Vai vendo…

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Primeiro carnaval juntinhos. E ao moço, coube optar.

De um lado o econômico e democrático Bloco do Simpatia É Quase Amor, com milhares de foliões incendiados, gingando e pingando, coladinhos uns aos outros pelos sovacos, quadris e cangotes. Outra opção seria arrendar um exclusivo ninho de amor nalgum canto de ilha selvagem muito pouco visitado. Os olhos da cara, adianto. Mas a privacidade e o conforto valiam. Centavo a centavo. E ele pulou no abismo.

Fechou casa pra dois, mais lancha e luau. Seu dinheiro gastou a rodo. O que fez a pequena suspirar. Portentosa. Mas de repente estancou, numa pergunta inusitada.

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Sei não…

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Estava lá o moço. Matutando em como discotecar a última noite de carnaval da turma lá do bairro. Marchinhas. Decidiu por uma sequência inteira delas. E precisava da melhor de todas pra abertura.

Começou com essa, Roubaram o coração da minha sogra. Botaram o coração de um jacaré…

O pai que ouvia meio de lado, fez questão de opinar.

_No seu lugar, tocava outra.

_Por quê?

_ Os tempos mudaram, meu rapaz. Na minha época, a gente ria de tudo. Fazia piada adoidado. Mas, agora, maus-tratos contra animais configuram crime. Vai que alguém do IBAMA escuta um trem desses. Do Greenpeace, então, piorou…

Sob esse ponto de vista, melhor procurar mais um pouco. E mandou, Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é. Será que ele é…

O pai rebateu. Na hora.

_Olhe a homofobia…

O fulano tentou outra, Eu mato. Eu mato. Quem roubou minha cueca…

_Apologia à violência…

As águas vão rolar. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar…

_Incentivo ao uso indevido de drogas. Lícitas ou ilícitas…

Negâ do Cabelo duro. Qual é o pente que te penteia…

_Negâ, não. Afrodescendente…

A pipa do vovô não sobe mais…

_Estatuto do idoso. Parágrafo único. Artigo quarto…

Até que o guri se encheu. E mandou ver no hino nacional. Tocado naquelas alturas.

_Sei não – ponderou o patriarca _Depois do Petrolão e com essa economia do jeito que está… Num sei não

Sei não

Quatro Marchinhas e Um Samba-Enredo

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Pulavam animadamente pelo salão, até ele sair com essa.

_Não. Definitivamente. Não quero mais que você trabalhe. Principalmente depois do nosso casamento.

Ela riu, já que devia ser piada. Coisas de carnaval. Vai entender. Deu de ombros e voltaram a foliar. Ainda mais coladinhos. Quando ele retomou.

_Nenhuma chance. E decidido.

_Hein?

_Prefiro as crianças em casa. Contigo. Escola só depois dos cinco. Melhor, dos quinze. Até lá você que ensine. Terá tempo de sobra pra olhar os meninos.

_Meninos?

_Jeito de falar, bobinha – e continuou _ Menino. Menina. O que Deus mandar tá de bom tamanho, desde que venham em penca. E de parto natural. Já imaginou?  Eu ali, em primeiro plano, filmando tudinho em HD

Foi quando passou um amigo, e ele inventou de apresentar.

_Conhece a Ana, minha noiva?

A moça encrespou-se toda.

_Ana? Sou a Paula!

_Liga, não – disse ele, ao compadre_ naqueles dias…

Bastou pra ela apelar.

_Qual o problema com você?

Optou pelos panos quentes_ Sossegue, mulher. Em casa a gente conversa.

_Casa? Que casa? Nem te conheço…

_Ingrata! Depois de tudo que passamos juntos…

_ Foram duas voltas pelo salão!

Preferiu ser específico _Quatro marchinhas e um samba-enredo campeão. Sabe o que isso significa?

_Que você é doido. Varrido! – e foi sambar em outra freguesia. Sem sequer olhar pra trás.

E o outro ficou. Ressentido.  Chorando o coração escangalhado. Disposto a não mais se engraçar com fêmea alguma que fosse. Nunca mais. Mas nunca mais, mesmo.

A não ser que fosse linda, descabelada e loira. Como a colombina bocuda que lhe grudara ao cangote.

Tá. Quem sabe só uma voltinha. E mais uma. E outra. Mais outra. Até que perguntou.

_Você trabalha? Não? Ótimo… – pra emendar na sequência_ Tem problema com parto natural?

Quatro marchinhas e um samba-enredo

A mãe da Chiquita Bacana

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Carnaval é festa de solteiro. Folia dos que ainda não desenvolveram matilha.

Mulher com barriga e penca, nem em banho da Dorotéia faz sucesso. Melhor é periguete, mesmo. Para os outras existe o desfile na televisão. Ou as afamadas matines. E não adianta espernear. Carnaval é Carnaval. Matinê é invenção de genitora. Não sabia, não? Ô, dó…

E as diferenças são muitas. Claras como o dia. Que é inclusive uma das mais marcantes adaptações. Tchau, quatro noites de Momo e Oi, duas tardes da Mama.

