Segundas Intenções

Deixe um comentário

Voltou para casa mais cedo. Eufórica. Perturbando a vizinhança inteira.

_Cês viram? Estreia nesta quinta: Marcas de um amor. Parte seis. A lenda continua. E aí? Quem topa?

Nenhuma resposta. Pelo contrário. A mãe alegou cansaço e uma crise reincidente de labirintite. A irmã, trabalho. E assim, todos. Um por um. Tia. Tio. Concunhado. Conhecida de porta. Mocinha que vende Avon. Até que colou numa amiga mais chegada. Com quem insistiu, à plena carga.
Continuar Lendo »

Ops…

7 Comentários

_Sua mesa está pronta, senhor. Queira acompanhar-me , por favor – pavoneou o garçom, sambando em frente da família. Pai, mãe e uma tripinha de filhos.

_Sejam bem-vindos – continuou o funcionário, enquanto lhes indicava as cadeiras_ Já sabem o que pedir? Não? O especial da casa, hoje, é espaguete com almondegas. O melhor do mundo. Não vão se arrepender.

Súbito, quando menos esperavam, retornou ele. Pratos fumegando e abarrotados de macarrão.

_Garçom?  – era o pai, reclamando_ Temos um probleminha aqui. Quedê as almondegas? Não vieram.

_Em absoluto, senhor –  devolveu o outro, destampando uma enorme travessa – Nossas almondegas são personalizadas. É que nosso cozinheiro é estupendo. Um gênio na arte das caçarolas _ e prosseguiu, servindo prato a prato _ Aparício, para o senhor, Zulmira, para a senhora e Huguinho, Zezinho e Luizinho, para as crianças.

O pai, arredio como era a novidades e suas pajelanças, fez cara feia e tratou de impor resistência, protestando.

_Desculpe. Mas deve haver algum engano. Essa almondega, definitivamente, não é minha. Já que sou Aparício Rodrigo.

_Certamente – admitiu o empregado_ Perdoe-me o erro, senhor. Estava aqui o tempo todo – trocando a pelota de carne por outra _ Aparício Rodrigo Bastes Coelho da Fonseca Torres Junior. Confere?

A mulher foi ao delírio. E pediu uma quentinha cheia. Quinze quilos, não mais. O suficiente para presentear a vizinhança toda lá no Morro dos Cabritos. Enquanto Aparício, visivelmente contrariado, buscava um novo jeito de interpor recurso. Tanto que desdenhou.

_ Nem essa. Já que sou engenheiro.

_Pois não – disse o rapaz, permutando a almondega mais uma vez _ Formado pela Federal Fluminense. Trinta e cinco anos de carreira. Que tal essa, senhor?

Mas o homem não desistia.

_Ainda não. Que sou espírita

Outra porpeta. Mais roliça e macia que as anteriores.

_ Centro Irmãos da Luz, toda terça e quarta. Das 19:00 às 21:30hs…

_Centroavante – gabou-se Aparício Rodrigo, Agora, eu quero ver. Vire-se com essa, meu filho…

Nova bolinha de carne.

_Camisa nove. Time dos casados. Não marca um gol há sete rodadas do campeonato…

Sei que a coisa ficou pessoal.

_Aí não diz que eu sou casado. Viu, só? Não é minha.

E as almondegas sucediam-se.

_Basílica do Imaculado Coração de Maria. Três pajens e uma festa meia-boca. Cinco de janeiro de mil novecentos e oitenta e um…

A verdade é que Aparício Rodrigo espumava, Onde já se viu? Almondega nenhuma sabe mais da minha vida do que eu!, e tiririca da Silva, vociferou.

_Colega: na cara que essa almondega não é minha. Compreendeu? NÃO-É-MINHA!

_E não é que o senhor tem razão?  – espantou-se o garçom, realizando nova troca_ Agora, sim: enrabichado da Zenaide. Há um ano, três meses e dois dias…

_Oi? – esbranquiçou o homem _ Não tenho a mínima ideia do que essa almondega está falando.

_Como não? Tá aqui ó: estagiária, curvilínea, atrevida e que mal completou dezenove…

Foi a vez da mulher entrar na dança. Com um golpe incisivo do seu salto agulha, acertando em plena fúria o dorso do pé do marido. Que gemeu. Enquanto os ossinhos estalavam.

