O bonde da Jana

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Pense em um lugar que agregue. Pois é. Não era nem de longe o caso.

Falo de um banheiro. De balada. Mas, ainda assim, um banheiro. Com ela dentro. Chorando. Mais que loucamente. De sóbria, só a amiga, pererecando em volta e insistindo:

_ Êta, Jana! Também não é pra tanto…

Ao que a outra responde, aos prantos cuspidos _ Culpa sua! Dona Maria-Conversinha-Mole. Fui te ouvir, olhe no que deu! E agora, Einstein? Resolva. Quero ver…

_Ô, gente, qual o problema com essa garota? – quis saber a pescoçuda. Lá do canto. Segurando quinze bolsas e esperando sua vez.

Novos e curiosos olhares. Foco cem por cento nela. Numa Jana histérica. Maquiagem liquefeita e escorrendo. Praticamente morfada em panda (se é que isso ajuda na compreensão do quadro geral).

_Tá. Tá – admite a amiga, num prenúncio de mea-culpa_ Eu até que sugeri, mas quem beijou foi você. E juro que nem sabia do outro…

_Opa, opa, opa – acodem umas várias, mexericando o futrico alheio _ Dá pra explicar isso direito? Que outro? Quem mais?

_ O outro é o Fagundes – animou-se a narradora _O caixa-forte da casa…

_Que é o namorado dela? – arrisca uma, tentando adivinhar.

_Não. Esse é CASO. E já faz um tempo, né, fofis?

Mas a fofis não responde, só espuma. Prestes a voar na jugular da tagarela-ex-amiga-dedo-duro, que segue descrevendo, na maior tranquilidade_ E estaria tudo bem, não fosse a Jana encontrar o Freddy…

_Que é o namorado dela? – dobram as apostas. Agora, em maior número.

_Não. Esse é PEGUETE…

_Vixe… – cresce o zum-zum-zum na roda (deixando sem cadeira a tiazinha da faxina. Que, aliás, largou mão do rodo e balde, pra poder ouvir, também).

_Bem quando chega o Ozório…

_Ozório? – quem pergunta é a loirona.

_É. Esse é o NOIVO. Também dela, da Jana…

_Ei! Tem alguém aqui tentando fazer xixi… – a reclamação vem da última portinha.

_Segure. Mire. E pense em água corrente _ responde uma Jana atordoada.

_Que Mané-Segure-E-Mire? Tá doida? – era a amiga, aquela metida a radialista, tentando demovê-la do transe.

_Ué, funciona com o meu filho…

Do fundão vem a pergunta_ Ô, Jana, o guri é filho do caso, do noivo ou do peguete?

_Do EX – diz a pobre, visivelmente fora de esquadro.

_Deixe ver se entendi – acrescenta uma magrelinha, se achegando ao grupo, num assanhamento daqueles _Você é noiva. Tem um caso, um peguete e um filho, tipo nenhuma das opções anteriores, certo? – a essa altura, era difícil abrir caminho no banheiro apinhado_ Menina, sou sua fã!

Um Buá homérico corta os ares e a graça _Ô, Sem-Noção, não tem mais o que fazer, não, minha filha? – reclama uma da audiência.

_Vê bem: não sou popular. Uso aparelho. E pra piorar, sem traço de peito, nem sombra de bunda. Sendo assim – pede licença e senta_ Não volto pra pista, nem a pau, Juvenal – e acrescenta _ A propósito, alguém aí tem cigarro? “Tô” mega-a-fim de um peguinha…

Eis que a irritadinha da bexiga cheia se revela. Marcha rumo ao cerne da bagunça e diz pra panda, (ou melhor, Jana) _Será que dá pra fechar essa tramela?

Nova e irritante crise convulsiva. Aos berros. A desconhecida, muito da desagradável, não se sensibiliza, nem um cisquinho, com aquela cena toda. E adverte, na maior má vontade _Alguém segure essa desestabilizada, que vou lá fora e acerto tudo – fecha a cara por completo. E segue. Na pista não se detém. Sai catando. Nêgo a nêgo. Sem deixar ninguém de fora.

Mais que rapidamente, a amiga-narradora reassume o posto de comando (com a fuça presa a janelinha basculante) _ Jesuis! Parece que contou foi tudo…

_Tudo? – desesperou-se a Jana.

_Tá tudo virado num  “fuê” sem tamanho. Ninguém se entende. E parece que vai ter briga – silêncio absoluto. Olhos cravados nela, que segue desfiando _ A “Tensinha” tá no meio. Embarrigando os três. Mas, espere um momento: está levando o peguete prum canto e… Caramba! Essa mulher tem brio. E gosto…

_Que gosto? – quis saber a Jana.

_Bom gosto! Tá dando o maior cato no peguete e… Nãooooo! Cruzes! No noivo também…

_”Cuméquie”?

_E seu caso foi lá…

_Tirar satisfação? _ quis saber alguém.

_Imagine! Casquinha mesmo. Aquilo está é uma sem- vergonhice só! Deus que me perdoe…

_Eu vou lá! Eu vou láááááááá – era a Jana pista adentro. E a galera no encalço.

A confusão foi completa. Mais que isso. Medonha. Com noivo atrás da panda. Panda atrás da moça. Moça a fim de enguiço. E enguiço era o que não faltava.

