Marré-Marré-Marré

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Chegava a ser esquisito. Toda segunda. Às dez e quinze em ponto. Cem reais. Guichê três da Lotérica Sorte Grande. E a semana não era a mesma se não apostasse. Não, senhor. Tinha que ser na sena, ouviu bem? Que não era sujeito de se render a esses trololós de raspe e ganhe.

A caneta eram outros quinhentos.  Ponta fina. Preta. No bolso esquerdo da calça.  Daí mordia a tampa seis vezes. Três para cada lado. Benzia a testa. Estalava a língua. E, finalmente, ungido das dezenas mágicas, riscava os volantes. No ritual de sempre: jogar, ganhar, perder, continuar.

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Aqueles Dois

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Olhava a travessa atulhada de comida a sua frente, com a nítida impressão de que passara da conta.

_Lá se vai minha cintura – ressentiu-se ela, segura de que nunca em sua vida chegaria ao fim do dantesco prato.

_ Imagine – devolveu ele, enchendo a taça e a bola da moçoila _Você é linda, meu bebê. Uma boneca. Mulher nenhuma chega a seus pés.

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Manual de Sobrevivência ao Fim do Mundo

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Não sei você, quanto a mim estou convencida: nasci passada da hora. Pior. Tenho nem como negar. Sou assim. Sei lá. Saudosista. Dessas que creem piamente que felizes eram os outros. Aqueles. Os famosos habitantes de trasantontem. Já que, por aqui, o tempo fechou, colega.  Empretejou.  E foi de vez.

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Simples Assim

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Pelo. Pouco ou muito, todo mundo tem. Homem nem liga. Tem até quem ache bonito. Já a mulherada reclama. Menina-moça, odeia. Daí vale tudo. Creme. Descolorante. Pinça. Reza. Ou colar aos pés da mãe azucrinando, do jeitinho que foi lá em casa. Com a muchachita insistindo e perturbando até não poder mais.

_Mãe, me leva ao salão? Leva? Por favor.  A fulana, vai. A beltrana, também. A cicrana, virou sócia do lugar. Só eu, não. Nunca depilei. A única da escola. Por que não posso ser como as meninas da minha idade?

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Vai vendo…

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Primeiro carnaval juntinhos. E ao moço, coube optar.

De um lado o econômico e democrático Bloco do Simpatia É Quase Amor, com milhares de foliões incendiados, gingando e pingando, coladinhos uns aos outros pelos sovacos, quadris e cangotes. Outra opção seria arrendar um exclusivo ninho de amor nalgum canto de ilha selvagem muito pouco visitado. Os olhos da cara, adianto. Mas a privacidade e o conforto valiam. Centavo a centavo. E ele pulou no abismo.

Fechou casa pra dois, mais lancha e luau. Seu dinheiro gastou a rodo. O que fez a pequena suspirar. Portentosa. Mas de repente estancou, numa pergunta inusitada.

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Então, Tudo De Novo

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No farol um arrastão comendo solto. Em meio ao bololô um motorista esperava. Pacientemente. Quando deu de cara com um meliante terrível, a quem fez questão de explicar.

_Desculpe, mas sou fixo do Arruela. Há mais de três anos que só ele me assalta. Fica pra próxima, pode ser?

_Foi mal, Patrão. O Arruela atrasado, mas já-já taí. O senhor pode aguardar?

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