Vovó Gamers Club

8 Comentários

Aconteceu como todos os dias. Com a mãe saindo pra trabalhar e deixando a avó de olho no menino. Que jogando estava, jogando continuou.

Assim passaram a manhã todinha. Sem novidades. Com o moleque grudado ao console e a TV. Não fosse um piriri fora de hora, acabando de vez com toda aquela brincadeira.

_Vó, corre aqui. Joga por mim, vai? Dois minutinhos… – gemeu o garoto, barriguinha entre as mãos.

Sei não, reclamou a senhorinha, Sei não…

Continuar Lendo »

Problema na Parafuseta

2 Comentários

Alguns conceitos já eram. Aquele papo de onde comem dois, comem quatro, por exemplo, morreu. Culpa de quem? Da tecnologia.  Quer ver só: dê um tablet a uma criança e você tem sossego. Por horas. Dias. Até Meses. Agora, experimente acrescentar mais duas crianças a essa cena e tem-se um princípio de intifada. Que vai do popular, Mas, mãe, é meu… Ao não menos famoso, Tia, ele não quer emprestar

Com a vó Celinha foi mais ou menos assim. Visto que a história também tinha crianças. No caso, os netos. E um computador, que ela precisava usar. Mas deixem que explique direitinho…

Vó Celinha, como o próprio nome indica, é uma velhinha gente boa. Dessas fáceis de gostar. Que andava amuada havia meses. Por conta da saúde, coitadinha, começando a incomodar.

Se não eram as costas, eram as pernas. Ou as ancas. Pior, mesmo, só a menopausa. Quando o corpo todo requentava. Com a vó Celinha fervendo por dentro e por fora. De um lado, ela, entrincheirada. Do outro, eles, os hormônios, enlouquecidos e em baixa. Incendiando ônibus e depredando patrimônio público em plena Avenida Paulista. Vixe

A neta veio em seu socorro _comigo, vózinha, que o Pezão te conserta num tapa

_Que Pezão, o quê, menina-doida? 

Ela riu e explicou _ Estudamos juntos, vó. Vai por mim. O Doc é fera…

E vó Celinha cedeu. Do jeito que sofria, pouco importava se era o Super Maneta ou o Profe Sovaco. Destampando a chaleira, estaria de bom tamanho.

Então, foi. Arrastada pela neta. Que chegando ao consultório, cutucou _Aproveite e calibre, vó. Dê uma aditivada na “coisa”, pro vovô ficar contente…

_Que é isso, menina?  Demorô tanto pro velho sossegá, e vem você querê ligá ele de novo? Credo!

Emburrou. Até que foi chamada. E do jeito que entrou, saiu: contrafeita e resmungando. Só que lotada de feromônios, suplementos, cremes e recomendações. Além, é claro, da promessa de um breve retorno. Munida de melhoras e resultados.

Sossego foi o que faltou. Principalmente ao seu Leopoldo,  Aí, vô. É fraco, não, né? Depois da geralzona da vovó, melhor deixar as barbas de molho. Só por garantia. Pra não decepcionar…

Tanto fizeram que ele especulou:

_É verdade isso aí que as crianças andam falando?

_Ô, Leopoldo! Tenha a santa paciência, meu filho… – tamanho rebuliço deixou vó Celinha ressabiada. Onde há fumaça…

 Resolveu fuçar. Começando pelos laudos. Era só abrir uns envelopes e…

_Que envelope, nada, vó. Hoje em dia é tudo online.

_E faço como?

Era o caçula quem ajudava _Clique aqui, ó. Isso. Digite sua senha e código. Pronto. É só ler. tudo aí, tim-tim por…

_Só um instantinho. Preciso do micro, agora! – era o Toco, neto mais velho, estudante de mecânica e dono do computador_ Tenho um laudo de motor avariado pra redigir e enviar.

Foi a vez da senhora responder _Pode usar, querido. A vovó espera…

_Valeu, vó – até que não demorou muito. Laudo enviado, salvo e minimizado na tela plana do computador.

