Perfil de Mãe

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Mãe não é gente. Já que gente, cansa. Senta se tem vontade. E quando chega à noite, dorme. Mãe, não. Cochila. Pisca o olho uma vez ou outra. Acontece que filho quando nasce é a coisa mais linda. Mas botou a boca no mundo, bastou. E isso é só o começo. Depois, piora. Mas esquente, não, viu?  Mãe, dá conta. Acha até graça. E logo embarriga de novo. Pode isso? Pior que pode.

Antes que me pergunte, já adianto: bicho também não é. Já que bicho embirra e rosna. Se bem que tomadas as devidas proporções, tem horas que a danada vira onça. Pimenta jalapeño conservada em vinagre. Do ponto de vista poético diria que ficam entre o irretocável e o irreversível. Até o primeiro beicinho. Pois pelas leis da maternidade, nossa macheza não vai além dum sorriso babento- banguela. Daí, lascou-se. E lá se foi uma cicrana derretida sentar-se no chão para brincar. Abobalhada de tanta alegria.  Como se o mundo fosse se acabar em caretinhas de criança. Em meio ao maior saldão de amor da nossa história.  E é pegar ou largar, freguesia. Aproveita que tá barato…

E não se deixe enganar pela carinha. Anjo? Certeza absoluta que não é.  Começa que não tem asa.  Nem lira. Como se mãe tivesse tempo pra tocar alguma coisa. Quando muito toca a vida, toca a ninhada. Numa maratona sem fim. Onde mal desaba da cama e já tem filho por vestir, lancheira por fazer e na sequência vem a escola, natação, ballet, futebol, supermercado, lavanderia, pediatra, espanhol. Com ela pensando o quão bom seria um dia de quarenta e oito horas ou, vá lá, trinta e duas, vinte e oito, vinte e sete, vinte e cinco…  Pô Deus, pelo menos meia horinha de lambuja, vai?! A essa altura o sol vai se pondo lá fora, com moleque fugindo do banho e deixando pela casa um rastro de imundice que dá vontade de chorar. Mas nada de buáaaaaaaaaa, que chilique é prerrogativa de criança. Pra mãe sobra picar o legume, repassar a lição, catar um, driblar dois, beijar três e sair de fininho antes que o menorzinho se dê conta. Ou a encrenca recomeça: Ô, manhêeeeeeeee!!!

Quer saber bem da verdade? Mãe é um troço esquisito. Com muitos braços e olhos embutidos pelo corpo. É aquela que sempre está onde mais precisam dela. Ué? Não chegou? Jura? Então, aguenta dois segundinhos que a sujeita aparece. Melhor, trazendo pão quentinho, um xarope que é tiro e queda e o casaquinho que você esqueceu na sala , Vai que o tempo vire, né? A gente nunca sabe…

Enfim. Mãe é difícil catalogar, mas facinho reconhecer. Quer ver só? Roupa manchada de molho, dedos sardentos de tinta, cheiro de alho batidinho, braço chamuscado de forno e testa salpicada de sumo de limão. Os filmes que ganharam o Oscar, não viu. Nenhum. Já desenho animado, assistiu todos.  Sem falar que conhece mais de pedal, guidão e fliperama que os próprios moleques. Contei da visão noturna e sistema de monitoramento continuado? Pois tem. E nada pede, nada reclama. É quase sempre razoável. Não tem o que não faça. Ou o que em sua bolsa não caiba. Do gloss fúcsia a lixadeira orbital. Protetor solar? Também. Vela de citronela? Claro. Bombinha pra asma? Caneta mordida na ponta? Tudo lá. Procura que acha. Nada mais lindo e misterioso que uma bolsa de mulher. Se for de mãe, então…

Melhor de tudo é que mãe não ingripa, não esgarça, nem entrega os pontos. Mãe é assim. Uma tina borbulhante de Eu te disse. Não disse? Mil vezes disse. E como disse…

Até o dia que amanhecem velhinhas. Viradas em deliciosas avós. Uma versão açucarada e meio surda daquelas que durante uma vida inteira nos carregaram ao colo. Na alma. Na frente. Lisonjeadas em dedicar a vida aos filhos e aos outros. Aguardando pacientemente pela vez em que seriam carinhadas de volta. Quem sabe até carregada ao colo. Com sorte, na alma. Enquanto ainda temos tempo. Antes que virem só saudades.

Então, não me venham com histórias, dizendo que esse papo de mulher-maravilha não existe. Existe, sim. E posso provar: eu mesma passei nove meses na barriga de uma. A mais linda e incrível de todas. Dizem por aí que ainda hoje veste capa, máscara cheia de brilho e sai, madrugada afora, a patrulhar a cidade. Se eu acredito? Com um currículo desses, tem nem como duvidar. Né?

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