Feliz Ano Novo De Novo

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Tem quem meça o ano em curtidas. Em milhões. Em sucessos. Em saudades.

Mas seja qual for o seu referencial. Que ele venha repleto de possibilidades. E oportunidades novinhas em folha. Com coragem de sobra para reiniciar.

Que 2016 leve com ele o realmente não nos serve mais. Medos. Tristezas. Embustes. Percalços de todo o tipo e tamanho. Contas que nem mesmo eram nossas, mas que ainda assim acabamos pagando o pato e tocando adiante.

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Queridinha

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No cestão abarrotado de ofertas, um único top preto chamava a atenção. E duas moças brigavam por ele.

_Desculpe, mas essa peça é minha.

_Sinto muito, queridinha. Eu vi primeiro.

_Acontece que esse tomara que caia fecha direitinho com o modelito que escolhi usar, viu só?  – exibindo irritadiça uma tanguinha preta e branca.

Ao que a outra deu de ombros, pavoneando sua calçola drapeada branca e preta.

Nada feito. Nem prum lado, nem pro outro. E continuaram.

_O negócio é o seguinte: investi seis meses de salário numa viagem. E não há a menor chance de embarcar sem esse bustiê.

_Ora, não me amole, que excursão e romaria tem aos montes por aí. Já eu, vou de lua de mel, percebeu a diferença? – pra concluir, enfática_ E daqui não saio sem esse troço. Não, mesmo.

Deu-se a sinuca de bico.

_Mas eu preciso muito! – implorou a da direita_ Você não faz ideia do quanto nadei, corri e pedalei só pra caber nesse conjuntinho…

_E daí? – ranhetou a da esquerda_ Pior, eu. Que não vejo carne, nem se mordo a língua. Varada de fome há meses, de  caldo em sopa e de volta ao caldo – pra concluir o raciocínio veementemente_ Sendo assim, minha filha, nem vem que não tem, que esse biquíni você não leva. Palavra de honra!

Daí em diante, era caminho sem volta. E sabiam disso. Cientes de que somente uma sobreviveria ao embate. Onde apenas o interlocutor mais letrado prevaleceria.

Então, tomaram seus lugares. Bem quando uma das fulanas, de dedo em riste, iniciou o ataque. Que começou assim, à queima-roupa.

_ Uni-duni… tê! – entoou ela, pra deleite geral.

Mas a resposta veio, a despeito das pernas que bambeavam.

_Salamê-minguê…

E a matança continuou. Por horas ininterruptas.

_Ilari- lari- lari- ê!

_Ô- Ô- Ô…

_Conga-la-conga!

_Conga-conga-conga…

_One-two-three-little indians!

_Peraí! Italiano não vale.

_É inglês – mas como as regras não eram claras, retrocedeu. Acrescentando, em seguida.

_ Chega! Cansei de ser boazinha. Agora, é tudo ou nada. E quem ganhar, leva. Custe o que custar.

Com as mãos escondidas atrás das costas, inclinaram-se. Depois, cerraram os punhos. Até que se ouviu uma voz fria e calculista, que conclamou.

_Joquem… pô!

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Faz assim, ó…

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Tem coisa que só faz quem precisa. Compra de supermercado, por exemplo. Nunca foi, nem há de ser, o programa favorito de ninguém. Mas apertou, a gente vai. Fazer o quê, né?

Como se não bastasse a dificuldade toda pra estacionar, os preços distorcidos, as filas quilométricas e o vuco-vuco insuportável nos corredores, tem ainda que me aparecer um moço.  Aquele. Todo sorridente.  E que se achega perguntando, Vai um cartão fidelidade hoje aí, madame?

Querer ninguém quer. E quem tem, rifa. Tanto que apelei, dando uma de João-sem-braço.

_É que estou com um pouquinho de pressa. Você me desculpe, viu?

_Imagine, sei bem como é – mesmo assim, insistiu _ Não toma nem um instantinho. Quer apostar? – e saiu desfiando _ Nome, por favor.

_Juliane.

Bem quando anotou.

_Jucilene…

_Juli-ane.

_Juli-ana.

_ANE!

_CLEIDE?

Mamãe, socorro!

Na dúvida, ilustrou.

_Faz assim, ó: vou por, Ju. Que tal? Fica mais íntimo. Mais gostoso, sei lá… – pigarreou e ofereceu – De quebra você leva uma revista inédita (Contigo, 1972. Cuja chamada era, Roberto Carlos é uma brasa, mora?).

Seguiu entrevistando.

_Sobrenome?

_Rosenbauer

_Rose… quem? – fez o que pode _ Gosta de Silva? É simples, forte e bem brasileiro… Não, né?  E que tal, Santos? – quando exclamou _ Ju Santos! Sente só o gabarito... – dando o assunto por encerrado, pra engatar em seguida –  Seu telefone?

Tudo que queria era sumir dali às pressas. Ainda assim soprei os números. Um a um. Articulando como pude.

_Nove. Nove. Oito. Cinco. Quatro. Quatro. Oito. Três. Um.