No banheiro, só a magrelinha. Ali. Engastalhada a porta. Sem perder sopapo que fosse. Pena não ter um cigarro. Mas, quer saber?  E deu de ombros, Caracas!  Muito massa esse banheiro. Sério, mesmo…

Signo de aquário

2 Comentários

Costumavam conversar durante o almoço.

_Três a um foi pouco. Faltou ensacar de cinco…

_Pelo menos venceu. Pior o meu, que perdeu no apito. Nem esse prazer eu tenho mais…

Foi a deixa que faltava_ Por falar em prazer, e aí? _ quis saber Romualdo.

_ Você é quem manda_ emendou o outro _ Uma esticadinha até que cai bem.

_ Esticadinha, nada. Noitada matadora. E é hoje. Pegar ou larga!

O amigo deu mais uma garfada. Das boas. E Romualdo continuou_ Abriu uma casa nova. Assim de mulher gata. É só escolher e pedir pra embrulhar_ rindo alto, satisfeito da própria piada.

O outro, acessando seu iphone, coçou a barbicha rala e ponderou_ Sei não…

_Sei não, o quê, “rapá”?

_Aquário (você é aquário, não é?). Está escrito aqui: Vênus deixou seu signo para trás. Dia pouco auspicioso para conquistas e envolvimentos…

_Pare com isso, ô, bobão_ ralhou, Romualdo_ Tô falando de bunda e vem você com papinho de comadre. Quando quiser que leiam minha mão, eu te chamo.

_Depois não diga que não avisei_ muxoxou o colega de mesa.

_Não amola. Te pego às onze. Cada uma…

Antes das doze badaladas, os dois já pipocavam animados, chacoalhando entre as rodinhas de modelos, patricinhas e descoladas. Para onde olhassem, elas eram magras, altas e lindas. Umas mais. Outras menos. Mas ainda assim, lindas. Numa média de fazer lobo-bobo salivar.

Pareciam abelhas no mel. E adivinhem quem era o potinho doce da rodada? Ele, mesmo. Romualdo. Nem sabia por onde começar _É o cheiro_ disse ele ao amigo_ Sente aqui: essência de macho-alpha-pegador. Elas adoram!

Uma morena de um lado, uma loira do outro e de cara no decotão da terceira. Romualdo era só pose. O rei da conversa mole. O cara certo. Fino trato e gentileza, em abundancia e a seu dispor.

E a noite seguia. Ele se exibindo. Elas suspirando. Ê, delícia!

Foi quando um Ooooooi se materializou, meio que vindo do nada. Ele não tomou conhecimento. Ela insistiu. Novamente_ Ooooooooi…

De rabo de olho percebeu o rosto ligeiramente familiar. Feio. Mas ainda assim, ligeiramente familiar. Destoante daquele oásis de charme e appeal.

Outro Ooooooooi indicou que o arenque dessalgado não ia arredar pé. Melhor atender aquele telefone. Mas era tarde. A ligação já caíra na secretária _ Lembra de mim?

Na verdade, vagamente. Mas achou por bem não entregar. Nem estender. Talvez ela cansasse e fosse assombrar em outra freguesia.

_Sou eu. A Cici.

Que câimbra_ Ah. Oi. Cici _ olhos curiosos se voltaram para os dois.

_Você falou que ligava. Fiquei esperando. Semanas_ a essa altura, a morena já se desvencilhara dele e procurava outro interlocutor. Um mais disponível. E que ligava quando prometia.

De homem dos sonhos a canalha num rasante.  Foi a vez da loira ir embora. Sobrou só a do decotão. E a feiosa entre eles. Ali. Parada. Olhando.

_ Então, Cici, tudo bem como você? _ tentou contornar

_ Tô ótima. E você?

A do decotão sentou para assistir. De camarote.

_Sei. Sorte te ver aqui…

_Sorte nada. Insistência mesmo. Nem imagina a dureza que foi te achar. Só hoje já fui ao Mokai, Clube A, 3P4, Pacha

Ai. Ai. Ai. De onde saiu essa encrenca, se perguntava ele. Sabia que o álcool induz a erros. Alguns homéricos. Mas isso já era ridículo. Estava prestes a perder a peituda também.

_Será que tá certo? _retomou ela, insistente.

_O quê?

_Meu número. Quer conferir? Vê aí. Vai ver não adicionou o nove antes do…

_Tá certinho. Tenho certeza. Deu ocupado. Foi só isso…

_Jura? Engraçado _ e pensando mais um pouco_ Ninguém me liga. Fora a tia Ana. Ou o tio Pedro. Mas esse, só a cobrar_ e continuou_ Deve ser a operadora. Posso mudar. Qual é a sua?

Cadê a do decotão? Gente! Cadê a do decotão?

Da essência de macho-pegador, sobrou só o bodum de pilantra-canastrão. E esse ninguém queria. Só a Cici.

Então era isso. Fim de festa pro senhor Romualdo.

Amanhã trabalharia até mais tarde. Emendando viagem longa em muita correria. Balada, agora, sabe lá Deus quando. Mas, dessa vez, estaria preparado. Checaria tudinho: búzios, astros, runas e tarô. Não que acreditasse muito nesses coisas. Mas prevenir ainda é melhor que remediar. Pois pra encosto que encrua, não tem descarrego que chegue. Aí, meu filho, só rezando muito. De joelhos. E no milho! Cruzes…