Segundas Intenções

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Voltou para casa mais cedo. Eufórica. Perturbando a vizinhança inteira.

_Cês viram? Estreia nesta quinta: Marcas de um amor. Parte seis. A lenda continua. E aí? Quem topa?

Nenhuma resposta. Pelo contrário. A mãe alegou cansaço e uma crise reincidente de labirintite. A irmã, trabalho. E assim, todos. Um por um. Tia. Tio. Concunhado. Conhecida de porta. Mocinha que vende Avon. Até que colou numa amiga mais chegada. Com quem insistiu, à plena carga.

_Te juro: indicado ao Oscar! Dá nem jeito de perder  – e completou, toda entusiasmada_ É a história da professora que perde o marido, o emprego, a casa, o carro, a guarda das crianças…

_Cruzes, que desgraceira! – benzeu-se a outra _ Quer saber? Para mim é mais do mesmo. Drama. Drama. Drama… fora, viu? Prefiro Mad Max…

E deu-se o impasse. Que sozinha não queria ir. Sendo assim, apelou. Ao marido. Que não disse sim, nem não. Mas quis saber.

_E o que vamos assistir?

_Marcas de um amor – silêncio feroz. E quando viu as feições do outro contorcendo, mudou por completo sua linha de argumentação_ A saga de Zorgh e a aniquilação do império da morte…

_Jura? – interessou-se ele, embora ainda bastante desconfiado_ E tem guerra?

_Opa!

_Corpos destroçados?

_Corações. Aos milhares…

_E sacanagem, tem?

Confirmou sem pestanejar, É só o que tem, e isso ele percebeu logo de cara: o único barbado no recinto, entre seis ou sete velhinhas que choravam desesperadamente, antes mesmo do filme começar.

Contei que a versão era estendida? Pois é. Em preto e branco, áudio original de 1920. Quatro horas e meia de trevas, choro e ranger de dentes. Dos quais ele não chegou nem nos letreiros iniciais. Já que dormiu, com a cabeça quicando ora de um lado, ora do outro.  E a boca torta de tanto roncar.

Ao final da sessão, saem todos, aos soluços. Menos ele. Que apesar da raiva que sentia, permitiu-se ironizar.

_Bonito, hein? O que houve aqui? Ficou tantã, foi?

_Há coisas piores no mundo – teimou ela, sem se prolongar.

_Pior que isso? Duvido muito. E quer saber? A partir de hoje ficamos em casa, pronto! Nunca mais saio contigo. Ouviu? Nunca mais, mesmo.

Ao que ela devolveu. Num tiro de misericórdia.

_Que pena. Justo agora que tinha dois ingressos. Área Vip. Maracanã…

_Não me diga que é Flamengo e Vasco?!

_Muito melhor… E mais não conto, porque é surpresa. Mas fique tranquilo, viu? – prometeu, positiva_ Vai ser um clássico!

Seguiu em frente, sem peso algum na consciência. Afinal, dois dos maiores tenores mundiais duelando em plena arena carioca, era pra-ti-ca-men-te uma final de Copa do Mundo. Ou algo bem próximo disso…

_Pô, chuchuzinho, você sempre pensando em mim, né? – pranteou ele, enquanto a outra não se dava por rogada_ Merece um beijo, sabia?  Um grandão, desses de novela – acrescentou, cheio de intimidades _ Só te falo uma coisa: dou graças a Deus, diariamente, pela esposa que tenho. Sério, mesmo…

Ela? Nem tchum. Envolvida como estava com as arias de Verdi, Bizet e Rossini. Se perguntassem, diria até que já ouvia: Fígaro aqui… Fígaro lá… Bravo. Bravíssimo…. La-la-la-lá!

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