Ponto e Vírgula

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Nome de batismo, se tinha, nem sei. Tanto que lhe chamavam pela alcunha: ponto e vírgula. Pior é que atendia. Acostumado como estava a ser assim: fora de prumo. Encurtado prum lado e espichado pro outro. Então, coxeava. Numa ladainha só sua. Ponto. Vírgula. Ponto. Vírgula…

Pra piorar, quase não tinha encantos. E se os possuía, guardava-os em segredo. Muito bem escondidinhos. Sujeitinho bronco. Eis o que era. Mas contrariando todos os prognósticos, ainda via graça na arte de viver.

Até o dia em que aborrecido daquilo tudo, catou pelo braço o único amigo que tinha e foi prum bar, encher a fuça.

_Cansei, viu? Vida mais besta, sô.

_Larga mão de ser mofino, homem de Deus – retrucou o colega, tentando ser diplomático.

_Pois olhe bem pra mim e responda: nesse corpinho esbodegado, o que é que salva?

Pensa rápido, pensa rápido, contorceu-se o camarada em apuros.

_Você é … bonito? …

O outro, além de tudo, vesgo, sorriu quadrado. Ao que o comparsa assentiu.

_Tá. Lindeza não põe mesa. Mas quem se importa? Graças aos céus, tem saúde.

Ao que o dito prontamente rebateu.

_Então, piorou.  Que além dos pulmões estropiados, sofro de gota. Herpes. Disfunção erétil. Hepática. Contei da queda de cabelo? Pois é. Também. Pode anotar…

_Não seja tão duro consigo – minimizou o fulano_ O importante é que tem um bom emprego.

_Tinha. Aí veio a crise…

_Ainda tem casa, carro …

_Mais ou menos. Penhorei tudo. Seis meses sem salário não é bolinho, não…

_Ao menos, tem sorte.

_Num sei onde. Se bati de ré, caí da cama, perdi no jogo, sem falar nos assaltos: três. E em dias consecutivos.

_Boa memória! – apelou o amigo, sem nada melhor pra se agarrar.

_É… Isso lá é verdade…

_Então. Tá vendo? E não falo de uma lembrancinha qualquer, não. Mas de uma superdotação absolutamente fora do comum. Dezesseis gigabytes de memória RAM zanzando por aí, sem que o menor detalhe lhe escape…

_Nem tanto – gabou-se o outro, fingindo modéstia_ Nem tanto.

_Como, não, rapaz? é incrível! Uma enciclopédia ambulante, vamos e venhamos. Uma verdadeira enciclopédia ambulante…

Bastou pro Mané. Que a essa altura, emocionado, sentia-se outro. Novo. Melhorado. Capacitado a enfrentar o mundo. Sem maiores complicações.

De bate pronto aprochegou-se ao compadre num abraço forte e cheio de cumplicidade. Após o qual, mirando-o profundamente nos olhos, rasgou-se num sorriso largo e perguntou.

_Leve a mal, não, viu? Mas qualé, mesmo, seu nome, hein?

Um senhor distinto

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