Pronto. É o que temos. Um cordão de mães ensandecidas. Desesperadas por um punhadinho de confete que seja. Loucas pra se jogar ao primeiro acorde de Mamãe-eu-quero. Mas Ilarilarilariê também serve. E Justin Bieber? Tá em ritmo de repique? Opa. Vale, também.

Geralmente, os primeiros cinco minutos vão bem. Até demais. Bem quando o menorzinho pede colo. Ou xixi. Ou cocô. Enquanto o amiguinho, aquele primo-vizinho-da-mesma-classe, chora com medo da música alta (que mãe que é mãe, é assim: não basta levar os seus, tem que arrastar mais uns cinquenta com ela).

Resumindo, criança não falta. Em corpo presente. Pois a alma ficou em casa. No computador. Jogando DS. Xbox. Wii. E Essa tralha toda que a gente nem sabe como é que funciona. Mas que eles adoram. Muito mais que bailinho de carnaval.

A banda é um show a parte. Já que o gogó de ouro não aparece. Nem pro grand finale. Está repousando. Pra entreter a turma da noite. Os afortunados. Que saem depois das onze. E vão que vão. Até o dia clarear.

Matinê é osso. É Gaza. Terra de ninguém. Onde manda quem pode e obedece quem é casado. Afinal, eles também estão lá. Os maridos. Contritos e em bloco. Fantasiados de homem-poste ou de vai-ver-se-estou-lá-na-esquina. E pulando. Miudinho. Atrás de uma cerveja gelada. Há sempre aquele um ou outro que se pode ver carregando o rebento no cocuruto. Vai saber o que esse aprontou. Cada família uma sentença. Com apostrofe. E regras gramaticais as mais diversas possíveis.

Voltemos, então, as crianças. Aquelas. Socadas em fantasias que brilham. Coçam. E pinicam. Arrastadas pelo salão entulhado e barulhento. Que deixam o rígido controle de higiene de suas casas, pra catar serpentina do chão melado. Se acabando em espuminha.

É, meus amores. O melhor de tudo isso é que um dia vocês crescem. E se vingam. Se forem meninos. Ou se juntam a folia. Se forem meninas.

Quanto a mim, preciso correr. Que amanhã é sábado. E vai ter bailinho de garagem na casa de uma chegada. Quem sabe dá até tempo para um trenzinho. Antes que a minha pequena comece, Mamãe, vamô imbora. Quero ir. Anda. Vamô. Manhêêêêê

Foi num carnaval que passou…

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_Melhor não _ disse ela empurrando o moço longe.

_Vem pro seu Allah-la-ô _ grudou ele. De novo. Cheio de dedos e intenções.

_Diz isso pra todas _ recuou aborrecida.

_Deixe disso, princesa _ as mãos esquadrinhando tudo. Tim-tim por tim-tim. No maior ziriguidum.

_Comigo já são quantas? Cinco? Vinte? O baile todo? Nem demora e já começam as comparações. A mais bonita. A fogueteira. A poposuda. A periguete. E pra mim, sobra o quê?

_Que tal eu? E por falar nisso, bitoquinha que é bom, nada, né?

_Você diz isso agora. Que tá de fogo. Quero ver com a cara limpa. Dez anos mais velho e cheio de contas pra pagar. E se eu mudar? Descambar numa gordona sem tamanho. Daquelas inseguras. Controladoras. E der pra vigiar facebook. Proibir futebol . Happy hour...

_Relaxa, minha pretinha. Afinal, é carnaval…

_ Não me venha com essa. E qual será a próxima desculpa? Não, não fale. Deixe que eu adivinhe: o trabalho? As viagens? O ciático? E quando vai ter tempo pra mim? Pras crianças?

_Que crianças?

_Pronto! Estava demorando pra entrar na fase da negação. Era só o que me faltava. Tantos planos. Sonhos. E eu, aqui, um universo em desencanto . . .

_Mas, docinho…

_Justo eu! Tão madura. Tão blindada _ e continuou _ O que vou dizer aos nossos amigos? Pros meus pais? Ande, me fale? Depois de tudo que passamos juntos. . .

_Cuméquié? Tá doida, mulher? Foi só uma marchinha. Rima pobre e sem estrofe…

_Pra você! Seu cafajeste! Pegadorzinho de terceira!

_Eu, hein?! _ desvencilhou-se ele, abrindo uma distância segura da tal dona louca-insana.

_Vai mesmo! Cachorro! Desqualificado! E não volte, viu? Está me ouvindo? Nunca mais!

E ele foi.

Um pierrô a menos na ciranda. Mais cabreiro que apaixonado. Deixando ela pra lá. A colombina descalibrada. Que maldizia. Falando alto. Para todo mundo ouvir _Comigo, não, violão! Comigo, não!