_E com fratura na falange, tem? – perguntou ela. Toda interessada.

_Bom. Não sei – desconversou o funcionário da casa.

Novos solavancos e sopapos e saraivadas de tapas e beliscos.

_Faz o seguinte, procure aí : esfolado vivo, contundido, despejado… Que desquitado eu sei que tem. Certeza absoluta, viu? Olhe direitinho, que eu juro que você acha…

OPS

Quer Apostar?

9 Comentários

Sempre chorava em casamentos. E disso não fazia o menor mistério. Nas bodas de ouro de seus pais, então, soluçara e suspirara a festa inteira. Até que se assoando num lencinho, achegou-se a sua mãe, confidenciando:

_ Bom demais isso tudo de casar e ter família, né?

_Nem brinca, filhinha – comemorou a doce senhora _ E quer saber? Foi amor à primeira vista. Culpa dum diacho de pastel de pizza. Pode isso?

_Verdade?

_Por Deus –  e pôs-se a explicar_ Tava eu lá: esquina da Manoel Guedes com a Pedrosa Alvarenga. Esperando a chuva passar. Quando dei de cara com seu pai. Vindo em minha direção. Todo garboso. Abanando e assoprando um pastelão de todo o tamanho.

_E daí?

_Daí que me ofereceu. E eu não só aceitei, como comi tudinho – ainda fez graça_  O melhor pastel da minha vida. Uhhhhhh….

_E depois?

_Depois? Nada. Que a gente nunca mais se viu. Até que no ano seguinte, mesmo dia e mesma hora, trombei com ele de novo. Plantadinho na esquina a esperar por mim.

_Tá brincando…

_Seríssimo. Incrível, né? O resultado você conhece– suspiraram e despediram-se.

A moça, durante uns dez ou quinze minutos, deixou-se ficar ali. Entregue a magnitude daquele amor incontestável e grandioso. Segura de que não existia no mundo casal igual, nem parecido. Únicos em adoração, fascínio e cumplicidade.

Mas a verdade é que, no fundo, experimentava uma surda irritação, Bolas! E agora? Como é que eu fico? Onde vou achar alguém que chegue aos pés do meu pai, hein? Raios! Casar, eu? Im-pos-sí-vel. Quer apostar?…

Saiu triste e cabisbaixa. Ao passar pelo buffet, topou com o pai petiscando numa grande mesa. E resolver ajudar

_No duro: tudo divino, viu? De comer ajoelhada _ e piscou, cheia de intimidade_  Só  não tem pastel. Mas o enroladinho é de pizza. Sendo assim, bom proveito…

_ Eca, menina! Tomate me dá colite, esqueceu? Misturado com queijo, então, no mínimo, três dias de desarranjo garantido, se não for pior. Fora aquele orégano todo encalacrando nos dentes. Ui! Gosto nem de pensar….

_ Não parecia tão preocupado no dia em que se conheceram… – cutucou ela

_Eu pedi carne. Mas o pasteleiro se enganou e ainda cobrou dobrado. Ah, se fosse hoje…

_O recheio pouco importa. O que conta é que dentre todas as meninas da cidade, foi a mamãe quem você escolheu pra partilhar… –  emendou ela, tremendamente emocionada .

_Acha que é fácil repassar um pastel encharcado debaixo de chuva? Eu bem que ofereci, mas até o velhinho do realejo pulou fora. Só a sua mãe aceitou. Aquela esfomeada…

_Morta de fome, ou não, fato é que você se apaixonou por ela.  Perdidamente. E viveu um ano na mais platônica e cruel veneração – foi quando teve pena_ Deve ter sofrido horrores nesse período de solidão…

_Bom. Sofri e não sofri – desconversou o outro_ Acontece que naqueles tempos eu andava de enrosco com uma tal de Nice. Mas a mulher era uma encrenca, tanto que encerrei com ela e engatei num chamego com uma conhecida do escritório, a Dete. Sem falar na finada dona Dulce. E numa secretária que tive, a Sra. Olga. Se bem que a essa quase nem conta, já que era casada e tinha três filhos…

_Cruzes, pai! – ralhou a moça, decidida a remediar_ O importante é que você voltou. Um ano mais tarde estava lá. Aguardando por ela outra vez.

