Ops…

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_Sua mesa está pronta, senhor. Queira acompanhar-me , por favor – pavoneou o garçom, sambando em frente da família. Pai, mãe e uma tripinha de filhos.

_Sejam bem-vindos – continuou o funcionário, enquanto lhes indicava as cadeiras_ Já sabem o que pedir? Não? O especial da casa, hoje, é espaguete com almondegas. O melhor do mundo. Não vão se arrepender.

Súbito, quando menos esperavam, retornou ele. Pratos fumegando e abarrotados de macarrão.

_Garçom?  – era o pai, reclamando_ Temos um probleminha aqui. Quedê as almondegas? Não vieram.

_Em absoluto, senhor –  devolveu o outro, destampando uma enorme travessa – Nossas almondegas são personalizadas. É que nosso cozinheiro é estupendo. Um gênio na arte das caçarolas _ e prosseguiu, servindo prato a prato _ Aparício, para o senhor, Zulmira, para a senhora e Huguinho, Zezinho e Luizinho, para as crianças.

O pai, arredio como era a novidades e suas pajelanças, fez cara feia e tratou de impor resistência, protestando.

_Desculpe. Mas deve haver algum engano. Essa almondega, definitivamente, não é minha. Já que sou Aparício Rodrigo.

_Certamente – admitiu o empregado_ Perdoe-me o erro, senhor. Estava aqui o tempo todo – trocando a pelota de carne por outra _ Aparício Rodrigo Bastes Coelho da Fonseca Torres Junior. Confere?

A mulher foi ao delírio. E pediu uma quentinha cheia. Quinze quilos, não mais. O suficiente para presentear a vizinhança toda lá no Morro dos Cabritos. Enquanto Aparício, visivelmente contrariado, buscava um novo jeito de interpor recurso. Tanto que desdenhou.

_ Nem essa. Já que sou engenheiro.

_Pois não – disse o rapaz, permutando a almondega mais uma vez _ Formado pela Federal Fluminense. Trinta e cinco anos de carreira. Que tal essa, senhor?

Mas o homem não desistia.

_Ainda não. Que sou espírita

Outra porpeta. Mais roliça e macia que as anteriores.

_ Centro Irmãos da Luz, toda terça e quarta. Das 19:00 às 21:30hs…

_Centroavante – gabou-se Aparício Rodrigo, Agora, eu quero ver. Vire-se com essa, meu filho…

Nova bolinha de carne.

_Camisa nove. Time dos casados. Não marca um gol há sete rodadas do campeonato…

Sei que a coisa ficou pessoal.

_Aí não diz que eu sou casado. Viu, só? Não é minha.

E as almondegas sucediam-se.

_Basílica do Imaculado Coração de Maria. Três pajens e uma festa meia-boca. Cinco de janeiro de mil novecentos e oitenta e um…

A verdade é que Aparício Rodrigo espumava, Onde já se viu? Almondega nenhuma sabe mais da minha vida do que eu!, e tiririca da Silva, vociferou.

_Colega: na cara que essa almondega não é minha. Compreendeu? NÃO-É-MINHA!

_E não é que o senhor tem razão?  – espantou-se o garçom, realizando nova troca_ Agora, sim: enrabichado da Zenaide. Há um ano, três meses e dois dias…

_Oi? – esbranquiçou o homem _ Não tenho a mínima ideia do que essa almondega está falando.

_Como não? Tá aqui ó: estagiária, curvilínea, atrevida e que mal completou dezenove…

Foi a vez da mulher entrar na dança. Com um golpe incisivo do seu salto agulha, acertando em plena fúria o dorso do pé do marido. Que gemeu. Enquanto os ossinhos estalavam.

_E com fratura na falange, tem? – perguntou ela. Toda interessada.

_Bom. Não sei – desconversou o funcionário da casa.

Novos solavancos e sopapos e saraivadas de tapas e beliscos.

_Faz o seguinte, procure aí : esfolado vivo, contundido, despejado… Que desquitado eu sei que tem. Certeza absoluta, viu? Olhe direitinho, que eu juro que você acha…

OPS

Vidas Pregressas

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Estavam assim há certo tempo. Felicíssimos. E num grude só.

