Lembra?

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Bom é ser velho. Pelo menos foi o que eu li dias desses sei lá onde. E se me permite a pergunta sincera, Bom pra quem? Se em suma quase tudo dói. E o que não dói, repuxa. E se não repuxa, afrouxa (o que é ainda cem vezes pior, pode acreditar em mim).

E tem sempre um arauto de plantão pronto para filosofar sobre a vida da gente. Como se o incrível, mesmo, fosse trocar a inconstância juvenil por um prato tépido de sapiência e duas mãos cheias de juízo. Enaltecendo a capacidade dessa geração ex-tudo-em-cima de aproveitar melhor o tempo. Curto e magro, diga-se de passagem. Já que viver, depois de certa idade, vira sangria desatada. Melhor. Desatadíssima.

Claro. Conhecimento acumulado é sempre bem-vindo. Não discuto. O problema é que no meu caso, ajuda pouco. Já que a gangorra nunca equilibra, com erudição de mais para memória de menos. E caindo. Vertiginosamente. Até bater no fundo. E seguir cavoucando. Mais e mais.  Até chegar a… Lembra? … peraí… tá na ponta da língua… Xi… Não é que me esqueci, rapaz…

Calma. Deixe eu ler um tantinho acima para ver se retomo a conversa. Ah. Tá. Naturalmente, falávamos de juízo. E se o assunto é esse, estou alugando o meu. Baratinho. Vendo ou repasso. É troca sem troco por um tanto bem pesado de cintura. Se vier com remelexo, então, pode levar minha descrição no pacote.  Mesmo preço. E fique sabendo que sou discreta pra caramba. E aí? É pegar ou largar? O que me diz, hein?

Pois bem. Sobrou o tempo. Ou faltou. Dependendo da idade e do ponto de vista. Como se o relógio, que passou boa parte da infância emperrado, um belo dia resolvesse tirar o atraso, tiquetaqueando diferente, num repique descompassado. Lembrando as integrantes do Bloco das Tetéias de Antigamente que daqui para frente é fanfarra na rua. E a fila tem que faiscar. Jura? Justo hoje que que dei um jeito nas costas. Não dá pra ir mais devagarzinho, não?

Grandes coisas se já cruzei milhas e milhas sem suar: correndo dez, trotando cinco. Quilômetros! Mas isso foi em outras eras. Agora, mal ando dois. Metros! E ainda arfo. Tossindo e engasgando feito condenada. Que nem naquela vez em que… Lembra? …  tá na ponta da língua… Xi, rapaz…

Pior. Deu preguiça. De pensar. Relembrar. Ou ler de novo. Taí. Se tem uma coisa que vem com força com a idade é a danada da canseira. Pena que junto com ela não venha um Kit Dorival Caymmi Plus.  Com direito a vento que dá na vela e uma caminha macia perfumada com alecrim.

Então me dou conta de um novo problema. E esse é dos grandes. O de comunicação. Que basta viver um trisquinho a mais pra gente ficar no vácuo quando o teretetê envolve a galera do colágeno natural. Dorival, quem? E ele por acaso é youtuber? Tem canal? De funk ou sertanejo?…

Pois é. A gente amadurece e fica assim, crica.

Ok. Admito. Amadurecer até vai. Em muitos casos, chega a ser indicado. Enquanto envelhecer segue como um terceiro caminho. Que eu, particularmente, não recomendo. Pode levar a veredas tenebrosas de ancas largas, cabelos secos e papadas lúgubres. Mas se te faz feliz, sirva-se à vontade. Pode pegar meu prato e o lugar na fila. Inclusive, vou ali e já volto. Coisa pouca. Nuns quinze ou vinte anos…

Afinal, vamos e venhamos, envelhecer é como pular num abismo de olhos fechado. E que seja o que Deus quiser. Nesse caso, como não tenho muita escolha, agarro-me às beiradas do que há de mais jovem em mim e daqui não saio, daqui ninguém me tira. Fincada. De unhas e dentes. Bem aqui. Ali. E acolá. Já que o importante é chegar aOu falar de… Escrever sobre…  Xi…

lembra

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