_Pra que remexer o passado, não é verdade? – resistiu ele, em sua ilimitada boa-fé.

Mas não deu jeito. Acabou tendo que confessar.

_Valcimar… Voltei por conta do Valcimar…

_Oi?

_O goleiro do Arapiraca do Norte, time onde eu era centroavante – relembrando o caso todo_ Era final de campeonato e marcamos de encontrar, bem ali, na viradinha da esquina. Mas aí a sua mãe apareceu, colando em mim, que nem molusco arribado em pedra…

_Putz…

_Nem me fale: faltei ao jogo, meu Arapiraquinha perdeu e foi mofar lá na sétima divisão. Até hoje o pessoal do clube me culpa por isso

_Veja pelo lado bom: pelo menos o senhor nunca se esqueceu da data do aniversário de vocês…

_Como se o Valcimar deixasse…- baixando de vez o tom de voz_ Entra ano e sai ano e esse homem ainda me azucrina. Se não liga, manda e-mail, whatsapp, o diabo a quatro. Também, pudera, né? Tadinho do meu Arapiraca, gente. Ai que dó…

Era tudo que ela precisava ouvir. Sendo assim, deu-lhe um beijo demorado, agradeceu de novo e, em seguida, foi pra pista. Prospectar. Aliviada e comemorando, Valeu, paizão! Assim, ficou fácil. Se ele pôde, eu posso, também. Uhuuuuuuu! Casar, eu? Mo-le-zi-nha. Quer apostar?…

Quer apostar

O Encosto

2 Comentários

Pense num casal comum, tipo seu pai e sua mãe, numa terça-feira sem nada de especial, em casa, preparando-se para dormir. E súbito, quando menos esperam, eis que chega um amigo, o mesmo fulano de sempre, convidando-os pruma saidinha.

_Está tarde. Vai que pego um vento e isso me ataca o ciático… – desconversou o homem, confortável como estava de pijama e chinelo.

Mas o compadre foi sumário.

_Deixe de bestagem, Juvenal. Agora, ande! Amanhã é outro dia…

O marido, indignado, ranhetou como nunca. Mas perdeu feio. Então fez barba, botou camisa, catou carteira e quando viu estavam lá. Aboletados num balcão de bar. Onde tomaram umas e duas e muitas. Tantas que logo se esqueceu do colega. Depois da vida. Tendo olhos apenas pra esposa, que a essa altura ria alto. Fascinada com o inusitado da coisa toda.

Difícil dizer que tanto eles papearam. Com ele cada vez mais grudado nela. Fato é que que mesmo sem música, ao primeiro ensejo, tirou-a pra dançar. Como se nunca a tivesse visto antes. Não, assim. Tão atraente…

Dali seguiram juntinhos. Namorando. Até o fatídico beijo à porta de casa. E da sala ao quarto. Num ballet suave e sem pressa alguma. Com a noite dando lugar ao dia. Demorou, mas finalmente sossegaram entre os travesseiros. Foi quando ela, num longo bocejo, despediu-se com suavidade, Boa Noite, meu Juvenal…

Sobrou a ele aconchegar-se rente ao rosto dela pra perguntar.

_Sabe guardar segredo?

Ela que quase dormia, sorriu, nem meneou.

_Sou o Juca. Quem é Juvenal?

Sei que entre ouvir e registrar a informação, a tal dona levou pouco mais que alguns instantes, ainda assim, quando pulou, já era tarde. Agora, quem dormia era ele. Profundamente. Feito um anjo.

_Juvenal? Acorda, homem de Deus! Quem é Juca? Pelo sírio da santa…

No dia seguinte, com efeito, seu Juvenal acordou descansado, bem-disposto, parecia outro homem. Ao contrário dela, abatida e desgrenhada, numa gastura de dar dó.

_E aí? – inquiriu ela, taxativa _ E tu? Quem é?

_Eu? – estranhou o homem_ O presidente da república, é claro! – e engrossou _ Tenha a santa paciência, mulher! Endoidô, foi? Passar a noite em frente à televisão dá nisso…

Ela petrificou.

_Não lembra que fomos dançar?

