Você vem?

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Primeira vez é osso. E ele tinha pressa. Então, nem esperou muito e foi logo marcando um hotelzinho no centro, mesmo. No dia combinado, compareceram os dois.

Se bem que ela, ressabiada, saiu botando reparo em tudo. Da idade das colchas ao encardido do assoalho. E avisou, Por sorte, vim preparada. Melhor que isso: preparadíssima!, sacando dum par de luvas amarelas de látex, ideal pra limpeza pesada. Mais escovas sanitárias e desentupidor. E, sentada ao chão, pôs-se a esfregar.

O outro, aboletado confortavelmente entre almofadas, sugeriu.

_Ô, florzinha. Largue mão. Venha aqui, com seu benzinho.

Não só foi, como desalojou o moço. E dá-lhe forra-que-forra no colchão meia-sola. Ele ainda murmurou, Mas, tesouro…, chororô em vão. Dez minutos depois e a cama estava totalmente envolta em plástico bolha e recendendo a pinho sol lima-limão.

Ótimo, pensou ele, com o nariz dilatado e escorrendo, já que era alérgico a todo e qualquer tipo de perfume forte. Como se não fosse suficiente uma cama de viúva torta e manca, agora, também, estralava. E precisava nem deitar, viu? Bastava que olhassem um tantinho a mais pra ela e a diacha rebentava a pipocar.

Nem assim o infeliz renunciou. Pelo contrário. Arqueou as sobrancelhas, estufou o peitoral e insistiu, irresistível que só ele.

_Ande, minha rainha. Sente aqui, com seu neném…

Mas um ZUUUUUUUMMMMMMMMMMMM à toda altura foi a resposta que obteve.

Enceradeira, Lucia Helena? É sério isso?

_Portátil – gabou-se a mocinha _ ganhei de natal. Lindona, nénão? Vem com cinco velocidades.

Mas ele ainda não desistira. E foi atrás. Tentando tirar algum proveito daquela encrenca toda. Acontece que o chão estava tão liso que o tropicão foi inevitável. Previsível, aliás. Sei que o cabra saiu deslizando, da soleira ao deck, sem escalas e vendo estrelas.  Numa tristeza de quem comprou pra não levar. Dali, ferido tanto no corpo quanto na alma, suplicou, bem de mansinho.

_Venha, benzinho. Pelamordideus…

Foi quando lembrou da piscininha. Eureka!

Num derradeiro esforço, abriu o teto solar.

Nooooooossa!, babou a mulher, Piscina!, e seus olhinhos brilharam ao deparar com o caldo turvo.

Foi quando a doida munida de rodo e esfregão mergulhou naquele mundaréu de água parada e entrou de sola nos rejuntes, faxinando e tornando a faxinar. Pra ressurgir, eufórica, quinze minutos depois. Enrugada até as tampas e imersa em espuma de cloro e sabão.

_Prontinho – avisou ela, feliz da vida_ De lambuja ainda calibrei o pH e revesti umas pastilhas do fundo. Diz aí. Por essa você não esperava, hein? Hein?

Difícil até responder, tanto que lhe ardiam os olhos e a boca. Tamanha a névoa química que se apossara do ambiente.

Já que só distinguia sombras, focou nela como pode. E adianto, foi mais que o suficiente. Pois a saliente vinha gingando em sua direção, trazendo consigo dois frascos gigantes.  Um em cada mão.

Pela madrugada!, horrorizou-se o homem, Que mais faltava a ela esterilizar?

Ao que a outra respondeu ligeira.

_É pra você, docinho. Ué! Quem mais?

Fazia até sentido. Mas teria que pegar primeiro. O que não seria nada fácil, dada a velocidade que o estranho-homem-de-ceroulas corria em pleno centrão-velho da cidade.

Tadinha dela. Quando menos esperava, ficou só. E sentindo-se muito tonta por estar vestida assim, num escandaloso biquíni de oncinha. Pior. Segurando dois potes. Um, chocolate. Outro, chantilly.

Credo, miou a moça, Será que preferia morango? Caramelo? Alfarroba com coco?, pra  concluir, desamparada, Vai ver é  diabético. Raios! Só pode…

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