Alô?!

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Ao celular, ele explicava, insistentemente.

_Não. Não é o Flávio. O celular é dele. Mas quem falando é o Alicate. Assaltante.  Isso, mesmo. Roubei ele, sim, senhor. Agorinha. Aqui perto, no Brás. Acontece que eu corri prum lado e ele saltou pro outro. Pronde foi? E como é que vou saber? Cada uma…

Assim foi. Até que estrilou.

_ Aluguel atrasado, é? E daí? Tenho nada com isso, não. Cobra dele. Pagar conta dos outros? Eu? Era só o que me faltava…

Eis que o caldo engrossou.

_Como assim, tomar o telefone? Mas nem pense numa barbaridade dessas. Cancelar a linha? Piorou. Escuta aqui, meu filho: era dele, mas, agora, é meu – procurando um meio termo_Ô chefia, será que não dava pra aliviar? Sei lá. Deixar fiado. Dar um desconto. Parcelar nalgumas vezes – enquanto remexia os bolsos para ver o que encontrava_ E cordão com medalhinha, aceita? Aliança. Dente cravejado…

Parece que entraram num acordo. Incrível é que demorou nada e já tocava de novo.

_ Só vou dizer o seguinte: não sou teu pai. Entendeu? Quer dizer, o celular é dele, mas quem falando aqui é o Alicate. Assaltante…

Deu nem tempo de continuar.

_Escola? Que escola, menina?  Peraí. Buscar, onde? É ruim, hein! Tô do outro lado da cidade. Não existe a menor chance de sair daqui pra…

Foi cortado pela garota, que fazia mil e uma ponderações. Desorientado, tentou contra-argumentar.

_ Mas é claro que tenho coração! Fala sério… É que o tio Alicate anda meio aperreado. Assunto de gente grande. Pois é… Chora, não. Por favor. Não chora…

Arregou. Tanto que concluiu, baixando de vez o tom de voz.

_Faz o seguinte: guenta a mão que chegando… Hein? Pirulito? De jeito nenhum, que depois não janta. Então, conta: como foi seu dia? Muita lição, é? Puxa vida…

Bem quando trinou novamente. Do outro lado um chefe em cólicas, esganiçando ao pé do ouvido.

_Atrasado, eu? Escuta aqui, mermão: não sou o Flávio, não. O celular é dele, mas quem fala é o Alicate. Assaltante. Isso, mesmo. Se entendo de quê? Excel? Diabéisso? E quem é X? Soma tudo e empilha onde? Eita…

Foi quando se deu conta das dificuldades

_Passar e-mail, como, companheiro? Lan House, né? Tô lascado… – crispou-se _ Mas vai ter que esperar, viu? Que ainda tenho que catá a bacuri. Morumbi, sim, senhor…

Desligaram. E o raio do aparelho se fez ouvir de novo. Voz feminina. Dessas de cair das nuvens.

_ Não. Não é o Flávio. O celular é dele. Mas… Madame, não adianta: não te conheço. Nunca vi no mundo, nem mais gorda, nem mais magra…

De resto, quis saber, cheio de intimidade.

_ Mas, conta: ele deu em cima de você, foi? Jurou amor eterno e prometeu casamento? Putz… Isso tudo se você fizesse… E Fez! Vigi…  – entregou a reza inteira_ Não que eu tenha nada com isso, dona, mas parece que o tal é casado, viu? Filha em cartório e tudo o mais…

Sei que a outra descabelou.

_Calmaí, moça: cruz-credo… E desafasta dessa janela, já-já!

Mas ela não estava para brincadeiras.

_Assumir você? Tá doida? Agora, respira. Anda! E larga mão desses remédios… Mas que mal eu fiz a Deus? Meu padim Ciço do céu…

E antes que tudo envergasse, balbuciou, espavorido.

_Faz o seguinte: só casando, né? – quis desprender-se, fugir, sumir num repelão selvagem. Invés disso, entregou-se_ Pois eu caso, pronto! Mas vai ter que ser mais tarde. Bem mais tarde, ouviu? Que primeiro vou buscar a bichinha. É. No Morumbi. E depois tô garrado numas planilhas. Dum tal de X. Conhece? Então… Celular duzinfernus…

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