E assim foi. Trocentas vezes. Um neto após o outro. Desembestados. Com um trem qualquer de última hora e máxima urgência que não podia esperar. E o computador encheu-se de arquivos. Todos devidamente salvos e minimizados, esperando pelo próximo usuário.

Quando a casa sossegou, vó Celinha perguntou mais uma vez ao caçula:

_E agora? Como vejo meus exames?

Ele, sem tirar os olhos de um brinquedo qualquer que empunhava, apenas disse _ Abra e leia, ué…

. Mas, o quê? E como? São tantos ícones e caixinhas. Tudo tão igual. Enfim. Se todos os caminhos levam a Roma, qualquer um deve valer. E clicou onde bem entendeu. No primeiro arquivo que viu, que por acaso era do Toco. Aquele. O neto mecânico. E curiosa como estava, nem notou a diferença. Pigarreou. E começou a ler.  Em voz alta. Até parar, estarrecida, Virgem mãe e santa…

Perdeu a cor e a graça à medida que corria o texto. Mas, seguiu. Abestalhada.

Além do desgaste rotineiro, foram detectadas áreas de corrosão excessiva nos dutos de lubrificação. A falta de óleo afetou irremediavelmente a resistência das paredes internas. Sem falar no elevado nível de atrito nas rotativas e na baixa aderência no comando de válvulas…”

Engoliu em seco. E continuou.

Nota-se aqui um caso extremo, onde a solução mais indicada é o uso de aditivos. A aplicação regular de Bardahl B12 tende a facilitar a entrada, além de suavizar o sobe e desce dos pistões, independente do perímetro, tamanho e da força aplicada…”

Na sequência, o baque seco. E o caçulinha que gritava.

_ Gente, acode aqui! A vó Celinha desabou!

Imagem

O Rega-bofe

6 Comentários

Só pode ser castigo! Não bastasse a dor de cabeça lancinante, tenho ainda pela frente quatro longas horas dirigindo. Rumo a mais um mega casamento mico. Com a trupe toda a tiracolo: vovó Estefânia, tia Fefa e minha irmã, Lurdinha, acompanhada pelos pentelhos mais novos.

Quarenta minutos só para assentar o pessoal no carro. Finalmente a estrada. Só mesmo a Teca, prima hippie-chic, com fama de lesada, para casar em Ilha Bela em plena alta e escaldante temporada. Quando nada ajuda. Trânsito caótico. Calor infernal. Insetos insaciáveis. E eu. Que só queria lembrar melhor das curvas da Ritinha. Ah, Ritinha…

Agora, me diga: de que adianta ter vivido a maior noitada de uma vida, se não lembro quase nada dela pra contar? Tanto esforço. Tanto conversa mole. Quando finalmente rola, nem sei se estava mesmo presente. Culpa do Ivo. E suas saideiras sem fim. Cê me paga, Ivo! Vai ver só…

Hora e meia de viagem e a tia Fefa ronca alto. Em uníssono. Uma motosserra desgranhenta e irritante. Devastando o resto de paciência que trago comigo. Aproveito uma curva mais fechada e jogo de solavanco o carro para a direita. Titia resvala. Testa respaldada na janela. Mas a sinfonia continua. É. Tudo leva a crer que essa não será uma viagem das mais divertidas.

Espere aí: algo curioso prende minha atenção. E, pernas. Enganchando, de tal maneira em meus sapatos, que fica difícil acelerar, reduzir, ou frear. Nenhuma ideia do que seja aquilo. Mas, tudo bem. Investigo melhor assim que cessarem as reclamações quanto a minha forma pouco ortodoxa de dirigir.

Sigo chutando e coiceando. Com o carro pulando junto. Até a coisa desapegar. Sair voando. E ricochetear descontrolada. Pra pousar petulante, no colo morno de tia Fefa. Que resmunga. Funga e bufa. Só não acorda. Empurrando o trapinho longe. Meio pro meu lado.

