A Atendente

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Passava das sete da noite quando a velhinha atendeu. E a fulana saiu matraqueando, doida pra fazer bonito em seu primeiro dia de trabalho.

_Dona Sônia? Como vai? Entro em contato por conta duma…

_Ô, filhinha, que bom que perguntou. bem, não, viu? Na verdade, tenho sentido uma dor terrível nas costas. E uma fisgada esquisitas nas pernas. Ontem, mesmo, meu pé tava todinho inchado – e prosseguiu_ O peito, então? Nem se fala. É dia e noite numa ronqueira danada. ouvindo só o chiado? – emitindo sons desconfortáveis, enquanto cuspia e escarrava. Num acesso de tosse dos diabos.

_Acontece que eu…

_Hoje inté tô melhorzinha. Graças a Deus. E a uma receita caseira de chá de arruda com gengibre e louro da tia Crotildes. Já tomou? Trava na língua, mas desce que é um espetáculo. Limpando tudo. Aí tem que correr, viu? Enquanto a bexiga firme. Ou a coisa fica feia…

_Ah. Tá. Que bom – emendou a moça, tentando ater-se ao assunto_ O motivo da minha ligação é que…

_Foi seu pai, é?

_Que tem meu pai?

_Ué? Morreu, não?

_Não que eu saiba.

_Que benção, né, menina? Pai vivo é tudo na vida da gente. Lembro do meu. Quer dizer, às vezes. Quando a cabeça não embaralha – lá vinha ela de novo _Outro dia, inclusive, custei a reconhecer uma colega minha na rua, acredita? Isso que a gente era mais chegada que irmã. Melhores amigas dos tempos de Liceu. Ou seria da igreja? Parente tenho certeza que num era. Ou era? Deu branco agora, gente. Cruzes…

Com medo que a velhota recomeçasse, a operadora partiu pro tudo ou nada.

_Que tal uma assinatura de revista? Levando seis, a senhora ganha uma de brinde. Leitura é um santo remédio pra memória, sabia?

_Remédio é bom. Tomo tantos que até gosto. Pra bursite. Pressão Alta. Arritmia. Diabetes. Constipação intestinal…

_Que tal uma edição inteirinha sobre saúde? Vem com um caderno de fitoterápicos. Lembrando que tenho ainda: moda, carros, celebridades, negócios, religião. E aí? O que vai ser?

_Que sorte a minha! E nem é meu aniversário – comemorou a dona lelé_ Mas se é presente, quero, sim. Pode mandar. Gentileza sua…

_Como assim, presente? Na verdade, a senhora tem que pagar. Mas posso parcelar. Em até seis vezes no cartão.

Quando outra voz se fez ouvir. Dessa vez um homem.

_Quem é, mãe?

_Sei não, filho. Mas é um quindim de pessoa. Vai até me escrever um cartão – e voltando-se a atendente, sugeriu_ Põe aí: Sônia querida do meu coração…

A vendedora, desesperou. Mas focada como estava em não perder o negócio, não viu outra saída, que não ser direta.

_Quer saber, deixe o cartão pra lá. Melhor à vista, né?

_Que vista que nada. Sete graus num olho e noutro cega feito faca velha.  Mas, obrigada por se preocupar, viu?  Você é mesmo um amor… – assanhando-se toda antes de desligar –  Quanto ao meu cartão, sem querer abusar, dava pra escrever Sônia com ipsilone? Acho tão chique…

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7 comentários sobre “A Atendente

  1. Lu, certamente dona Sonia ou Sonya como ela desejaria ser chamada se deliciaria ao receber uma ligação onde poderia ouvir uma voz suave e delicada transmitindo a leitura deste e de outros contos de Lu Menezes.
    Com certeza seria o melhor telemarketing a qualquer hora do dia ou da noite, esqueceríamos o incomodo da ligação a chatice do trabalho de uma operadora, as dores nas costas, as fisgadas nas pernas e o pé inchado seria o balsamo para nossos próprios recalques e até nossa falta de paciência com tanto importuno de um tilintar de campanhia.
    Não serei repetitivo, já sendo, e resumo este conto em uma só palavra: – MARAVILHOSO.
    Abraços do Carioca.

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