudo – tentou parar, mas não deu conta _ Achei que estivesse satisfeito…

_Quer saber? Pra mim, chega. Que comigo é assim: deu sopa, eu cato, mesmo. Sem dó. Sou homem, ué, queria que deixasse esfriar? Estava ali. Abandonada. Toda amontoada num cantinho. Podia ouvir ela chamando: Me coma, Cezinha! Sou sua… Me coma…

_Pare, Cezinha – implorou ela

_E eu gostei! Ou melhor, gostar é pouco. Eu adorei! E não fui só eu, não. É. A sua amiguinha, também: comeu que se lambeu!

Tentou sair. Correr. Passar por ele e nunca mais voltar. Mas foi retida gravemente entre seus braços.

_Não vai acontecer de novo. Eu juro! Confie em mim – e cruzando os dedos, como se fosse escoteiro _ Quero que a minha mãe caia dura e seca, aqui, agora, se o que eu falo não for verdade…

Titubeou, mas cedeu. No final, ela sempre cedia _Vou confiar, hein? Mas só mais essa vez…

Enfim. Calmaria no horizonte. E ele não viu mal algum em comentar.

_Conte só uma coisa, filhinha: não acha um pouco demais esse forrobodó todo por conta de uma lambiscadinha à toa?

Ela arremeu de volta.

_Lambiscadinha, vírgula! Você sabe muito bem que eu sempre guardo o melhor de tudo pro final. Tem fome? Pois que pegue na panela. Não tinham o direito de traçar minha última colherada. Quantas vezes terei que repetir que odeio que comam do meu prato…

_Não perdeu grandes coisas.

_Como? Era carne com ovo, Cezinha! E eu A-DO-RO carne com ovo. Se fosse um frango com quiabo, até ia. Fazer o quê, né? Já comeu, mesmo. Mas, carne com ovo? – e tremeu o beicinho antes de perguntar _ E a gema?

_Molinha…

_Nãoooooooo!

A mais gostosa