Impedimento

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_Voltamos ao vivo pro segundo tempo desse grande jogo. Tudo certo para o reinício. E a galera na geral se anima. Vai autorizar o arbitro. Mas o que quié isso?  O bandeirinha acaba de indicar impedimento. É isso, mesmo, garotinho? – perguntou o narrador ao repórter em campo

_Acredite quem quiser, mas a informação é quente: um santo invadiu o meio-campo.

_Santo?

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SAC

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Aconteceu dia desses. Ao ligar para um serviço de atendimento ao consumidor.

_Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

_Quero informar que achei um pedaço de luva dentro do requeijão de vocês.

_Feminina ou masculina, senhor?

_Hein?

_Mão direita ou esquerda?

_E como é que eu vou saber?

_Certamente, senhor. Esquerda é a mão do braço que fica ao lado do coração. Pode ouvir seu coração, senhor?

_Sim, mas…

_Então, tudo resolvido. Que a direita é a que sobra. Ficou fácil assim, senhor?

_E quanto ao meu requeijão?

_Perfeitamente, senhor.

_Não tem nada de perfeito, não! Comi um pedaço de luva, está entendendo?

_Exatamente, senhor. E como pretende nos ressarcir do prejuízo?

_Eu?

_Corretamente, senhor. Comer a luva de um funcionário é dano ao patrimônio privado. Crime passível de multa. E o senhor acaba de ser autuado. Satisfeito? Ajudo em algo mais?

_Multa? Era só o que me faltava. Podia ter sido um dedo, mocinha. Tem noção disso?

_Antropofagia, hein? Isso agrava sua pena em vinte por cento, senhor.

_A culpa é minha? – e reclamou_ Tenha a santa paciência, minha filha. Falta só você dizer que entrei na sua fábrica e mordi um funcionário de propósito! Ora faça-me o favor…

_Um minutinho que estou anotando. Crime doloso com motivo torpe. Fantástico, senhor. Mais trinta por cento.

_A senhora doida, é?

_Danos morais? Excelente opção, senhor. Vou averiguar a informação – musiquinha chata na espera e logo ela retorna_ Obrigada por aguardar. Isso dobra seu valor inicial e acrescenta mais uma série de incríveis taxinhas. Gostaria de anotar? Cinco por cento por ocupar nosso 0800. Mais dez, por ser durante MEU horário de almoço. Porque hoje é dia da secretária, mais vinte. TPM, trinta. Odeio azul, onze. Não consigo perder três quilos, quarenta e cinco. Não me lembro o motivo inicial dessa conversa, mais sete, que é o meu número da sorte… – bem quando anunciou, muito da satisfeita_  Adoraria se permanecesse em linha pra avaliar meu atendimento. Lembrando que cinco é muito satisfeito. Quatro e quase satisfeito. E os outros a gente nem precisa considerar, não é, mesmo, senhor?…  Senhor?… Uhuuuuuu, senhooooooor???

SAC

Putz

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Homem apaixonado é enguiço. Pode nem tocar, que desmancham por inteiro.

Aconteceu com ele. Atolado em amor até as canelas e ansiando por mais. Não conseguia sequer pensar no diacho da moçoila sem que o corpo inteiro contraísse ou seu estômago revirasse. De certo só o futuro que se abria a sua frente: ao lado dos filhos, netos e uma familiarada sem fim.

Faltou combinar com a moça. Claro. Mas isso era fácil corrigir. Tinha até um plano. Que começou mais ou menos assim:

Primeiro, a abordagem direta. Um fiasco, diga-se de passagem. Já que a bela foi e voltou uma centena de vezes. E ele, nada. Emperrado. Ali. Sem lhe endereçar um minguado Oi que fosse.

Então, ligou. E desligou. E ligou de novo. E desligou mais uma vez. Tanto que desistiu. Ok, pensou ele, Um SMS seria melhor, e começou a digitar. Travando logo na primeira linha. Afinal, como se dirigir adequadamente a sua futura esposa? Prezada Fulana, Querida Fulana, ou apenas, Fulana?

Pensou, pensou e na dúvida resolveu dividir seu dilema com um amigo. A quem perguntou.

