Marré-Marré-Marré

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Chegava a ser esquisito. Toda segunda. Às dez e quinze em ponto. Cem reais. Guichê três da Lotérica Sorte Grande. E a semana não era a mesma se não apostasse. Não, senhor. Tinha que ser na sena, ouviu bem? Que não era sujeito de se render a esses trololós de raspe e ganhe.

A caneta eram outros quinhentos.  Ponta fina. Preta. No bolso esquerdo da calça.  Daí mordia a tampa seis vezes. Três para cada lado. Benzia a testa. Estalava a língua. E, finalmente, ungido das dezenas mágicas, riscava os volantes. No ritual de sempre: jogar, ganhar, perder, continuar.

Nem quadra, nem quina. Que não via graça nenhuma em meia vitória. Sonho, mesmo, era a bolada grande. Por falar nisso, dia desses acumulou de novo. Justo quando sentiu aquela fisgada na cicatriz do supercílio direito. Afora o quentume grosso na mão, pinicando pra diabos. Mais que isso. Chegava a arder fundo na carne.  E palma da mão quando encaroça, não tem erro. É barbada. Das grandes.

Foi assim que encontramos ele, socado a uma mesinha de canto. Olhos baixos. Conferindo os resultados.

Parece que começou bem: quatro. Beleza. Já que quatro ele tinha.

Esfregou as mãos e apurou mais um: cinquenta e três. Suou. Ufa. Também, tinha.

Sentia um desarranjo leve que irradiava. Ao mesmo tempo que um fogacho estranho tomava-lhe os braços. Ombros. E, também, orelhas. Orelhas vermelhas de milionário, diga-se de passagem, enquanto notava que a parede esfrangalhada a sua frente ganhava novas cores e espichava. Até bater no teto. E no lugar das trincas, lustres. De cristal. Iluminando o piso forrado de tapetes persas e vasos ming de onde brotavam palmeiras imperiais.

Ofegante, secou a testa e arriscou: vinte e nove. Golaço! É hoje, meu Deus. É hoje!

Recostado a seus pés, um vira-lata gania por atenção. Pra nada. Já que o homem seguia focado. Rijo. Prestes a ficar rico-rico-rico. De marré-marré-marré. Tanto que cantou, baixinho, enquanto beijava a medalha do santo que trazia rente ao pescoço: quarenta e seis.

Bingo! Acertou. Outro mais. E sorriu. Meio desnorteado, é verdade. Mas feliz que só ele.

Dali onde estava reparou que o cachorro, a seu modo, também, festejava. E crescia. Inflava. Convertido num belíssimo mastiff tibetano que lhe batia à altura do peito, Estamos feitos, amigão. Vai chover na nossa horta!, comentou ao cãozarrão. Que deu nem bola. Desdenhoso. Afinal, coisa fina era atender exclusivamente a comandos em inglês, ou alemão.  Assim, morrendo de vergonha do dono tupinambá, esquivou-se para longe.  O mais que pôde. Nem sequer abanou o rabinho.

Traidor!, ressentiu-se o dito, voltando pra sua fezinha e pra grana por entrar. Foi lembrar do dinheiro e seu corpo inteiro ouriçou. E homem quando encrespa lembra logo é da patroa. E a dele estava ali. A poucos passos. Encurvada sobre uma pilha de camisas por vincar.

Gente boa, se bem que meio troncha e um tanto torta. Mas era sua. De mais ninguém. Ao menos até a fortuna entrar de sola em seu mundinho virando tudo de cabeça para baixo.  A começar pela soltura e atrevimento da fulana. Agora loura, linda e recauchutada de fio a pavio.  Acenando saliente a uma fileira de outros tantos, como se abrisse uma fornalha imensa. Faminta.

Só posso estar ficando doido, reagiu, cheio de dó de si mesmo. Enquanto o cordão de urubus em torno dela engrossava sem parar: motoristas, assessores, fãs, paparazzi, secretários, gurus e advogados disso, daquilo e daquiloutro. Repletos de acordos. Pedidos de partilha. Anulações. Caçando brecha onde tirar proveito dele. Níquel a níquel. Tostão a tostão.

Sei que o homem azedou de vez. Trincando bem os dentes. Cabelos em completa desordem e a alma toda amarrotada. Daí chorou, feito criança.

Quando catou novamente o bilhete já não via nele graça alguma. E antes que os laços fossem cortados definitivamente, lembrou que pra desgraceira ficar completa faltava a ele um último número.  Nítido e claro para quem quisesse checar: dezessete.

Um dezessete desaforado e desafiador. Que ria dele e do seu infortúnio. Feito quem diz, E aí, como é? Vens ou não vens?

Acontece que ele foi. Aos poucos. Com o dedão destapando o algarismo que sobrara. Até que leu: dezes…  a respiração falhou. A quem queria enganar? Sabia que havia um dezessete ali. Todos sabiam. Mulher. Cachorro. Zombavam dele.  À custa dele. Que da dinheirama não quis mais saber. Perdendo por completo o interesse.

Num repente, amassou o bilhete e jogou longe. E a bolinha de papel quicou de um canto ao outro até topar com um focinho peludo. Num brinca-de-cá, brinca-de-lá e a folhinha amarfanhada foi desenrolando.  Desenrolando. Desenrolando.

Deixando a mostra um borrado dezes…seis. Que o sarnento acabou engolindo. Mas em seguida cuspiu fora. Não tinha gosto de nada.  Melhor esperar pela carne que serviam todas às noites. Pelas mãos generosas do dono. Justo aquele. Que bateu firme a porta atrás de si. Numa raiva incontida. E foi-se embora. Pobre-pobre-pobre. De marré. Deci.

BOA SORTE.jpg

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