Fica, vai

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Parir é mole. Ser mãe é muito mais.

É saber que os outros vão sair, dançar, viajar. E eu, não. Porque o fulaninho teve febre. Prova.  Espinhela caída. Ou engripou e de dengo. E filho de dengo, já sabe, né? Só guenta quem tem. Que a parada é duríssima, colega. Vou te contar uma coisa…

Pessoalmente, acho que mãe não é muito normal, não. Parece até coisa inventada. Meio sargento, meio anjo. Que abdica da vida. Muda os planos. Tudo por conta dum menino cabeçudo. Banguela. De perna fina e cotovelo virado pra dentro. O mais lindo de todos. Quer saber? Pra que mais, né?  Já é tudo…

Mãe é assim. Bicho bobo. E que, modéstia à parte, entende da cria como ninguém.  Capaz de decifrar rabiscos aleatórios e manter longos e proveitosos colóquios em idiomas ininteligíveis. Sabendo que se pular mais uma vez vai entrevar, ainda assim pula. E rola. E ri. Numa felicidade tosca. Cheirando a bife, fritas e chiclete de goma.

É amar além da conta. Desesperadamente. Pensando em como seria bom se isso tudo fosse eterno. Mas crescem, viu?  E o que acontece depois disso, ainda não sei. E tenho raiva de quem sabe. Pois entre as coisas que mais me surpreendem está o tanto que esticam e encorpam e mudam numa velocidade irritante. Então, mimo, mesmo. Enquanto couber no colo. Pedir a mão. Atenção. Pra que ajeite o prato. O caderno. O laço e o cadarço.  E faço com gosto. Com vontade. Que amor pra mim é isso. E não tem quem me convença do contrário…

Mãe milagreira, conhecer, eu não conheço. Mas a gente bem que treina. Encavalando jornada dupla com plantão de hora corrida. Corrigindo lição, prescrevendo pomada, fazendo carreto e bico de leva e traz. Isso quando não damos uma de coelha da páscoa interina, fada do dente sênior ou amiga super-chegada dum tal velho Noel. Aliás, desse aí, melhor, mesmo, é anotar o telefone. Pra trocar whatsapp. Tem não, é? Passo agora. Deixa eu apanhar um lápis…

Gozado é que tem mãe que apita. Vem com um dispositivo interno que avisa toda vez que o filho apronta. Precisa nem olhar. Dá pra sentir de longe. Aí, toca a repetir a ladainha e corrigir e aprumar tudo de novo. Que criança é bom demais, mas educar é difícil e dá uma canseira danada. Pior que a gente sabe. E quem liga? Eu? Até parece…

Se pudesse, fazia de novo. Fazia dobrado. Fazia de conta e fazia pra sempre. Que sem você, filho, sou só metade. Sou só saudade. Nem sei dizer…

Mas eis que essa noite, aqui em casa, todos vão dormir juntinhos. Você no meio. Perturbando. Mãozinha engastalhada em meus cabelos, Ei? Peraí! Onde cê vai? Volta aqui. Fica só mais um pouquinho. Tipo uns dez, ou vinte… anos…  Fica, vai… Fica…

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