_Se tivesse uma namorada e decidisse escrever para ela, como você…

_Impossível.

_Hein?

_Caso tenha se esquecido, não me interesso por garotas. E não tenho nenhum problema com minhas opções sexuais, sendo assim gostaria que as respeitasse também.

_Sei disso.

_Se sabe, por que pergunta?

Respirou fundo e tentou novamente, Mas se você, de mentirinha, pensasse em sair com uma garota…

_Credo!

_De mentirinha…

_Nem assim.

_Mas..

_Não.

_E se…

_Nunca.

Desesperou, E o meu recado?

_Não mande – pra emendar na sequência_ Quer conhecer um dos meus amigos? Apresento a você.

_Não, obrigado. Prefiro ela.

_Nesse caso, não posso ajudar.

_E faço o quê?

_Sei lá. Foque em algo mais útil – mudando drasticamente o rumo daquela conversa_ Já pensou em trabalhar? De vez em quando é bom, sabia?

_Perdi o emprego. País em crise, esqueceu? – devolveu mal-humorado

_Pois arrume outro. Dê seus pulos, que mulher nenhuma gosta dum cidadão encostado – pior de tudo é que tinha razão.

E foi o que fez. Iniciando pelo currículo e engatando numa carta de apresentação. Mas acabou travando. Logo na primeira linha. Afinal, como se dirigir adequadamente ao seu futuro empregador? Prezado Fulano, Querido Fulano, ou apenas… Fulano?

Putz

Azar o seu…

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Nada é simples nessa vida. Pode parecer, mas não é. Vai por mim.

Chip de celular, por exemplo. Só trocar? Jura? Quem disse?

É um tanto de fila, senha e aguarda-sentado-que-em-pé-cansa, que vou te contar uma história.

Aconteceu com ela. No guichê nove. Quando um moçoilo uniformizado abaixou a cabeça e começou a digitar. Ela ainda tentou puxar conversa, explicar o motivo da visita. Nada feito. Primeiro o protocolo. O resto a gente vê depois.

Quarenta minutos se passaram. Com ela ali. Inquieta e balançando. Até que cansou. E foi do sacolejo ao estalar. Primeiro os dedos. Depois, os braços e o pescoço (que vem com sete vertebras, já tinham se atentado a isso? Pois é…).

Dali pro tamborilar foi um pulinho. Engatando numa cantata pra três solistas e coro com grande orquestra. Coisa de gente bem à toa.

Por pouco não apelou. Mas estreitos princípios cristãos e anos de terapia ayurvédica fizeram-na declinar. Ao invés, enumerou. Das coisas iniciadas com “a”, aquelas terminadas em “ixe”.

E seguiu improvisando. Roeu unha, mastigou língua, ajeitou a franja e reposicionou a meia no tênis. Abriu dúzia e meia de clips e com eles montou pentagramas e uma maquete da ala leste setentrional do Kremlin.

O outro? Ainda digitava.

Bem quando a moça deparou com uma lixa velha na bolsa. E saiu arredondando tudo. Mas antes que sangrasse, parou. Olhos fixos no cabron, que teclando estava, teclando continuou.

Mas que tanto esse homem escreve, Deus do céu? Nem se rediagramasse a bíblia inteira, pensou ela,  Versão exclusiva do diretor, sem cortes, incluindo extras e comentários dos figurantes.

Tentou contato mais uma vez. E muitas outras vezes além dessa. Mas o danado desconversava e voltava ao telectec original.  Último som que ouviu, pouco antes de apagar. E teria dormido mais, não fosse o encontrão com um velhinho que por lá se exercitava.

Volte ao seu lugar ou acaba perdendo a vez, tratou de avisar ao desconhecido, que retrucou.

_Pior é a trombose, minha filha? É tempo demais socado numa cadeirinha. Mas comigo não, viu? Comigo, não…

Ela riu.  Mas pouco. Que tem coisa que chama. E o bicho quando vem, vem com força de enxurrada. Geralmente sem nem tempo de assentar. Ao menos com ela foi assim.

Quando viu, o comichão já lhe subia pelas pernas, azulando a boca e o seu entorno. Com a angina supurando no tacho, que nem doce.