O outro, espiando por cima dos ombros, deu logo o diagnóstico completo.

_Arteriosclerose. Só pode – e aconselhou _ Vai rezar, vai…

Sei que a coitada desmoronou. Entrou numa crise tremenda. Primeiro, o receio de estar mesmo caduca. Depois, saudades. E o pavor desmedido de nunca mais topar com ele. O Juca.

Sorte dela que estava de passagem pela cidade uma tia velha metida a curandeira, dessas com receita de cobreiro a quebranto. E a anciã foi assertiva, O negócio aqui é encosto. E dos brabos, viu? Pior que pra mandar embora dá uma trabalheira danada. Tem que derreter vela. Regar com Mel. Juntar meia maçã. Um galo caipira de pescoço pelado…

Mas a receita ficou pelo caminho, interrompida bruscamente pela mulher em desespero.

_E pra trazer de volta? Como é que a gente faz?

Silêncio no recinto, que durou pouco, já que a velha ensinou.

_Fácil. Troque o galo por um punhado bem servido de pétalas de rosas.

Se é assim…, animou-se a fulana. Que partiu desvairada, tratando logo de providenciar as velas, as frutas, mas quando chegou nas rosas, uma surpresa, De que cor?, quis saber o florista.

Isso importa? Rosa é rosa, oras bolas!, e ficou tiririca. Tanto que comprou crisântemos.

Então, picou tudo, misturou bem e despencou sobre o homem, que quase morreu de susto em pleno banho matinal. Na sequência ela perguntou, na maior cara de pau desse mundo.

_Juca? É você?

_Cuméquié??? – bufou ele, xingando de tudo que era nome, numa longa lista que não me empolgo nem um pouco em transcrever aqui pra vocês.

É. Não era o Juca. AINDA

Afinal, sempre existe um amanhã, pensou ela, E se tem amanhã, tem feira. E onde tem feira, tem flor. E começaria pelas vermelhas. Que vermelho é paixão. Mas, caso não desse certo, tentaria as brancas. Uma vez que branco é matrimônio. Ou, então, as amarelas.  Não antes das azuis, é claro.  Se bem que champanhe também tem lá seu charme, né? Isso sem falar nas alaranjadas. Ou roxas. Ou…

dreamstime_l_39254093

Desarranjos Virtuais

6 Comentários

Trabalhava numas planilhas quando o computador tilintou, avisando da chegada de uma nova mensagem. Era um, Oi. Tudo bem?, de um homem que nunca vira antes.

Tudo ótimo. E você?, devolveu ela, que teria escrito mais. Ele, porém, não deu chance. Que o fulano era afoito e num instante pegou fogo. Então, não resistiu e saiu bombardeando.

_É casada? Divorciada? Tem filhos? Alérgica a gatos? Trabalha com quê? Mora onde? Tricolor ou Alvinegra? Liso natural ou faz chapinha? – e na sequência emendou, referindo-se a foto de perfil da outra _ Você lembra minha ex-esposa, sabia?

_Isso é bom? – retrucou a mulher.

_Não. Nem um pouco. Na verdade, péssimo. Sofri treze anos até me separar da infeliz. Aí foram mais quatro pra me refazer do baque – e pausou, com vontade de chorar. Sorte que a moça veio ao seu encontro.

_Sinal que era bonita…

_Qual nada – resmungou ele _ Tinha o rosto assimétrico e os olhos bem fora de esquadro. Mas era simpática. Quase sempre. E honesta. Bom. Nem tanto. Importante é que nunca foi presa.  Não que eu saiba. Nem roubou, ou traficou. Ao menos, não na frente das crianças…

Longo silêncio entre eles.

_Você é sempre tímida assim? – cutucou o moçoilo _ Lembra uma antiga namorada minha. Não fisicamente, claro. Já que era estrábica. E perdeu os dois caninos superiores numa briga de rua…

Novo silêncio.

_Gozado. Gostei de você, viu? De graça, mas foi. Empatia é tudo, né?

Silêncio ainda e ainda.

Foi quando ele mandou carinhas. Muitas. As primeiras eram apaixonadas. Depois vieram os corações partidos. As seguintes, furiosas. Enquanto as últimas gargalhavam de ir às lágrimas.

