Posso ajudar?

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Passou um tempo assim: sapeando a loja. De prateleira em prateleira. Fuçando tudo, sem escolher nada. A vítima perfeita. O pato. Tanto que, subitamente, chegou outro. Um vendedor. Todo cheio de lábia. Retorcendo em gentilezas.

_Posso ajudar? – sugeriu o funcionário, disposto a vender até o último item em estoque.

_Que bom que perguntou – assanhou-se todo o cliente, revolvendo uma papelada imensa_ Rapaz, caiu do céu, viu? Tô super apertado com a entrega de uns relatórios. Há três noites que não durmo, pode isso? – enquanto repassava _ É só preencher os cálculos aqui. Incluir os gráficos ali…
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Ossos do Ofício

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Tudo começou como de costume. Aos berros de, Perdeu, madame! Passa tudo…

No carro, só ela. Que ali ficou. Estarrecida. Até que no limite das forças, aproximou-se lentamente da janela do fiat que dirigia. Disposta a negociar.

Acontece que quem deu para trás foi ele. O xumbregado do desinfeliz dum assaltante. Boquiaberto de susto.
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Ops…

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_Sua mesa está pronta, senhor. Queira acompanhar-me , por favor – pavoneou o garçom, sambando em frente da família. Pai, mãe e uma tripinha de filhos.

_Sejam bem-vindos – continuou o funcionário, enquanto lhes indicava as cadeiras_ Já sabem o que pedir? Não? O especial da casa, hoje, é espaguete com almondegas. O melhor do mundo. Não vão se arrepender.

Súbito, quando menos esperavam, retornou ele. Pratos fumegando e abarrotados de macarrão.

_Garçom?  – era o pai, reclamando_ Temos um probleminha aqui. Quedê as almondegas? Não vieram.

_Em absoluto, senhor –  devolveu o outro, destampando uma enorme travessa – Nossas almondegas são personalizadas. É que nosso cozinheiro é estupendo. Um gênio na arte das caçarolas _ e prosseguiu, servindo prato a prato _ Aparício, para o senhor, Zulmira, para a senhora e Huguinho, Zezinho e Luizinho, para as crianças.

O pai, arredio como era a novidades e suas pajelanças, fez cara feia e tratou de impor resistência, protestando.

_Desculpe. Mas deve haver algum engano. Essa almondega, definitivamente, não é minha. Já que sou Aparício Rodrigo.

_Certamente – admitiu o empregado_ Perdoe-me o erro, senhor. Estava aqui o tempo todo – trocando a pelota de carne por outra _ Aparício Rodrigo Bastes Coelho da Fonseca Torres Junior. Confere?

A mulher foi ao delírio. E pediu uma quentinha cheia. Quinze quilos, não mais. O suficiente para presentear a vizinhança toda lá no Morro dos Cabritos. Enquanto Aparício, visivelmente contrariado, buscava um novo jeito de interpor recurso. Tanto que desdenhou.

_ Nem essa. Já que sou engenheiro.

_Pois não – disse o rapaz, permutando a almondega mais uma vez _ Formado pela Federal Fluminense. Trinta e cinco anos de carreira. Que tal essa, senhor?

Mas o homem não desistia.

_Ainda não. Que sou espírita

Outra porpeta. Mais roliça e macia que as anteriores.

_ Centro Irmãos da Luz, toda terça e quarta. Das 19:00 às 21:30hs…

_Centroavante – gabou-se Aparício Rodrigo, Agora, eu quero ver. Vire-se com essa, meu filho…

Nova bolinha de carne.

_Camisa nove. Time dos casados. Não marca um gol há sete rodadas do campeonato…

Sei que a coisa ficou pessoal.

_Aí não diz que eu sou casado. Viu, só? Não é minha.

E as almondegas sucediam-se.

_Basílica do Imaculado Coração de Maria. Três pajens e uma festa meia-boca. Cinco de janeiro de mil novecentos e oitenta e um…

A verdade é que Aparício Rodrigo espumava, Onde já se viu? Almondega nenhuma sabe mais da minha vida do que eu!, e tiririca da Silva, vociferou.

_Colega: na cara que essa almondega não é minha. Compreendeu? NÃO-É-MINHA!

_E não é que o senhor tem razão?  – espantou-se o garçom, realizando nova troca_ Agora, sim: enrabichado da Zenaide. Há um ano, três meses e dois dias…

_Oi? – esbranquiçou o homem _ Não tenho a mínima ideia do que essa almondega está falando.

_Como não? Tá aqui ó: estagiária, curvilínea, atrevida e que mal completou dezenove…

Foi a vez da mulher entrar na dança. Com um golpe incisivo do seu salto agulha, acertando em plena fúria o dorso do pé do marido. Que gemeu. Enquanto os ossinhos estalavam.

_E com fratura na falange, tem? – perguntou ela. Toda interessada.

_Bom. Não sei – desconversou o funcionário da casa.

Novos solavancos e sopapos e saraivadas de tapas e beliscos.

_Faz o seguinte, procure aí : esfolado vivo, contundido, despejado… Que desquitado eu sei que tem. Certeza absoluta, viu? Olhe direitinho, que eu juro que você acha…

OPS