Feliz Ano Novo De Novo

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Tem quem meça o ano em curtidas. Em milhões. Em sucessos. Em saudades.

Mas seja qual for o seu referencial. Que ele venha repleto de possibilidades. E oportunidades novinhas em folha. Com coragem de sobra para reiniciar.

Que 2016 leve com ele o realmente não nos serve mais. Medos. Tristezas. Embustes. Percalços de todo o tipo e tamanho. Contas que nem mesmo eram nossas, mas que ainda assim acabamos pagando o pato e tocando adiante.

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Tem pau de selfie aí?

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Mais trânsito e ninguém anda. O dia estava de pirraça com ela. E pretendia continuar.

_Passa tudo! Passa tudo!

_Que passa tudo, o quê, moço? Sabe há quanto tempo parada nesse cruzamento?

_Grana. Quero toda a sua grana!

_Pois chegou tarde. Já levaram tudo. IPVA. IPTU. DPVAT. Material escolar. Sobrou nem cartão. Se fizer muita questão devo ter ainda umas duas folhinhas de cheque metidas nalgum canto. É pegar ou largar – e mudando de pato pra ganso _Queria só saber quem foi o engraçadinho que inventou essa pataquada toda de final de ano. Que o meu tá lá. Inteirinho. Encavalado nas sobras de dois mil e treze, dois mil e doze, dois mil e onze…

_Dona, perdendo a paciência.

_Só você? Imagine que a minha amiga, Josephine, levou seis horas de Diadema a Ubatuba. Pode isso?

_Vou explodir! avisando…

_Assim a coisa muda de figura, que o problema é hormonal. Já tentou reposição?

O marido boquiaberto não acreditava no que via.

_Que cara é essa, Pedro Henrique? Fale. Conte pro moço – e saiu descascando o santo _Minha sogra que andava assim. Uma pilha. Foi fazer reposição e pronto. Melhorou num zastrás. Sarar, não sarou. Que também é querer muito, conhecendo a cascuda da tua mãe – e voltando-se ao assaltante _ Não a sua, moço. Que deve ser uma mulher muito fina. Sei. Morreu, é? Peninha. Deus a tenha em muito bom lugar, viu?

Acontece que o cabra cansou. Catando o marido da doida pelo cangote, foi logo avisando.

_O celular ou ele morre!

Nenhuma reação.

_Ande, Gracie Kelly Regine, atenda logo o moço. Antes que…

_Calma, Pedro Henrique, cê é muito impressionável. Papagaios! Uma pressãozinha de nada e já desanda – dando um tapinha camarada no delinquente _ Mata nada, que o colega é gente boa. Quer ver só? Palmeirense. Acertei?

Com marido envermelhando. A ponto de estourar.

_Credo, Pedro Henrique! Deixa nem a gente conversar direito – ranhetou ela, passando a carteira. Pra exigir na sequência _ E pode ir zarpando que o celular eu num dô, num dô e num dô. Pronto. Emburrei. Feliz agora, Pedro Henrique? – indicando o marido ao meliante, que meio corpo pra dentro do veículo, ainda não se movia _ Quer? Pois fique. Que esse aí só me azucrina. Isso quando não pede pra eu coçar. Vê se tem cabimento…

Mas reconsidera e recua.

_Faz o seguinte moço, esquece o Pedro Henrique, que o pobrezinho é arroz com chuchu, mas é tudo o que temos pro jantar. Então, pra não perder a viagem, aconselho o senhor a ficar com a minha sogra. Que a velha é bem de vida, viu? Barbaridade! Carros. Motos. O diabo. Fora o casão de três quadras e meia, que vou te contar uma história – não satisfeita, prolongou _ Tem pau de selfie aí? A gente bem que podia mandar umas fotos pra ela. Que acha, hein, Pedro Henrique?

Tem um pau de selfie aí?

Repensando as divindades

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Ipanema. Lotada e meia. Com um primeiro de janeiro prestes a estourar. A contagem regressiva começa. Quatro. Três. Dois…

Eis que no mar se vê um clarão. Com ondas quebrando e dobrando em todas as direções. Fazendo a multidão recuar.

O empurra-empurra é tremendo. Todos correm. Menos elas. As amigas. Um grupo de seis vindo lá de Madureira. Com os cambitos devidamente submersos em aguas claras fluminenses.

E de lá não arredam. Não sem antes saltar sete ondas. De jeito nenhum.  Nananinanão. Fincam de vez o pé na areia. E esperam. Abraçadas. Torcendo pelo melhor.

