Simples Assim

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Pelo. Pouco ou muito, todo mundo tem. Homem nem liga. Tem até quem ache bonito. Já a mulherada reclama. Menina-moça, odeia. Daí vale tudo. Creme. Descolorante. Pinça. Reza. Ou colar aos pés da mãe azucrinando, do jeitinho que foi lá em casa. Com a muchachita insistindo e perturbando até não poder mais.

_Mãe, me leva ao salão? Leva? Por favor.  A fulana, vai. A beltrana, também. A cicrana, virou sócia do lugar. Só eu, não. Nunca depilei. A única da escola. Por que não posso ser como as meninas da minha idade?

_Poder, pode – expliquei_ O caso é que não precisa.

_Mas eu quero porque quero e quero muito e quero agora!

_Mas, filhinha, é tanto sofrimento. Não sei não…

__Caramba, mãe! Francamente. Parei contigo, viu? A moda hoje é ser lisinha. Tem pelo, arranca. Simples assim. Quantas vezes vou ter que explicar?  Eu, hein. Fala sério.

Então, . Levo, sim. Mas não diga que não avisei.

Nem ouviu. Pulando e sambando numa euforia à altura da eternidade. E lá fomos nós, em busca do tão sonhado serviço completo: barba, cabelo e bigode. Ou, no caso da garota, perna inteira e sobrancelhas arqueadas.

Vi quando entraram num cubículo abafado. Atendente de um lado e clientinha do outro.  Toda cheia de si. Bem quando a menina, faceira que só ela, teve a ideia estupenda de uma transmissão ao vivo. Em tempo real.

Daí que enquanto a senhorinha preparava a cera, ela ia narrando tudo. Tim-tim por tim-tim. Até que um grito lancinante sobreveio a primeira demão de grude quente. E foi um custo contê-la.

_Tá doida? É pra arrancar os PELOS, não o COURO! E agora? Como é que a gente tira isso? Num quero nem saber. Assopra. Assopra. ASSOPRA!

Dava pulos de meio metro. Esquecida até do celular e da centena de amigos conectados. Enfim. Hora de remover a coisa verde-melequenta da perninha branca da menina em cólicas e prestes a chorar.

_Tem que puxar, é? Tem certeza? Absoluta? Tá. Devagarzinho, pode. Ei! Não! Aiiii! Para! – num alarido sem tamanho_ Faz assim: contamos até três e seja o que Deus quiser. Lá vai. No um, dois… Calma! Eu não disse: . Você tem que esperar. Então, de novo. Quando eu disser…

Vupt! O puxão veio. Ardido e categórico. E a penugem de meia coxa foi parar no beleléu. Quis nem saber de conversa. Foi catando os trecos,  destrancando a porta e tchau e bença.

Fugiu. Com a mulher de avental branco ao encalço, E a outra perna? Falta terminar a outra perna! Voltaquí, garota…

A hora que vi, não me aguentei.

_Ué? Já vai? E a sobrancelha, não vai fazer?

__Caramba, mãe! Francamente. Parei contigo, viu? A moda hoje é deixar juntar uma na outra. Cultivar até ficar cheinha. Simples assim. Quantas vezes vou ter que explicar?  Eu, hein. Fala sério.

E fomos pra casa, almoçar.

Cardápio do dia? Simples assim.  Pensei numa travessa transbordante de eu-bem-que-avisei ao molho de agora-guenta, guarnecido com porções fartas de eu-te-disse, não disse? Pois eu tenho certeza que eu disse. Viu? Disse, disse, disse. Mas eu sei que eu te disse…Imagem1

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