Fato é que pareciam sob encomenda, um pro outro, e que o natural seria avançar. Nada melhor que remexer o passado para alicerçar o futuro, verdade? Mentira. E da grossa. Só que disso, eles ainda não sabiam. Sendo assim, partiram.

O plano era simples. Viajariam juntos. Iniciando pela cidade dele e, em seguida, aos domínios dela. Com a certeza de que voltariam revigorados. Amadurecidos. Afinal, férias em família costumam ser boa ideia. Vai nessa…

Os primeiros dias transcorreram às mil maravilhas. Ao menos pra ele, que reencontrou tudo que foi ex. Afora a parentada, que não cansava de lembrar o bom partido de trasanteontem. O muchacho cobiçado, que quem provou não esqueceu. E que moça de sorte era ela, ao desbancar um harém louro, ruivo, das mais finas e promissoras candidatas.

Mas despeito é um estado de espírito que fermenta. Depois vira cacoete. Desses difíceis de disfarçar. E com ela não foi diferente. Seu consolo era que o troco estava próximo. A poucas quadras de casa. Tanto que parou antes, na primeira vendinha encontrada pelo caminho.

Entrou ligeira. Carregando o outro pela mão. E a pressa foi tanta que o moço argumentou.

_Tem certeza que é uma boa ideia? Sua mãe está esperando…

_Pois que espere mais um pouco.

Demorou nada e o dono da estalagem veio atender.

_Menina! Há quanto tempo. Veja como cresceu. Barbaridade…

_Não só cresci, como vou casar. É a vida, certo? Cedo ou tarde todo mundo sossega. Até eu – e sussurrou, cheia de razão _ E olhe que eu era o diabo. Nem me dou ao trabalho de negar.

_Também não era tudo isso… – discordou o velhinho

_Como, não? – defendeu-se ela _Fui terrível, que eu sei. Não deixava passar um – e intimou_ Conte pra ele. Fale dos meninos. Pode falar…

_É que não tô me alembrando de ninguém, assim de imediato – despistou o velhinho

_Impossível. Pense bem…

E o velho meneou. Atordoado. Sem lembrança alguma, por mais remota que fosse. Até que um lampejo de repente mudou tudo.

_Mas que cabeça essa minha!

_Viu, só? Ele lembrou – comemorou ela. Agora a corda vai roer…

_Como pude esquecer? Era você… namorando o manquinho…

_Cuméquié? – vez do noivo tomar parte na conversa.

_Nem era assim tão manco – dissimulou a moça _ Tinha um gingado diferente. E daí? Grandes coisas…

E o velhote continuou. Como que falando sozinho.

_Menino bom aquele, viu? Mas morreu, tadinho. Deus o tenha em sua santa paz.

_Coração? – indagou ela_ Aposto que foi saudades. Quer ver só?

_Sobrepeso.

_Sei…

_Até que aguentou muito. Judiação…

Quem mal se aguentava era o outro.  Que se não rolou de rir foi em consideração ao finado, mas que teve vontade, ah, ele teve. E não foi pouca, não…

Bem quando as feições do tal senhor voltaram a clarear.

_Ih! Lembrei de outro.

Ao que ela retrucou prontamente.

_Não lembrou de nada, não.

_Ah, lembrei, sim.

_Mas não, mesmo – reforçou a moça, indignada _ O passado a Deus pertence. Só a ele, ninguém mais. E em nome da pessoa extremamente reservada e recatada que sempre fui, exijo que…

_ E o Landerval?

_Lander… quem? – a festa estava só começando.

_Landerval Machado Dantas. Se bem que assim, ninguém conhece. É chupa-cabra, mesmo. Desde o berço. Que esse é feio de herança, viu?  E bote feiura nisso, virgi santa…  Mas de um coração maior que o mundo, vamos e convenhamos. Difícil era entender tudo o que dizia. Que era gago. E tinha a língua presa. Caidinha, assim, meio pro lado…

Bastou pra pobre desembestar em direção à porta, arrastando o outro com ela. Enquanto ainda tinha alguém a quem puxar…

_Gente! Esqueci totalmente da minha mãe – e improvisou_ até ouvindo ela chamar. Cês não tão, não? Gozado… Juro que ouvi – e fugiu, chispada _ Já vou mãezinha! Guenta a mão, que eu tô chegando…

Vidas Pregressas