Ô, manhê!

4 Comentários

Pense numa mulher doida por séries de Tv. Pois é. Agora, vá multiplicando. Até ficar insuportável. Taí. A própria. Que além de fanática numa boa história, era, também, a mãe de um bebezinho lindo.

Mas a pura santa verdade é que depois de várias temporadas, finalmente, era chegado o dia do Grand Finale. Com a tal em penitência. Mal dormiu, nem comeu. Aguardando pelo início do capítulo final.

Então, vejamos: desligou celulares? Sim. Estourou pipoca? Opa! Catou seu bebê e amarfanhou na poltroninha? Nem precisa perguntar de novo.

E começou. Com a Rainha Boa encurralada por lobos famintos. Que pior não lhe fizeram por conta de alguém surgido detrás das moitas. Amigo? Inimigo? O jeito era pagar pra ver.

Teria visto. Não fosse o neném que golfou. Em tudo. Mesa. Cadeiras. Tapetes. Até na mãe. Que tentou ignorar. Mas corisco quando capricha não deixa margem de escolha. Sendo assim, correu pra ajeitar. Correu, não. Voou. O quanto pôde.

Pra voltar esbaforida. E descobrir que da Rainha sobrou foi nada. Nem cheiro. Quedê a dona? Morta? Viva?  Só o Google pra saber. Mas teria que ser mais tarde. Que o melhor estava por vir. Justo ali. Do meio pro final.

Ao menos, parecia. Com a Feiticeira Má dando as ordens. Reduzindo a trevas o que um dia fora um mundo mítico de paz.

Paz. Coisa que ela não tinha. Já que a cria deu notícias. E não eram boas. Diretamente dos confins da fralda cheia. E pra variar, caprichou.

Ela? Foi firme. Diria inclusive que lutou um bom combate. Pena que perdeu. Feio. Prum pequeninho que avermelhava, convertido em elemento bélico catinguento.

Então, catou. Limpou. Tascou talco e de lambuja ainda ofereceu mamadeira. Tudo isso num zás-trás. Mas da Feiticeira, niente. Finito. Virou lembrança.

Sei que a moça murchou. Perdeu parte da cor e muito do entusiasmo. Confesso que só mesmo a chegada do Grande Rei pra lhe trazer de volta o viço. Um soberano justo. Honesto.  Que proferia ao grande exército perfilado o discurso que mudaria para sempre o rumo de suas vidas.

Aos filhos desta terra, presentes a esse campo inapelável de batalha, é meu dever adverti-los que…

Daí pra frente, não ouviu mais nada. Tanto que ele chorou.

Quem? O rei? O escudeiro manco do cavaleiro de elmo dourado? Não. O filhotinho dela. Aquele, confortavelmente assentado num carrinho luxo de rodas pneumáticas e toldo cinza retrátil. E não foi um chorinho qualquer, não. Foi um choro de Oscar. Melhor mixagem de som e trilha sonora adaptada.

Calma, tesouro. Deixa a mamãe ouvir o que moço tem a dizer, deixa?, bom. Se entendeu, não deu pelota. Pior. Gritou em lá. Fá. Ré bemol e sustenido.

Danou-se o Rei e companhia limitada, num conversê desencontrado. No mínimo, esquisito.

É um grande alívio contar a vocês que buá-buá-buá, por isso, todo cuidado é pouco com buáaaaaa- buáaaaaa-buáaaaaa…..

Pra encurtar conversa, primeiro, ela chacoalhou. Depois, benzeu. Deu água. Fruta peneirada. Biscoitinho empapado em leite. Deu até dó da mãe que pelejava. Tanto que caiu sentada de banda. Sobre o controle remoto da televisão. Mudando o canal num repente. Tchau, embate lendário. Oie, desenho bem bobo.

Acreditem ou não, a criança calou no ato. Feito mágica. Em dois segundos o saquinho de lamentações inté sorria. Mais que isso, gargalhava.

Assim, mesmo. Muito bem, meu queridinho, sussurrou ela, voltando a programação original. Onde dois soldados comemoravam.

…Agora, que sabemos o que realmente aconteceu ao nosso Rei, finalmente, podemos dormir sossegados…

Já ela, a tomar pelo estado das unhas, talvez não dormisse nunca mais. Foi quando a cena fechou numa adaga. Aproximando-se dum leito suntuoso. Estaria ali pra proteger ou devastar? Um mistério a ser revelado em questão de segundos. Então, a câmera subiu. E subiu. Até que…

O bebê voltou com tudo. Num chororô ainda pior que os anteriores. Enfim, não teve acordo.

O resto você já sabe, né? De volta ao patinho tonto. E seu amigo, o elefante cor-de-rosa. Com quem passaram não um, nem dez, mas quinze angustiantes minutos. Até que a criancinha dormiu. Dessa vez, profundamente.

Ufa! Até que enfim. Teve vontade de dançar. Invés disso, zapeou novamente. A uma tela toda preta onde se liam os créditos em branco, Dublagem nas vozes de Beltrano Silva e Cicrano Couves…

Nova crise de choro. Dela. Que fez birra. Manha. Beicinho, Eu quero a minha mãeeeeeeeeee!…

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4 comentários sobre “Ô, manhê!

  1. Me descreveu com a diferença que, Graças à Deus, não tenho um bebê pra me aporrinhar kkkkkkkk Minhas séries estão salvas! Mas coitadinha da mãe. Fala pra ela da próxima vez que for assistir suas séries, dar uma mamadeira de chá de alface antes pro bebê. Tiro e queda. Vai dormir feito um tijolo! hehe

    Curtido por 2 pessoas

  2. Ô LUUUUU !!!
    Mais um de seus deliciosos textos.
    Hahahahaha fui lendo e imaginando a cena de uma mãe desajeitada e apaixonada por série ou novelas de TV e pelo visto cena de uma novela Mexicana com toda certeza.
    Por outro ângulo o precoce protesto de um filhote no estilo Black bloc, uma tática de ação direta seguido de palavras de ordem no estilo buáaaaaa- buáaaaaa-buáaaaaa e para que não ficassem duvidas de seu protesto surge o mais inesperado modus operandi detonando um verdadeiro torpedo e daqueles bem fétidos para não deixar nenhuma dúvida na agressividade de seu protesto.
    Sua causa logrou sucesso se não total pelo menos parcial, ora, o amado baby apenas queria a atenção de sua mãe, um colinho a frente da TV talvez pudesse amenizar o momento.
    Lu, muito bom.
    Dizer que adorei seria simplesmente me tornar repetitivo, mas o que dizer mais de seus textos formidáveis.
    Abraços do carioca.

    Curtido por 1 pessoa

    • Ô, meu querido!!!!… Agora, fui eu quem ficou sem palavras. Feliz demais com toda essa sua gentileza comigo e meus causos. Grata pela companhia, pela paciência, pela disponibilidade em rir das histórias que invento. Sua delicadeza coloriu meu dia. Valeu, mesmo. Abraços da amiga paulista.

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