Finou-se

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Sabe sogra-caruncho? Pois o Zé tinha uma. Que passou dessa para melhor.

Sobrou a ele cuidar das formalidades. Então, quedou-se. Esperando pelo moço da funerária que não veio. Ficou pelo caminho. O motivo ninguém soube.

Acontece que em seu lugar apareceu outro. Um exterminador. Que do enterro nada sabia. Mas entendia de insetos. E tudo sobre o seu controle em empresas e residências.

Dito isso, tocou errado: no 16 ao invés do 61. Com laudos atestando a envergadura da infestação. Cupins. Uma casa cheia deles. Comprometendo tudo: pisos, contrapisos, paredes e pilotis.

A tomar pelos gráficos e certificados, aquela casinha já era. Ou como dizem por aí, tinha ido de vez pras cucuias. Tanto que o funcionário foi cabal, cumprimentando-o em tom pesaroso.

_Sinto muito pela sua perda – disse, referindo-se ao lar.

_Até que durou muito. Já estava bem velhinha – devolveu o outro, tendo em conta a finada. E logo quis saber_ Então, como vai ser?

O sujeito revirou a papelada onde se lia em letras garrafais: Cupins Gigantes Africanos. E respondeu de bate-pronto.

_Geralmente a gente toca fogo.

_Tem certeza? Não seria melhor enterrar?

_Tá doido? Vai que volta? Eu não correria o risco…

_Eitâ! – benzeu-se o genro ressabiado_ Mas isso não é possível…

_Cê que pensa. Na minha rua aconteceu assim. Carcomeu foi tudinho. Terra. Madeira. Até viga de ferro a peste roeu. Quando viram, tava lá de volta. Assombrando a vizinhança inteira…

Sei que o homem quase derreteu. Imaginando mais setenta anos de convivência reiterada. E gemeu baixinho.

_Cruzes! De novo, não, meu padim padicissu…

_Calma. O especialista está aqui: tudo que temos a fazer é confirmar que a praga foi confinada direitinho.

_Quanto a isso, não se preocupe. Chaveei o caixão pessoalmente. Duas vezes.

Caixão?, Estranhou o empregado. Mais acostumado a caixinhas. Mesas. Camas. Quadros. Ou cadeiras, Nossa! A coisa por aqui foi feia, mesmo.

Ao parente da falecida restou assinar uma papelada imensa. Mais um visto aqui. Outro acola. Ao final, até ganhou brinde.

_Quié isso?

_Pra borrifar. De fio a pavio.

_Mas é favas contadas – deu de ombros o cidadão_ Foi-se. Descansou.

O empregado riu. Funesto.

_Eu vou descansar. Você, vai.  Estorvo, jamé. Que flagelo quando bate, fica. A espreita. É o que quer pro resto da sua vida? Não, né? Então, borrifa com fé. Que amanhã eu volto pra dar cabo do recado.

Despediram-se.

O aparentado, ainda sob a forte influência que a visita lhe causara, ligou para a sua mulher.

_Oi querida. Por acaso o homem que me enviaram era da família? Impressionante… Conhecia tão bem a tua mãe…

finou-se

10 comentários sobre “Finou-se

  1. Coitado do Zé depois dessa vai ter uma assombração para o resto da vida, o que a velha vai perturbar lá de cima não vai ser mole. Kkkkkkkkkkkkkk
    Por isso que sempre digo: – Sogra é igual beber cerveja, só gelada na mesa
    Brincadeiras à parte amiga as sogras são quem nos dão os melhores presentes, as suas filhas ou seus filhos que amamos e com eles o seguimento da espécie, filhos.
    E você a cada conto me surpreende mais.
    Bravo Lu, ansioso espero o próximo.
    Grande abraço do carioca amigo.

    Curtido por 1 pessoa

    • Querido amigo, imagine se a moda pega… risos… Brincadeirinha, né? Enfim. Não perco um bom amigo, menos ainda uma boa piada. Enquanto torço e faço minha parte por um mundo menos ranzinza. Beijos e inté a próxima!!!!!

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