Pobre Moço

8 Comentários

Trombaram os dois. Um belo dia. Numa ponte aérea São Paulo-Rio. Ele indo, a trabalho. Ela voltando, a passeio. Curioso foi que deu liga. Feito bife com batata frita. O iaiá do ioiô.

Ela de peixes, linda até morrer. Nascida e criada aos pés do Cristo. Bronzeada e balançante da gema, que foi achar graça justo nele. Um não-sei-quem tipicamente paulistano. Empalidecido pelas garoas frequentes e cheirando a escritório, pizza e pão na chapa com pingado.

Fazia o tipo eclético, conhece? Soterrado em questões humanistas e seus desdobramentos urgentes e inadiáveis.  Amante das corridinhas eventuais no Ibirapuera, não fossem as câimbras frequentes, sinusite reiterada e uma recém-descoberta pressão alta, Eita trânsito doido da Paulicéia! Ainda mata a gente, viu? Se não for de raiva é sufocado em fuligem, crendeuspai…

Ninguém contou, mas tava lá, evidente feito calombo na testa: dum lado a carioca-Ipanema, com gosto de praia e olhos de mar. Caidinha de verde e amarelo por ele. Um matusquelo cor de asfalto, perna de pau e gente boa pra danar.

Sei que a conversa seguiu animada: ela, Aldir Blanc, sol em libra e Vinicius de Morais. Enquanto ele  maldizia a competitividade braba, os políticos sem-vergonhas e os índices do mercado mundial.

Mais um riso dela e perderia o juízo para sempre. Então, aportaram: Galeão. Tanto faz se fosse Londres. Madureira. A constelação de Órion. Ou um pé sujo sem eira nem beira.

Acontece que o dia passou e ninguém viu. Num repique de samba em plena Marquês de Sapucaí. Com ele tropicando sôfrego por entre calçadas apinhadas de camelôs. Barra. Leme. Arpoador.

Foi quando confessou a bela seu medo secreto das ondas. Que friagem faz um mal danado pras costelas. Mas que uma canja bem feitinha cura tudo. Principalmente dor de cotovelo embodocada. O resto é por conta do batente. Que em tempos de crise, Home virou Office. E o negócio é se coçar pra fazer dindim rendê…

Daí que gingaram juntos uma noite inteira. Revirando morros, favelas, terreiros. Sob as bênçãos do Redentor, nas brumas mansas dum abraço dela.

Mas acabou-se o que era doce. E quem vai, tem que voltar.

Ficou pra trás a morena-Guanabara. No seu lugar, quatrocentos quilômetros de saudade.

Quem trombar com ela, por piedade, favor remeter de volta. Anote aí:

Mulata requebrante. Atende por Morena Mandinga Tico-Tico no Fubá. Rua Beira Mar sem número.  Esquina do Mate Gelado com Biscoito Globo.

Paulistinha de cama, na maior fossa, há seis dias sem trabalhar. Oferece-se recompensa generosa.

Ajuda aí, vai? Pobre moço…

pobre-moco1

8 comentários sobre “Pobre Moço

  1. Bravo!!! Bravo!!! Bravo!!!
    Lindo texto, adorei.
    Você foi perfeita ao descrever um paulistinha encantado pela magia da mulher carioca e pelos encantos do Rio. Melhor presente este seu novo amigo carioca não poderia ter recebido.
    Agora vou te contar um segredo mas guarde só para você. Conheço essa mulata assanhada que passa com graça e faz pirraça joga seu charme e tira o sossego da gente, ela passa e finge que não sabe que tem feitiço no olhar (assim disse Ataulfo Alves) mas a amiga sabe que esse pobre moço paulista e matusquelo se pudesse e se o dinheiro desse ele dava sem pensar essa terra, esse céu e esse mar só para ter essa mulata assanhada presa em seu coração. Lu (permita-me a confiança) essa carioca da gema é rainha de minha Escola de Samba e hoje vive apaixonada por um paulista desengonçado que tropica das pernas quando tenta um passinho no samba. Essa rainha hoje chora de saudades por seu pierrô.
    Grande abraço e obrigado por esse belo texto.

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    • Bom que gostou, amigo querido. Você também tem um jeito danado com as palavras, sabia? Bem-vindo a nossa turma. Daqueles que se derretem diante dum dedo de prosa atraente. E uma vez batizado, danou-se. É pra sempre. Quer saber? Ainda bem, né? Um brinde as histórias bem contadas!!!!!!

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  2. Estou aqui caidinha diante de tão belo e delicioso texto. Feito meu sanduíche que traço enquanto leio. Quase me engasguei porque, invertendo o sexo dos personagens, lembrou minha própria história de anos atrás… Ai saudade do seu gingado meu carioca da Gema! Apertou o coração viu! Mas adorei!! Só falta eu conseguir me desengasgar com o pão que se apertou junto do coração, rsrs
    Bjs

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    • Você é danada demais, amiga. Faz poesia até com pão de sanduíche e meia dúzia de palavras. Quanto ao romance, que tudo! Paixão não tem jeito, né? Não cura. Não ata, nem desata. Quando muito vira lembrança. Tomara que boa. Já que temos que aprender a carregar… Fica aí mais um convite de prosa, né? Beijos querida e bom final de semana

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    • Ah. O amor… A paixão… A juventude… Viagens… Tem coisa melhor?… Se tiver nem me conte, que acho que esse coraçãozinho aqui não aguenta… risos… Concordo contigo e não abro: volta pro Rio, rapaz. Está esperando o quê? Hein?

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