Ossos do Ofício

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Tudo começou como de costume. Aos berros de, Perdeu, madame! Passa tudo…

No carro, só ela. Que ali ficou. Estarrecida. Até que no limite das forças, aproximou-se lentamente da janela do fiat que dirigia. Disposta a negociar.

Acontece que quem deu para trás foi ele. O xumbregado do desinfeliz dum assaltante. Boquiaberto de susto.

_Credo! O que fizeram com você? – admirou-se todo, catando o rosto da moça, só pra ver mais de pertinho _ Sua sobrancelha, nêga! Vai por mim: tá um horror…

_Nem fale. É que troquei de profissional…

_E essa franja, me explica? Dá nem gosto assaltar alguém assim: tão espinafrado – e suspirou_ Anda. Emborca essa cachola pra cá que eu dou um jeito…

Foi quando a pobre cerrou bem os olhos e entregou corpo e alma num abjurado, Danou-se. E durante longos e infinitos minutos só se ouvia o som da pinça trabalhando.

Pois é. Acreditem, ou não, o pior é que o homem não fez feio. Pelo contrário, deu um show. Tanto que a outra quis detalhes.

_Ficou ótimo! Mas, como?

_Truque de diva, né, fofa? – pigarreou, limpando a voz _ É que eu canto na noite, colega. Show business, compreende? Isso aqui é hobby. Tempos de crise. A gente tem mais é que diversificar…

Sei que o caboclo não calava mais. Cuidando de dar a receita completa

_ Charlenny Love. Euzinha, sim, senhor. E não sou de me gabar, mas meu repertório é fino e variado: de Nat King Cole a Joelma. Passando por Wanderléa, Wando, Elza Soares…

Súbito, entoou.

_ Eu bebo sim,  Eu tô vivendo, Tem gente que não bebe, E tá morrendo…

Bastou para que a fileira de carros engastalhados justo atrás deles resolvesse se pronunciar. Primeiro, uma buzinadinha ou outra. Mas logo o buzinaço era geral.

O cabra não quis saber de papo.  Com dois tiros pipocados pro alto e um aconselhamento cuspido longe.

_Calma, pô! Não tão vendo que estamos discutindo arte aqui? Por isso, esse país não vai pra frente. Povinho bitolado. Eu, hein?…

Foi a vez da moça sacar dum cartãozinho e repassar, dizendo.

_Olha, só: tenho um tio dono de bar. Ligue. Quem sabe…

O outro, reconhecendo o endereço, completou.

_Casa de esquina, né? Grande. Toda Branca. Tive lá ainda outro dia. Arrastão mais lindo, gente! Dava gosto de ver  – e congelou de repente _ Já viu o tamanho daquele palco? E eu? Visto o quê? Melhor dar uma ensaiadinha. até mareado…

_Que nada – consolou a mulher_ Confiança antes de tudo – e emendou_ Repita comigo: eu posso, eu quero, eu consigo…

_Valeu, mesmo – agradeceu o coisa ruim, tratando de acrescentar em seguida- O negócio é o seguinte: nem imagina como está difícil viver de gogó hoje em dia. Então, se puder colaborar…- e foi passando a sacolinha: celular, correntinha, aliança, relógio, dólar, euro. Quando teve a brilhante ideia_ Que tal uma palhinha enquanto arrecado? Quer ouvir, o quê? Djavan? Barry White? Anita?

Ele perguntava e ele, mesmo, respondia.

_ Gostei de você, viu? E, agora, já sabe: bateu aquela vontade de uma música boa, ou de uma limpa honesta, eu aqui. De segunda a sexta. Sempre no mesmo farol. Terceiro carro, faixa da direita. Prefiro. Sei lá. Sou de câncer. Deve ser por isso…

Enfim. Coleta feita, despediram-se. E o outro ainda cantava. Muito. Até demais.

_Você é luz, É raio estrela e luar, Manhã de sol, Meu iaiá, Meu ioiô…

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4 comentários sobre “Ossos do Ofício

  1. Vida não tá fácil não benhê! Pra variar, euzinha comendo meu lanchinho da tarde e lendo seu texto. E me engasgando de tanto rir de boca cheia. Meu colega da frente deve me achar uma pessoa bem esquisita, rs
    Mais um texto show pra minha coleção. Adorei!

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