Foi bem aí que se despediram, com ela lembrando de um compromisso urgentíssimo pro qual inclusive já estava bastante atrasada.

Ele concordou, mas antes a fez prometer que voltariam a falar muito em breve.

Nem preciso dizer que a tal dona sumiu, né? Enquanto as mensagens dele transbordavam o inbox dela, Ei! Psiu? Cadê você, sumida? Fazendo jogo duro, né? Igualzinha a última moça que conheci por aqui. E as outras duas antes dessa, também. Ou será que foram três? Enfim. Se quiser sair prum “rolê-da-hora”, já sabe: seu tigrão tá na área, “baby”… Grooaaaaaarrrr!

E foi zanzar pela casa, inconformado, Não sei o que acontece com essa mulherada de hoje em dia… Começam bem, mas, em seguida, desandam. E vira tudo bicho do mato. Uma mais introspectiva que a outra. Vai entender, né? – e completou_ Em parte é culpa minha, admito. Quisera poder controlar esse meu magnetismo pessoal de macho alfa dominante, mas é involuntário… juro… espontâneo… tipo assim… tão eu…

dreamstime_l_5789530

Taí a prova…

Deixe um comentário

Não que fosse desordeira. Mas bastou um final de semana pra casa virar do avesso. Restou a ele andar se equilibrando. Desviando das roupas largadas pelo chão.

Ela, de cima da cama, cutucou.

_ vendo só? Taí a prova – e fungou, amuada_ E não se faça de bobo, sei muito bem onde isso tudo vai parar…

_Hein?

Com ela atrás, matraqueando.

_ Viu só o que você fez? Pulou minhas meias!

_Quer que eu cate? Eu cato…

_Quero que reclame.

_Oi?

_Quem ama, corrige, Pedro Augustus! Repreende. Endireita. E se você não disse nada é porque já não se importa mais com a gente. Menos ainda com o futuro dessa relação…

Foi quando ele olhou direto pra ela. Grave. Irredutível. E só.

_Que foi? Não vai dizer nada? Nem me chamar de louca ou acusar de estar mega-ultra-super valorizando coisas absolutamente sem importância?

_Não.

_Tá vendo só... – fungou ela _ Taí a prova. Num disse que não me amava mais…

Sei que ele puxou uma cadeira e foi sentar ao lado dela. Até aquela coisa toda passar, fosse lá o que aquilo tudo fosse.

_ me encarando, por quê? – bronqueou a moça, que se adiantou em responder_ Fácil: vai dizer que tenho o dom de empanzinar sua paciência e que devia ter mais fé no meu taco ao invés de ficar caçando sarna pra me coçar. Acertei?

Ele deu de ombros. E suspirou.

_Não.

_Tá vendo só… – muxoxou ela, ressabiada – Taí a prova…  – e entristeceu, montada num luto fechado.

Ele, meio sem querer e quase sem sentir, preparou corpo e alma pruma daquelas cenas terríveis. Com a outra aos soluços e descabelando. Perdida em especulações destemperadas e sem fim.  Por isso, aguardou. Mafuás sentimentais eram sua especialidade. E uma tormenta de raios com chuva grossa pespontava o caminho.

Então, do nada, ela arrefeceu. Bem assim, sem mais. E por infinitos segundos um silêncio absoluto reinou entre eles.

Súbito, um imprevisto. O telefone dele tocou e ela atendeu, repassando.

_É uma mulher. Pra você.

Ele? Nem bem atendeu, desligou. Desculpando-se.

_ viu, né? Despachei no ato. Com um quente e dois queimando…

_É. Eu vi.

_Era a Amanda.

_Tá.

_Não vai perguntar quem é a Amanda?

_Não.

_Nem querer saber de onde a conheço ou me chamar de sem-vergonha?

_Não.

Ele hesitou.

_ Já vi tudo: conhecendo você, sei que vai tentar tomar a força meu celular, vasculhar tudo que é mensagem e apagar uma a uma todos as bonitonas que encontrar nos meus contatos…

_Não.

Foi a vez dele trancar os lábios. Amuado até a espinhela. Pra fungar, aborrecido.

_Tá vendo só...Taí a prova…

dreamstime_l_36678869