E é ali. No epicentro do olho de peixe marinho, que surge ela. Iemanjá. Plena em bruma e glória. E montada num jet ski Kawasaki Ultra 300X. Rosa. Chiclete.

As meninas enlouquecem. E vão chegando. Mais pra perto da entidade.

_Mãezinha, mãezinha – grita uma delas.

_Mãe uma ova, que nem parecer contigo eu pareço! Ainda se fosse sua irmã mais nova. Ou uma prima rica e distante. Mas, mãe? Tenha a santa paciência…

Essa murcha e outra toma o seu lugar _ Iemanjá – ela grita_ Sou eu! A Aninha!

_E por acaso te conheço? Aninha, é? Deixe-me pensar um instante – batuca a fronte lisinha _Não. Nenhuma chance. Pegou senha? Ah, que pena. Final da fila. Passar bem – e acena em direção à praia _ Próximo!!!

_Mas…

_Ainda aqui? Escute só, meu bem: eu sou uma divindade, está me entendendo? Um ser de luz. Preferência nacional. Percebe? Então, se mande. Se quiser, volte depois. Na maré baixa. Aí, a gente conversa… Próximo!!!

Entreolham-se. Abismadas. Mas é Iemanjá. Talvez um pouco descompassada. Meio azeda. Mas ainda é Iemanjá. E não dá pra desperdiçar uma oportunidade como essa.

Por isso se cutucam. Até alguém tomar coragem.

_ Eu vim aqui para pedir…

_Pedir! Pedir! Pedir! Não dá pra mudar um pouco o disco, não? E aquele papinho de oferenda, como é que fica?

_Mas eu te trouxe algo – ela tenta continuar.

_Jura? O quê? Não é esse espelhinho furreco que traz na mão, não, né? Escute aqui, nêga: sou uma orixá, não a Pocahontas! Aliás, nem índio topa mais essa tranqueirada de R$1,99. “Vê se cresce”, garota. Na próxima, tente um Dior. Ou um Chanel…

A mocinha ao lado é quem responde _ Eu te trouxe um batom…

_É da MAC?

_Hein?

_ Taí. Gostei da cor. Sabe se é à prova d’água? Lá onde moro é muito úmido. Um bolor só, menina, nem te conto. É só imergir pra borrar a cara toda. Ninguém merece…

_Que tal flores? – elas insistem.

_ A não, gente! Rosa branca, de novo? Ninguém aqui ouviu falar em orquídea? Girassol? Lírio amarelo? É, amarelo, sim. Por quê? Algum problema? Combate a icterícia e ajuda na memorização. Muito indicado pra escritórios, quartos e áreas pequenas de trabalho forçado…

Assombro geral.

_ E você? Que tá escondendo aí? – ela segue perturbando _ Sou vesga por acaso? Tô olhando na direção de quem? Você, mesma, minha filha. Nossa! Como hoje está difícil…

A pobre abre as mãozinhas e apresenta seu presente.

_ Um bolinho, é? Cê que fez? Só pode. Se tá ruim por fora, imagine por dentro. Olhe lá, hein? Se eu morrer de congestão, quero ver pra quem vão apelar. Faz o seguinte, minha flor: ofereça pra alguém mais simplinho. Quem? Sei lá…Tente as almas.  Ou o Cosme e o Damião. A Iara, mãe d’água. O Saci. O Boitatá. A Mili, das Chiquititas…

Outra se apresenta. Sem coragem de começar.

_Que cê quer? Fale logo, que hoje não tô benta…

_Quero um namorado – disse a feia. Muito feia. Mas feia, mesmo.

Iemanjá olha bem a moça e baixa o facho.

_Escute aqui, meu doce. Que tal tentar outra coisa?  Um prêmio Nobel? Uma mega sena?

Nada. A moça queria um macho. Pra amar e respeitar. Até que a morte os separe. Vigi…

Iemanjá suspira e começa a explicar_ Já ouviu falar em ecumenismo? Anda muito em voga lá pros lados de onde eu venho. Pois é. O importante é o cliente satisfeito. Então, se não dou conta, não tenho constrangimento algum em indicar- e continua _ Conhece a novena das pílulas de Frei Galvão? Pois é. Tome três. Em jejum. Ou melhor, treze. Quer saber? Arredonde pra trinta. E reze. Mas reze muito. Que tá difícil, viu? – e olhando o mundaréu de gente boquiaberto na areia, ela torna a gritar _ Próximo!!!