Manual de Sobrevivência ao Fim do Mundo

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Não sei você, quanto a mim estou convencida: nasci passada da hora. Pior. Tenho nem como negar. Sou assim. Sei lá. Saudosista. Dessas que creem piamente que felizes eram os outros. Aqueles. Os famosos habitantes de trasantontem. Já que, por aqui, o tempo fechou, colega.  Empretejou.  E foi de vez.

Pelo menos é o que sei de ouvir contar. Já que não saio muito mais à rua ultimamente. E quando o faço, largo tudo: celular, relógio, carteira, corrente, anel, dente postiço incrustado e vou a pé. Fugida do trânsito e dos outros. Resta saber como se vai ganhar a vida, acuada desse jeito.  Pois te digo. A vontade que tenho é de pinotear tiquetaqueando para trás. Coisa duns oito mil anos e uns troquinhos. Nenhum segundo a mais.

Dizem que fizemos avanços. Eu discordo. Pelo contrário. Retrocedemos. Do descabido ao descambado. Perdendo a mão e o referencial. Até o clima, outrora previsível e pontual, cansou de ser bonzinho e virou-se contra nós. Sim, senhor. E se pela manhã o fogacho é eterno e cozinhante, de tarde o vento é noroeste. E pode apostar que chove. Tchau, salto fino envernizado. Oi, galocha de PVC impermeável. Aliás, sabe nadar? Ótimo. Ou trate de se inteirar das técnicas e práticas no manejo da canoa havaiana. Vai precisar.

Enquanto isso, o povo toca. Na mesmíssima. Batendo cabeça ladeira abaixo. Aos berros de Sai-pra-lá-cumpadi, eu-vi-primeiro!,  cortando rente. Juntinho à carne. Da crise ao caos.

De resto, as notícias que chegam não são nada animadoras.

A TV que era ruim ficou pior. Música? Esqueça. Não tem letra. Se quer saber, graças a Deus. Já que nivelamos pelo contrapiso do capeta. Daí pra frente a esculhambação pegou geral. E viva as vogais aleatórias. Com direito a mexe-aêêêê , balança-ôôôô , mais uns sacolejos direita-desce, esquerda-sobe, e pronto! Virou VJ. Nada mais autêntico e brasileiro. Né, não?

Sim. O mundo anda mexido. Diria, mais. Revirado. Feito farelo que desce torto, engastalhado na garganta. A começar pelas nossas meninas.

As gerações mudam. Eu sei. Mas o que dizer das pivetas de doze vestidas e agindo feito balzacas trintonas? Que de Natal, não querem mais ganhar boneca. Nem ursinhos. Mas um canal, valendo bilhões de dólares, e com trocentos milhões de curtidas e visualizações.  Tem quem ache até bonito. Natural. Eu, não.

Cresci de cara lavada. E as unhas sujas de bolo. Chiclete era na boca e no cabelo. Às vezes no vestido, também. Correndo atrás de bola. Cercada, pasmem, de amigos. Incrível, né? Pois é. O mundo já foi cheio deles. Mas, assim como os bolachões de vinil, foram deixados de lado. Uns viraram meros contatos. Outros involuíram a seguidores. O resto sumiu. Escafedeu-se  grotão abaixo, no resfolego do bole-bole cotidiano.

É. A falta de tempo nos fez avarentos. Curtos e práticos, principalmente quando o assunto é envolvimento. Daí que a intimidade que era pouca, minguou e mudou. As visitas rarearam. Viraram história. Ou melhor, postagens. Milhares. Diariamente. E as conversas, recados. Cheios de emoticons engraçadinhos. Assim, #fica a dica: da próxima vez que se sentir sozinho, e precisando muito-muito-mesmo de alguém, grave um vlog. Não resolve lhufas, mas alavanca o número de likes que é uma beleza. Vá por mim.

Até agora não disse, mas fechei assunto e abdiquei de tudo. Isso, mesmo. E virei… coroca.

Assim, não preciso mais fingir paciência, nem ter modos à mesa quando não me convém. Ou, quase. Já que o prato cheio de hoje não lembra nem de longe em esplendor e glória os de antigamente. Quando a carne ainda era boa e o leite não continha soda, nem o tomate causava câncer. Dá pra imaginar?

E cavoucando só piora. Assédio. Assalto. Gripe disso e daquilo outro. Político ladrão embolsando nossa grana. Preço que sobe. Salário que seca. Mas será o Benedito?

Calma. Nem tudo está perdido.

Uma nova liga de heróis foi invocada. E a contratação é imediata. Desde que forte, austero, lindo e afeito a grandes atos. Habilidades de voo são bem-vindas.  Ficha limpa, mandatória. Visão sistêmica e hálito puro completam o perfil desejado. O paladino dos paladinos. Inquebrantável. Defensor da justiça. Moral. Ética. Estética. E boa música (ué? Por que não? Já que é pra pedir…)

Então? Algum interessado? Um primo, talvez. Irmão. Sogro. Genro. Concunhado. Colega de biriba. Hein? Não? E você? É, você aí, mesmo. Deixa de modéstia, rapá. Vá lá! Vá lá! Benzadeus…

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