Saiu de lá carregada, com o povo todo em cima. E o garoto do guichê, correndo logo atrás, Ei, psiu! Ô, dona, aproveita que saiu o número do protocolo. Vai querer anotar, não?, e deu de ombros, Azar o seu…

Silêncio absoluto no recinto. Que durou pouco. Já que se lançaram sobre ele. A clientada toda. Revoltada e convulsiva.

De fundo, só ela. Lá na maca, aplaudindo e assoviando. E entre uma coisa e outra ainda arrumava forças pra gritar, entusiasmadíssima, Bravo! Bravíssimo…

azar seu

É da Veja?

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_Senador, precisamos conversar – anunciou enquanto tomava lugar à mesa.

O outro, macaco velho de tantos carnavais, achou por bem se acercar de garantias.

_Não é por acaso da Veja, é? Nem da Folha? Estadão só atendo se for dos Classificados, é que anunciei meu chateau em Borgonha e estou aguardando retorno…

_Sossegue excelência, que estamos no mesmo barco.

_Barco é pra pobre, meu rapaz. Jatinho pago por doleiro é que é negócio. Ou era. Antes das delações premiadas. Quando ainda se faziam pronunciamentos com tranquilidade, sem essa bateção de panelas dos diabos. Anote aí: majorar os impostos sobre caçarolas, tachos e frigideiras…

_Melhor não, senador. O povo tá uma fera.

_Ofereça um ministério a eles. Ou a participação em alguma refinaria. Pasadena, por exemplo. Anda muito na moda. E fica no Texas. Onde foi filmado Dallas. Menino, eu era fã do J.R.

_Eles não querem nenhum ministério.

_Querem, não? Então devolva. Vou sublocar.

_Mas e o povo, senador?

_O que é que tem?

_Os eleitores estão nervosos.

_Rivotril neles.

_Hein?

_Dizem que yoga também ajuda. Mas prefiro alopatia. Mais eficaz, lembrando que dá pra ganhar unzinho em cima. Sobretaxar, entende?

_Precisamos ser mais assertivos, excelência.

_Concordo plenamente.

_Mais práticos. Efetivos.

_Sem a menor sombra de dúvida.

_Combater definitivamente a corrupção.

_Também não é pra tanto, né, meu filho – e continuou, advogando em causa própria _ Afinal, o que é a corrupção? Oras. A corrupção surgiu na antiguidade. Durante o período paleolítico. Na época o partido de ocasião era o Arena. Que derivou mais tarde no PSD, que por sua vez antecedeu o PMDB, o PTB, o PC do B, a CET e a CBF. Embora eu considere que o PSDB, pela numerologia, seja uma das siglas mais auspiciosas. Se bem que PCC também é forte e de fácil memorização. Mas a conotação é negativa. E por que é negativa? Culpa de elementos mal-intencionados, (está me acompanhando?), que deturparam a imagem da máquina pública nacional. Concorda comigo? Isso tudo sem esquecer que o congresso é uma casa de leis e como tal não podemos nos isentar de pensar na crise hídrica enfrentada pelo nosso país. Que é um estado laico, graças a Deus! Modelo democrático que respeita tanto quem defende a liberação da maconha para fins estéticos e terapêuticos, quanto aqueles terminantemente contra. E digo mais…

Justo quando a secretária surgiu à porta avisando, Senador, precisam lhe falar. É urgente!

_Não é da Veja, é? Se for da Folha, digam que não estou. Agora se ligarem dos Classificados do Estadão…

É da Veja?

Sei não…

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Estava lá o moço. Matutando em como discotecar a última noite de carnaval da turma lá do bairro. Marchinhas. Decidiu por uma sequência inteira delas. E precisava da melhor de todas pra abertura.

Começou com essa, Roubaram o coração da minha sogra. Botaram o coração de um jacaré…

O pai que ouvia meio de lado, fez questão de opinar.

_No seu lugar, tocava outra.

_Por quê?

_ Os tempos mudaram, meu rapaz. Na minha época, a gente ria de tudo. Fazia piada adoidado. Mas, agora, maus-tratos contra animais configuram crime. Vai que alguém do IBAMA escuta um trem desses. Do Greenpeace, então, piorou…

Sob esse ponto de vista, melhor procurar mais um pouco. E mandou, Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é. Será que ele é…

O pai rebateu. Na hora.

