Misericórdia

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_Jantar de amigos? De novo! – emburrou ele.

_Qual é o drama? –  emendou ela, lacônica _Há coisas piores…

_ Fale por você – resmungou o bicho do mato. Desses que não abrem a boca por nada. Capaz de passar uma noite inteira convertido em estátua, num silêncio obtuso_ Esse negócio de frequentar não é comigo. Gente nova me dá arrepios. Principalmente se vêm em bando…

_Calma, benzinho – minimizou a moça, tratando de ser didática _Socializar é muito fácil. Preste atenção: o importante é manter o olho no olho. De resto é aparentar que está ouvindo. Concordar de quando em quando. E voilà…

_Jura? Só isso?

_Você tem que criar o momento, compreendeu? Chegar junto.  Parecer que se importa. Que entende. Depois, distribuir uns tapinhas nas costas pra cá, umas beijocas nas bochechas pra lá e quando perceber a noite passou voando. Vai por mim. É moleza…

_Será?…

_Ora, cale-se_ brincou ela, instigando de farra_ Somos casados, mas ainda não estamos colados, então, sossegue e se jogue, oras bolas! Que assim, num tem santa que guente, viu? Misericórdia…

De fato, quando a bendita noite chegou, compareceram os dois. Ela, num pretinho bem cintado. Enquanto ele, vestia seu sorriso amarelo mais apagadinho. Ainda assim, seguiu à risca os conselhos da patroa. Pior é que deu certo. E o jacu introvertido foi pinchado aos céus. Tachado de boa praça. E aprovado por aclamação.

O pobre nem acreditava. Só faltou benzer-se. Acontece que acabou afeiçoando-se aquela coisa toda de ser popular e, sem perceber, esqueceu-se do mundo. Das horas. E até da esposa. Que andava de um lado ao outro feito doida, atrás do paradeiro do marido-sensação.

Revirou a casa toda. Quartos. Salas. Banheiros. Piscina. Nada.

Faltou procurar na cozinha. Que era justo onde o beltrano estava. Fiel à sua nova natureza.

_Quer ajuda com essa assadeira? – perguntou o simpaticão, salivando sobre uma torta recém-saída do forno_ Aliás, que cheiro maravilhoso esse, hein? Tem cravo na massa, acertei?

_Uau…- assombrou-se a fulana_ É segredo de família. Minha avó costumava chamar de torta fumegante. Faço todo ano. Nem é grandes coisas…

Lembre-se de ser simpático, era a voz da esposa ecoando em seus pensamentos.

_Pois algo me diz que estou prestes a provar a melhor torta da minha vida. Quer apostar?

A outra derreteu-se toda. Quase a ponto de amassar com garfo.

_Já pensei até em revender, sabia? Mas hoje em dia o negócio é ter diploma e trabalhar num grande escritório. Ninguém liga pra bolinhos…

Ele, que não prestara atenção a meia palavra dita por ela, ainda assim afirmou _Sei como se sente.

_Verdade? No duro?

_Uhuhm _ e, conforme instruído, emendou _ Quer conversar sobre isso?

_Nossa… Seria tão legal… – e quando viu, rasgava o verbo: descendo a lenha no cunhado, sogra, marido, filhos. O diabo a quatro. E ainda sobrava assunto.

Ele? Nem tchum. Rememorando um a um os melhores gols do Rivelino e há quantas seu timão não levava um campeonato. O segredo é não perder o contato visual. O segredo é não perder o contato visual…

E foi assim, pensando em futebol, que ele nem viu quando a moça corou. Embevecida por toda aquela atenção inesperada.

_Quem diria: você é mesmo uma caixinha de surpresas – admitiu a dona por fim.

_ Hein? Oi? – era o outro. Voltando do transe num supetão.

_ Sabe de uma coisa?  – sussurrou ela, serpenteando sobre o moço_ Acho que já falei demais…

_ Jura?… Então…Olha só…

_Pois me conte _ pediu a doida, achegando-se mais e mais ao sonso, beicinho com beicinho – O que tem a me dizer, hein? Bonitão…

_O BONITÃO, eu não sei. Mas, A BONITONA AQUI, diz que já deu! Simbora, Don Juan… – era a esposa, furibunda. Apitando fim de jogo e marcando impedimento.

Enquanto a outra fingiu de morta.

_Estavamos falando da minha… tortafumeganteTá servida?

_Sei muito bem o que é quitá fumegando por aqui, viu? – e bateu com as esporas _ Quero, não. Tô fastiadaTorta fumegante, né?… Faça-me um favor…

E desapareceu com ele, arrastando casa afora. No carro a bronca continuou.

_Mas, benzinho…

_Ora, cale-se_ rosnou ela, espumando de raiva_ Não estamos colados, mas ainda somos casados, então, sossegue e se feche, oras bolas! Que assim, num tem santa que guente, viu? Misericórdia…

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