Beijinho Doce

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Só sei que a mãe saiu, deixando a menina na cozinha com o pai. Parece que iriam cozinhar. Ou algo próximo a isso, já que o paizão foi ligando a TV e gritando:

_Vamô, povo! Pra cima deles

Sobrou a ela trabalhar sozinha. Tirando tudo da geladeira. Armários. E perguntando.

_Isso vai? – pra calda de chocolate. Ovos. Fermento. Farinha. Mostarda preta. Repolho. Cebola roxa. Suco de uva. Leite. E maionese de macarrão.

_Uhuhmmmm... – respondeu ele, sem sequer olhar pra trás. E de volta ao futebol_ Chuta, rapá! Pelamordideus…

_Pode bater? – insistiu a pequena.

Como ninguém respondeu, comemorou. Sovando tudo, num bololô tamanho: frutas, folhas, talos, cascas, lacres e eventuais sementinhas.

Aí veio o intervalo. E com ele o arrependimento. Mas era tarde. Restava assar e torcer pelo melhor.

Liso, lisinho, não digo que ficou. Nem bonito. Tão pouco cheiroso.

_Tem que provar, é?

_ Tem, sim – meneou a cabecinha.

Poizentão. Sem acordo. E na hora h, amarelou.

_Podemos rezar antes? – era o pai, temeroso.

Pra já. Colando junto. Mãozinhas postas e coisa e tal.

_Papai do Céu – ele puxava e ela repetia_ Proteja o meu papai. O time pereba do papai. O trabalho do papai. E principalmente a boca e o esôfago do papai. O estômago, também. Bem como o pâncreas, duodeno, intestino delgado e grosso. E onde mais precisar. Amém…

Amém!, animou-se ela, toda-toda, no aguardo dum veredicto. Que veio aos urros.

_Putz! Caramba? Que porcaria danada é essa … – cuspindo longe e limpando a língua num guardanapo, enquanto a menininha derretia de tristeza bem ali ao lado dele.

Acontece que o pai percebeu a tempo. Mais que isso, improvisou.

_Porcaria de garfo, viu? Cabe tão pouco. Ainda se fosse um colherão

_Escumadeira, serve?

_Muito – gemeu o pobre, que comia _ Nhamy-nhamy… – quando viu rapou o prato, tossindo e engasgando mais que condenado.

_Gostou, mesmo, hein, paizão? Quer mais?

_Sei não. Ouvi dizer que gula é pecado. Deixa pra outro sábado. O mês a gente escolhe depois… Enquanto isso, traz uma água pro pai. Boricada de preferência, pra bochechar é melhor. E um copão de leite. De Magnésia. Bisurada…

Nem um, nem outro. Preferiu cravar beijocas, lambrecando as bochechas do sujeito. Que amoleceu, quase a ponto de bala. Afinal, não tem receita ruim, que resista a um beijo bem bom. Tanto que capitulou, encomendando.

Quer saber? Salta vinte pra viagem…  Melhor, vinte dúzias:  vou congelar e revender… Aiquidilícia!

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