_Vamos lá – disse o outro, enquanto registrava_ Nove. Nove. Nove. Oito…

_Tá SOBRANDO nove – reclamei_ São dois noves, depois oito, depois cinco, depois quatro e…

_Perfeitamente. Vinte e nove. Oitenta e cinco. Quarenta e…

_Não! Agora tá FALTANDO nove…

_Alto lá, dona! Afinal, tá sobrando ou tá faltando?…  – e resumiu a lenga-lenga num repente _ Faz assim, ó:  esqueça o telefone. Tem vizinha?

Meneei que sim.

Ótimo, comemorou ele. E mais que prontamente escreveu, Recados com a vizinha…

Cuméquié? Começava a ficar cheia desse negócio todo. E o moço percebeu, tanto que anunciou.

_E você ainda ganha outra revista fantástica! – chacoalhando uma Manchete, que estampava na capa: Carmem Miranda de volta ao Brasil.

Quis trucidar. Mas não deu nem tempo, já que o tal fulano emendou na sequência.

_E se a gente fosse logo aos finalmentes, hein? Faz assim, ó: vou anotar seu CPF e fica o dito pelo benedito

Num instante tive vontade de abraçar e tirar o Zé Ruela prum bailado, mas me contive. Invés disso, saí enumerando.

_Um-meia-um. Zero-dois-zero. Um-cinco-oito. Meia-oito.

_Molezinha: um-dois-um. Zero-dois-oito…

Jesuisssss… Alguém me tire daqui!

Meu desespero foi tanto que o gajo reconheceu.

_Errei de novo, né? Putz…

Nem respondi. E ele completou, na maior cara de pau.

_Sem problemas, viu? fácil resolver. Mas, faz assim, ó…    

Faz assim, ó         

Moderno Demais Pro Meu Gosto

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Estava lá o pai. Prontinho e esperando. São Paulo versus Nacional de Medellín. Semifinal de Sul-Americana. Um jogaço prestes a começar.

Ele, tricolor desde nascido, roía dedos e unhas, trincando de nervoso. Achou por bem fazer um checklist: meias da sorte? Confere. Apito da sorte? Confere. Cueca da sorte? Confere. Com as equipes se posicionando no gramado, aguardando o início da partida. Quando surge um certo alguém a perturbar.

_Pai, no amor e na guerra, vale tudo?

_Hein? Vale. Vale… – Na dúvida, melhor atender e despachar rapidinho. A tempo de ver o Luís Fabiano tentar um rebote.

Bateu na trave, saindo pela linha de fundo. E antes que o bandeirinha marcasse impedimento, lá vinha o pixote outra vez.

_Homem e mulher, vale?

_Oi? – você de novo? _Vale.

_E homem com homem?

Tratou de segurar bem a língua, afinal, os tempos são outros. E moleque bom, é moleque esperto. Sendo assim, confirmou.

_Vale. Vale. Agora dê sossego que quero assistir ao…

_E mulher com mulher, vale?

Jesuissss. Será que essa criança não desiste nunca? Então, tá. Torceu um tanto mais o nariz, até que respondeu.

_Também vale.

_E se forem mais?

_Como assim, mais?

_Essa história, de homem com homem e mulher com mulher, só vale se forem dois?

Sentia o meio de campo embolando. Aliás, que tal uma rápida explanação sobre meio de campo? E se a gente falasse sobre arbitragem ou estudasse a trajetória da bola? Não gostaria de saber quem foi nosso melhor cabeça de área na copa de noventa e quatro? Não, né? É claro que não…

Sem outro jeito, retomou.

_Tá. Preste atenção. Dois é mais comum que três. Mas existem outras composições que vão além do casal convencional…

_Quatro?

Gente! Esse moleque tá com a moléstia…

_Sei lá. Acho que sim.

_E cinco, vale?

_Veja bem…

_E seis?

_Pouco provável… Em todo caso, vale.

_Nove?

_Taí algo que eu gostaria de ver…

Foi a vez do pequeno sumarizar _ Então, quando eu crescer, vale homem, mulher, dois, três, quatro, até seis de uma vez só?

_Bom, mais ou menos isso. Só não conta pra sua mãe, combinado? – sobrou tempo pra acrescentar _ escute uma coisa, filho: se puder ficar no trivial simples, papai lhe seria eternamente grato, viu? Se não der, tudo bem. Vou te amar de qualquer forma. Escolha você o que escolher… – o pai se mantinha sereno. Moderno. Compreensivo. E, absurdamente, sereno.

_Tá – lançou o toco de gente, mais cheio de ideias que antes – Entendi. Melhor se for menina. E melhor ainda se for só uma. Acertei?

Bingo! Lição dada e muito bem aprendida. Hora de voltar ao primeiro-tempo. E torcer, agarrado ao brasão do seu São Paulo, pois precisavam de sorte para virar. Muita sorte.

_Pai, e se ela for corinthiana, vale?

Perdeu por completo a compostura.

_Cuméquié? Não basta a gente dar a mão, que vocês querem logo todo o braço? – e repetiu pra ter certeza _ Uma corinthiana? Aqui em casa? – indignou-se por completo a criatura _ Sabe o que é isso? Falta de Deus no coração! Cadê tua mãe? Alzira! Ô, Alzira! Pegue esse indecente do teu filho e vá rezar. Melhor, mande benzer! Esse mundo perdido, mesmo… Papagaios…

Moderno demais pro meu gosto