Contando ninguém acredita

12 Comentários

A casa era assim dividida. No andar de cima, ele. Apaixonado por ela. A linda moça do andar de baixo. O que seria até bem simples, não tivesse ela pai, mãe, três irmãos, avó doida e papagaio.

Pra piorar, o pai era uma fera. E tinha um cachorro que era uma verdadeira onça. Talvez por isso fizesse questão de olhar pra ela de longe. Disposto a não dar na vista. Até o fatídico dia, quando ouviu a mãe dela reclamando.

_ Chega de sol, menina. Quer virar pururuca, é? E esse biquíni? Vê se isso é roupa de gente…

Biquíni?, tremelicou o pobre, em meio a uma chuveirada, Quedê a toalha? Quedê?, na pressa,  acabou metido numa toalhinha micha de rosto. Daí fugiu pra varanda. Sapear.

Chegou tarde. Da moça formosa, nem sombra, Cada coisa que acontece comigo, praguejou, Contando ninguém acredita…

Fato é que quando o sujeito não tem sorte, não tem sorte e meia. Tanto que surgiu do nada um vento fresco noroeste, batendo com força a porta da casa do desinfeliz. Que trancou com a chave dentro. É óbvio.

O coitadinho só faltou chorar de angústia. Tanto fez e remexeu que atraiu a atenção de Zeus. O pastor alemão homicida da família.

De nada adiantou mandar sentar, rolar, dar a patinha. Que o diacho do capa preta era focado. E queria porque queria o raio da toalhinha que o fulano usava. Aquela. Imediatamente convertida em farrapos. Sei que o moço correu. E correu mais um tanto. Até que achou refúgio numa despensa treliçada.

Pronto. Questão de tempo. Era sentar e esperar até que Zeus cansasse e fosse embora. Certo? Errado. Que a tarde passou, a noite caiu e o cachorro lá. Firme feito rocha. O jeito foi dormir em pé, mesmo. Todo troncho. Pendurado.

Acordou lá pelas tantas, com a avó zanzando insone casa afora.

_Ei, vovó. Psiu – chamou ele. Eis que Zeus ganiu tão alto, que a velhinha retrucou.

_É o finado Policarpo, Zeus! Eu sei. Eu sinto. Ele quer fazer contato…

Finado Policarpo? Tenha a santa paciência…, só faltou gritar. Espernear. Opções nem um pouco racionais ou indicadas, tendo em vista a cara feia do cão de guarda, Cada coisa que acontece comigo, choramingou, Contando ninguém acredita…

Pra encurtar conversa, o dia seguinte era sábado. E o andar de baixo fervilhava feito sopa no tacho. Parecia inté coisa encomendada. Até que passos se ouviram. E a porta da despensa foi aberta. Era a vovó. Que deu de cara com o moço todo encolhido atrás dumas caixas de cereal.

_Picles – disse a lelé.

Ele, mais que prontamente, esticou o braço e catou um pote numa prateleira à direita.

_Pequeno demais – reclamou a velha. O homem, faltando enfartar, catou outro, dessa vez, `a esquerda.

_Grande demais – quis chorar. Tenho certeza que ele quis. Ao invés disso, tentou um vidro mais bojudo, e repassou a senhora. Que não se deu por achada, muito menos por perdida, e partiu lépida, largando o sonso ali. No mesmo lugar, Cada coisa que acontece comigo, ele repetia e repetia.

Acho que ainda repetia quando a porta finalmente abriu de novo. Dessa vez, ela. A moça mais loira e linda de todas.

_Oi – ele arriscou.

_Oi – ela devolveu.

_Quer sair? – perguntou, detrás dum pacote jumbo de macarrão gravatinha.

_Quero – acrescentou_ E duas latas de molho de tomate. Fazendo um favor.

_Sugo ou Carbonara?

Uma de cada, fechando timidamente a porta. Pra na sequência, tornar a abrir.

_Quando?

Olhou pra ela. Pro desgranhento de presas de fora.  E de volta a ela.

Logo. Se Deus quiser. E Zeus deixar, né, rapaz? Bom menino. Bom menino…

Dito isso, ela sumiu. Pra ele foi a conta. Comemorando entre favas de baunilha e bombonas de óleo de soja, É cada coisa que acontece comigo. Contando ninguém acredita. Elaiá!

dreamstime_m_28155335

12 comentários sobre “Contando ninguém acredita

  1. Vou me dar o direito de me repetir mais uma vez: – Muito bom!!! Bravo!!! Adorei este texto, me fez lembrar o dito popular “Toda donzela tem um pai que é uma fera”, mas nesse caso não só um pai uma verdadeira escolta uma mãe ciumenta uma vó lelé da cuca e o mais destemido dos soldados, um verdadeiro temor Egípcio (pelo menos no nome), Zeus o au au.
    E como em todos contos de fadas (variação entre conto popular, folclórico ou fantasia) o final sempre tem ares de felicidade o seu entre favas de baunilha e bombonas de óleo de soja não poderia ter final diferente.
    Parabéns amiga por nos dar a oportunidade de degustar mais este delicioso e fantasioso texto. É cada coisa que acontece…rsrsrsrsrs…
    Grande abraço do Carioca

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s