Posso ajudar?

3 Comentários

Passou um tempo assim: sapeando a loja. De prateleira em prateleira. Fuçando tudo, sem escolher nada. A vítima perfeita. O pato. Tanto que, subitamente, chegou outro. Um vendedor. Todo cheio de lábia. Retorcendo em gentilezas.

_Posso ajudar? – sugeriu o funcionário, disposto a vender até o último item em estoque.

_Que bom que perguntou – assanhou-se todo o cliente, revolvendo uma papelada imensa_ Rapaz, caiu do céu, viu? Tô super apertado com a entrega de uns relatórios. Há três noites que não durmo, pode isso? – enquanto repassava _ É só preencher os cálculos aqui. Incluir os gráficos ali…

Ao que o outro refutou. Curto e grosso.

_Não vai dar, meu amigo.  Infelizmente.

_Jura? Que pena…  Mas ainda quer ajudar, né?

Foi taxativo.

_Opa! E como quero…

_Beleza! – agora, sacava contas. Várias. Insistindo em explicar_ Seguinte: eu fico com as atrasadas. E você com essas outras, de junho, julho, setembro…

_Nenhuma chance. Sinto muito.

_Sério? Nem essa menorzinha? Duas parcelas de R$49,90? Pô…

Sem se dar por vencido, tratou de desabotoar a camisa, deixando à mostra ombros, peito e um naco de pescoço.

_ vendo um calombinho aí? Cuidado que bem inchado…

 _E?…

_Ué!? Espreme…

O moço da loja pulou longe. Ao que o outro, prontamente, reagiu.

_Qual é o problema, gente? Espinhazinha à toa…

E continuou.

_ Não me leve a mal: mas, se não serve pra tirar cravo, fazer o meu trabalho, nem pagar as minhas contas, quer ajudar, como? Hein?

_Com as roupas! – devolveu o atendente, apontando prum mundaréu de ofertas à sua volta.

Sanado o mal-entendido, acabou conduzido a um estreito provador. Atulhado com peças de corte estranho, cores berrantes e que não favoreciam em nada sua roliça silhueta. Bastou vestir um troço feio qualquer e pronto. Reapareceu o vendedor. Numa falsidade incontida.

_Menino, ótimo!

_No duro?

_PER-FEI-TO! Mais que isso: valorizou seu corpo, destacou a cintura, ressaltou o seu… – e mais não disse. Pois teve seus lábios contidos num shiuuuuuuu longo e categórico.

_Não fale mais nada – implorou o homem dentro da cabine_ Melhor deixar o dito pelo não dito. Compreende?

_Compreender, o quê?

_Primeiro de tudo: eu te entendo, tá? Segundo: não te julgo. Pelo contrário, aceito. Do jeitinho que você é…

_Oie?

_Mas meu negócio é outro… Inclusive, até namorando uma dona que conheci recentemente. Nada muito sério, é verdade.  Afinal, ela não é linda. Nem nova. Tão pouco inteligente. Ou simpática. Mas topou sair comigo e, ainda por cima, racha as contas. O que é um lucro tremendo hoje em dia…

_Cuméquié? – retomou o funcionário, disposto a pôr os pingos nos is _ Senhor, acontece que as roupas que lhe trouxe…

_Tudo bem. Já entendi. São presentes, né? Se faz tanta questão, fico com elas. Todas. Já que é importante pra você…

Passou da conta. Hora de catar o celular e acionar os seguranças. Um gerente geral. Ou a equipe do manicômio. O que vier primeiro, atende…

_Uma selfie? – divertiu-se o doido_ Contanto que não saia postando por aí – e abriu os braços em sinal de acolhimento_ Vem cá pertinho, vem.  Xisssssssssssssssss…

Em seguida, um abraço forte.

Então, catou suas sacolas e sumiu, sem entender, Eu, hein? Como o povo anda carente. Credo…

dreamstime_l_44659384

3 comentários sobre “Posso ajudar?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s