Agora é questão de jeito. Mais algumas jogadas para cá e para lá e a coisa desconhecida se revela. Tem que! E assim vamos. Gingando e desdobrando. Gingando e… Travei!

Que raios uma calçolona creme, extra-GG-plus-size-all-you-can-eat, está fazendo dentro do meu carro? Sinal que eu não era o único fora de controle naquele fatídico ontem à noite.

Mas como? A final, é da Ritinha que estamos falando! Mas… E se a Ritinha, no final das contas, não fosse lá tão filé assim? Nem tão sexy, ou performática, como insistia em fazer acreditar? E se fossem as sombras? A propaganda exagerada e distorcida? A vontade indescritível de catar uma outra, que não fosse a minha, velha de casa e de guerra? Ou o uísque (que só podia estar bento. De terreiro. E pai de santo gozador)?

Calma! Uma coisa de cada vez. Primeiro, me livrar do caleçon! E rápido. Antes que percebam.  

Com a estrada parada, o jeito é apelar: insisto pelo acostamento. Costurando. Pinoteando que nem garrote assustado. Alguém, no banco de trás, improvisa um saquinho de indisposição, enquanto aguardam as máscaras de oxigênio, que custam a cair automaticamente _Ô, doido!  Preste atenção, criatura! Não sabe dirigir, não? Ô, Lurdinha, assuma esse volante! Misericórdia… – mas os meio justificam os fins. Com a danada da calçola, agora, em minhas mãos. Finalmente! É hora de parar no posto. A parentada toda desce. Mulheres de um lado e eu para o outro.

Lixeira aberta. Mas, na hora h, hesito. Lembro da Ritinha. Que nem era tão “inha” assim, mas fez bonito. E tornou memoráveis as parcas memórias que tenho do banco traseiro de meu Passat.  Olho pros lados: ninguém por perto. Experimento um beijinho. E uma cheiradinha básica na preciosidade. O tecido é fino e gelado. Bom até de sentir. Aperto o amuleto de encontro ao peito. E fim. Fim da Ritinha e do trapo velho. Ambos desovados numa lixeira qualquer de canto estrada. E caminho da roça. Mais que prontamente.

Estamos a dez minutos do hotel e a cerimônia já vai longe. Culpa minha. Tudo, sempre, culpa minha… Tia Fefa é a mais animada do grupo. Retoca a maquiagem. Ajeita o arranjo nas madeixas. Hora de descer e curtir o rega-bofe. Vovó Estefânia emperra.

_Ande, vó! Desça! – reclamam todos.

_Assim é que não vou! Quedê minha calcinha?

_Que calcinha?

_A que devia estar usando! E não estou!

O suor escorre, irrigando meu peito _ Tem certeza que veio com ela?

A velhinha me cata o colarinho _Você usa cuecas? – aceno, apavorado. Ela continua, sem mover músculo que seja _ E eu, calcinhas. E quero a minha de volta.  Essa é de festa. De estimação. Uso e guardo. Sem lavar, que não precisa.

Sinto um nó, comprido e apertado, embolando o baixo ventre. Lembro da lixeira e quero morrer. Ou me matar.

_Tirou pra quê? – é a tia Fefa, ao resgate.

_Calor – responde a velha.

_Credo! Calor bobo esse…

_A perereca é minha! Então não se meta – responde a malcriada.

_Manhê, a vovó não tem é um cachorro? – só agora lembram das crianças. Dois pivetes, que comemoram animados, a descoberta do novo bichinho da vovó.

_Ai… – lá se vai minha irmã. Arrastando os porqueiras para longe _ Depois eu explico. Depois eu explico…

_ Vão. Podem ir – diz a vovó. E virando-se em minha direção _ Você, não. Você fica. Pra ajudar a procurar. Só Mais um pouco. E… Fefa, peça pra montar um pratinho. Minha azia, meu bem. Tá terrível… Ah! E traz um vinho, também. Coisa pouca. Um cálice. Cheio e tinto. Sabe como é, né? Gostar, nem gosto. Mas essa minha pressão…