Um Senhor Distinto

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Na loja lotada, a grosseria deu na vista, Vestir isso? Tá maluca? Não percebe que não entra? Peça outro. Largo e frouxo em baixo. Tem preto? Melhor, disfarça. Gorda de shortinho? Era só o que me faltava…

A mocinha recuou, acanhada com os comentários do parceiro. Mas o socorro chegou. Na voz sóbria de um senhor ao lado, que aguardava pacientemente sua vez de ser atendido.

_Não devia falar assim com a futura mãe dos vossos filhos.

_Filhos? – sustentou o cabeçudo _ Nem sei se quero casar com ela…

_Mas devia – continuou o outro, tocando a moça pelo ombro _ Essa é a dama que cuidará de você quando mais ninguém o fizer. Será seu leme e pilar. O abrigo seguro nos momentos mais difíceis. Quantas ou tantas vezes você venha a precisar – e pausou.

Ao redor, ninguém piscava. De fundo, só a balconista, choramingando baixinho. Das outras moças, nada mais se ouvia. Quietaram. Duas ou três vieram sentar pertinho. Para ouvir, palavra a palavra, o que dizia aquele homem. Fleumático. Que não decepcionou.

_E ela deixará pai e mãe pra estar contigo. Sem jamais se insurgir ou pleitear. Abdicará dos próprios sonhos para assumir tuas escolhas. Provendo, dia e noite, tudo o que precisar…

O clima era de amor. Com amigas entrelaçadas e casais fazendo as pazes. Foi quando ele baixou de vez a voz e confessou.

_Também tenho esposa. E agradeço a Deus por ela. Que não é mais tão jovem, nem tão bela. Ainda assim é quem me aguenta. Criou meus filhos e netos. Arruma a casa inteira. Trata do jardim. Das minhas roupas. Dos cachorros. Faz as compras. A comidinha na hora e do jeito que eu gosto. De segunda a segunda. Sem pestanejar, nem esperar retorno. Pelo simples prazer de cuidar de mim – e secou os olhos com um lencinho, encerrando definitivamente a questão.

A audiência foi ao delírio. Explodindo em lágrimas e palmas que reforçavam a lição aplicada. Nada mais justo que nosso herói fizesse, enfim, seu pedido, Pensei numa camisolinha pra presente

Não precisou dizer mais nada. A vendedora foi e voltou num mesmo passo. Com um modelito todo branco. Bem composto. Austeridade pespontada em pura seda. Com rendas largas e sóbrias, compatíveis a uma senhora de bem.

_Prontinho: a camisola da sua esposa. E as pantufas são de brinde. Um presente nosso pro senhor. Insistimos que aceite.

_Esposa? Imagine… A camisola é pra Dagmar.

_Sua filha?

_Minha amante – e deu a receita completa _ Pensei numa vermelha. Com espartilho de couro e cinta-liga. Se bem que a danada adora rendas. Plumas, então…– e teve o insight final _ Quanto as pantufas, será que dava pra reverter o crédito em tanga? Meia arrastão, talvez…

Um senhor distinto

Fantasias

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Estão os dois ali. Na cama. E na maior animação. Bem quando ele diz:

_Venha, minha sereia. Venha com o seu Aquaman…

_Qual delas?

_Oi?

_Em qual sereia você está pensando?

_Sei lá. Qualquer uma – e arrochou o abraço. Mas foi empurrado. Pra longe dela. Que completou.

_Se for a Ariel, estou fora!

_Hã? Quem é Ariel?

_Aquela. Da cabeleira cor de fogo. Amiga de um siri falante.

_Dane-se a lagosta falante. Venha cá que…

_É siri! E pode parar, que eu travei.

_Como assim, travou?

_É que sou cismada, lembra? E se souber que você esticou o olho pra alguma baranguete ruiva por aí, eu te mato, Pedro Henrique. Juro que te mato…

_Tá. Tá. Esqueça a sereia. Foque no Aquaman e pronto.

_Também não vai dar.

_Por que não?

_Porque ele é loiro e você, moreno. O que vai me deixar um pouco tensa. Confusa. Sabe como é? Enfim.  Melhor, não.

_Faz assim: apague tudo.

_Já apaguei.

_Vamos recomeçar. Tudo bem?

_Uhum.

_Então venha cá, minha gostosa, que o papai aqui vai entrar de biga e tudo em cima de…

_Biga?

_É. Biga. Aquela carroça que os caras na Roma antiga costumavam usar. Puxada por uns cavalinhos…

_Quantos cavalos?

_Hein?

_Ô, Pedro Henrique, você está de sacanagem? O lance agora é me ofender, é isso?

_Mas, florzinha…

_Porque se falar em dois ou três cavalos, você estará me insultando. Com certeza a sua Ex, aquela pilantra, devia estacionar, fácil, uns 20 alazões.

_Ai, meu Deus…

_Espere aí! Não mude o personagem, não. O papo não era Rússia antiga?

_Roma…

_Que seja. Estava pensando em quantos cavalos?

_Uns… Uns… Cinquenta… Tá bom assim?

_Cinquenta? Cinquenta cavalos você vá estacionar na garagem da sua mãe, Pedro Henrique!

Ele tentou ficar quietinho. Fazer em silêncio. Como a maioria dos casais.

Não aguentou. Mas, dessa vez, escolheu direitinho.

_Plonto. Meu amolzinho. Quelo você toda pla mim, Moniquinha…

_Moniquinha? Tá doido é? Quem é Moniquinha, Pedro Henrique?

Ao que ele responde, mansinho _ Sossegue. Nunca leu Gibi, não? Você é a Monica. E eu, o Cebolinha…

_Tá me chamando de baixinha, é isso? Não me diz que é de gorducha…

Mas ele estava resguardado _ Calma. Tudo bem. A gente troca. Prefere a Magali? Eu posso ser o Cascão. Que tal?

_Cascão é aquele fedidinho, né?

Ele assentiu. E partiu pra cima. Feliz da vida. Mas foi empurrado longe. Outra vez.

_Ô, Pedro Henrique…

_Fala…

_E o tal de Aquaman? Tá difícil chamar de volta?