_Olhe a homofobia…

O fulano tentou outra, Eu mato. Eu mato. Quem roubou minha cueca…

_Apologia à violência…

As águas vão rolar. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar…

_Incentivo ao uso indevido de drogas. Lícitas ou ilícitas…

Negâ do Cabelo duro. Qual é o pente que te penteia…

_Negâ, não. Afrodescendente…

A pipa do vovô não sobe mais…

_Estatuto do idoso. Parágrafo único. Artigo quarto…

Até que o guri se encheu. E mandou ver no hino nacional. Tocado naquelas alturas.

_Sei não – ponderou o patriarca _Depois do Petrolão e com essa economia do jeito que está… Num sei não

Sei não

Tem pau de selfie aí?

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Mais trânsito e ninguém anda. O dia estava de pirraça com ela. E pretendia continuar.

_Passa tudo! Passa tudo!

_Que passa tudo, o quê, moço? Sabe há quanto tempo parada nesse cruzamento?

_Grana. Quero toda a sua grana!

_Pois chegou tarde. Já levaram tudo. IPVA. IPTU. DPVAT. Material escolar. Sobrou nem cartão. Se fizer muita questão devo ter ainda umas duas folhinhas de cheque metidas nalgum canto. É pegar ou largar – e mudando de pato pra ganso _Queria só saber quem foi o engraçadinho que inventou essa pataquada toda de final de ano. Que o meu tá lá. Inteirinho. Encavalado nas sobras de dois mil e treze, dois mil e doze, dois mil e onze…

_Dona, perdendo a paciência.

_Só você? Imagine que a minha amiga, Josephine, levou seis horas de Diadema a Ubatuba. Pode isso?

_Vou explodir! avisando…

_Assim a coisa muda de figura, que o problema é hormonal. Já tentou reposição?

O marido boquiaberto não acreditava no que via.

_Que cara é essa, Pedro Henrique? Fale. Conte pro moço – e saiu descascando o santo _Minha sogra que andava assim. Uma pilha. Foi fazer reposição e pronto. Melhorou num zastrás. Sarar, não sarou. Que também é querer muito, conhecendo a cascuda da tua mãe – e voltando-se ao assaltante _ Não a sua, moço. Que deve ser uma mulher muito fina. Sei. Morreu, é? Peninha. Deus a tenha em muito bom lugar, viu?

Acontece que o cabra cansou. Catando o marido da doida pelo cangote, foi logo avisando.

_O celular ou ele morre!

Nenhuma reação.

_Ande, Gracie Kelly Regine, atenda logo o moço. Antes que…

_Calma, Pedro Henrique, cê é muito impressionável. Papagaios! Uma pressãozinha de nada e já desanda – dando um tapinha camarada no delinquente _ Mata nada, que o colega é gente boa. Quer ver só? Palmeirense. Acertei?

Com marido envermelhando. A ponto de estourar.

_Credo, Pedro Henrique! Deixa nem a gente conversar direito – ranhetou ela, passando a carteira. Pra exigir na sequência _ E pode ir zarpando que o celular eu num dô, num dô e num dô. Pronto. Emburrei. Feliz agora, Pedro Henrique? – indicando o marido ao meliante, que meio corpo pra dentro do veículo, ainda não se movia _ Quer? Pois fique. Que esse aí só me azucrina. Isso quando não pede pra eu coçar. Vê se tem cabimento…

Mas reconsidera e recua.

_Faz o seguinte moço, esquece o Pedro Henrique, que o pobrezinho é arroz com chuchu, mas é tudo o que temos pro jantar. Então, pra não perder a viagem, aconselho o senhor a ficar com a minha sogra. Que a velha é bem de vida, viu? Barbaridade! Carros. Motos. O diabo. Fora o casão de três quadras e meia, que vou te contar uma história – não satisfeita, prolongou _ Tem pau de selfie aí? A gente bem que podia mandar umas fotos pra ela. Que acha, hein, Pedro Henrique?

Tem um pau de selfie aí?