Ai, meus sais…

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Alto. Forte. Trinta e poucos anos. O melhor mecânico da região. Uma beleza de armário é o que era o homem. Sem tirar, nem pôr. Tanto que passando em frente à casa da velhinha, escutou.

_Ô, lá em casa!

_Oi? – estranhou o moço.

_Oi, não. Entra – sugeriu a velhota, na maior caradurice _ Te passo um café. Fresquinho…

_Quié que foi, minha senhora?

_Senhora no céu, meu anjo. Dionice Cristina, a seu dispor. Sua amada. Peguete. Namorida. Lagartixa. Topo tudo e muito mais, desde que seja contigo, meu Adonis…

Acontece que ele ficou confuso.

_Quem é Adonis? Seu neto? Ele taí?

_E eu lá tenho idade pra essas coisas? Quando muito um filho pequeno. Afinal, sou tão enxuta – e completou, lépida que só ela_ Se quer saber bem da verdade, estou solteirinha da Silva Santos. Livre, leve e solta. E por tempo ilimitado…

O homem, preocupado com a sanidade da avozinha, emendou na sequência.

_A senhora não está sozinha. Está?

_Se disser que sim, você entra prum carteado? Quem sabe um gato-mia? Treininho de lambaeróbica?

Sei que o moçoilo mal teve tempo de responder, já que uma outra se acercava da conversa. E pelo tamanho do pito, não tinha gostado nada-nada do que ouvira.

_Paquerando de novo, mãe? – ralhou a moça. Enquanto o fulano sumia rapidinho pelo caminho que viera.

_Isso é falta de Deus no coração, sabia? – decretou a filha injuriada_ tá precisando orar mais. Muito mais…

_Eu? Imagine. Já cumpri minha cota nessa vida. Só nesse mês fui a seis velórios seguidos. Missa de aniversário de falecimento, então, perdi até as contas…

_Muito me admira você, mamãe! Uma mulher na sua idade – e batendo na mesma tecla, ordenou_ Vambora. Pra igreja. Já-Já!

_Tenho cara de quem quer pegar em terço, menina? Ora faça-me um favor…

_Se quer, não sei. Mas que vai, vai.

E foi, mesmo. Arrastada e resmungando. O caminho inteiro até o confessionário. Onde deu de cara com o novo padre da diocese. Cantor. Barbinha aparada rente. E que foi logo perguntando.

_Então, filhinha. Que temos hoje a confessar?

_Que num sou Ave Maria, seu padre – serpenteando toda assanhada lá pras bandas do vigário_ Mas recheadinha de graça. Aleluia! – e voltando-se a filha que pacientemente aguardava, aconselhou_ Pode ir pra casa, viu, querida? Quando acabar, aviso.

_Tem certeza? Vai demorar tudo isso?

_Se Deus quiser, minha filha. Se Deus quiser…

07062016

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